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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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"Somos sempre todas postas na mesma gaveta". O preconceito e o privilégio de ser uma irmã Patrocínio /premium

Cresceram num matriarcado e são hoje um clã indivisível, com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Falámos com as irmãs Patrocínio/Jacobi, pela primeira vez juntas em entrevista.

O fenómeno há muito que deixou de olhar a sobrenomes. Patrocínio é hoje um emblema de união familiar, mas também um caso muito bem sucedido de popularidade online. Através das redes sociais, seis irmãs partilham os momentos que passam juntas, fazem revelações e desabafos, dão pistas sobre as rotinas do quotidiano ou mostram simplesmente do que são feitos os momentos mortos. No final, feitas as contas, uma audiência de mais de 1,3 milhões de utilizadores (só no Instagram) observa o clã através de um sistema multicam.

“Pela primeira vez estou mesmo maquilhada. Isto não é um filtro”. O alerta é lançado por Victoria Jacobi, horas antes do encontro com o Observador, e requer contexto. A mais nova das irmãs prefere ser tratada por Vicky — bem mais ligeiro. Na prática, não há meias-irmãs, tão pouco o facto de não ter o sobrenome Patrocínio a exclui desta irmandade inexpugnável. Tal como Mónica, é fruto da segunda união de Teresa, logo, se o sucesso desta trupe dependesse do rigor genealógico, estaríamos agora a discorrer sobre as irmãs Viera de Almeida, netas do fundador de umas das maiores sociedades de advogados do país. Atenção, quaisquer semelhanças com a família que fez carreira na reality TV do outro lado do Atlântico é pura coincidência.

Elas não se cingiram ao berço. Carolina, a primeira a ser conhecida pelo público, tornou-se apresentadora de televisão aos 16 anos e lá continua. Duas seguiram a disciplina que predomina na família, o Direito. Há ainda uma designer e uma estudante de desporto entre elas, para não falar nos impulsos empreendedores que já deram origem a negócios como a BabyLoop, a Grow e o Rita Patrocínio Studio.

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Adiante. Bateram as duas da tarde e as entrevistadas chegaram ao Ritz, meia dúzia delas como previsto. Pontualíssimas como surpreende sempre em dia de chuvada. A cumplicidade é flagrante. Há sempre uma gargalhada ou uma nota de sarcasmo, mesmo quando o siso se impõe na hora de fazer um retrato de grupo. Há afinidades maiores dentro do clã. Quis a mãe que crescessem aos pares para que a melhor amiga estivesse sempre dentro de casa. É nisto que começam a tornar-se adoráveis e intrigantes — por conseguirem manter sólida uma irmandade que vai dos 17 aos 35 anos e por terem perfis tão diferentes que um qualquer dramaturgo as podia ter inventado numa tarde como esta.

Com a Sala Almada Negreiros por nossa conta, instalámo-nos para a conversa. À primeira vista, o esquema de um para seis parecia meio caminho para uma partida desleal, mas as irmãs sabem distribuir jogo. A verdade é que dificilmente lhes faltará assunto. O diário do confinamento, o matriarcado em que cresceram, a exposição, as polémicas e as perdas — de tudo isto é feito o clã Patrocínio/Jacobi que, mesmo assim, ainda guarda segredos atrás da câmaras.

Ajudem-me a perceber uma coisa: quão próximas são?
Carolina: Eu e a Mariana vivemos à frente uma da outra, não podíamos estar mais próximas. Falamos todos os dias, a toda a hora. Passamos grande parte do dia juntas ou em atividades em conjunto, seja com os nossos filhos, ao almoço, no ginásio…
Mariana: Diria que a Mónica e a Vicky também têm essa proximidade.
Carolina: Sim, elas ainda vivem na mesma casa, apesar da Mónica passar algum tempo no estrangeiro.
Inês: Existe um chat de irmãs onde, quase a cada duas horas, falamos umas com as outras e onde também está a nossa mãe. Depois, há os pares — eu e a Rita, a Mónica e a Vicky, a Carolina e a Mariana — que, tendencialmente, falam mais entre si.
Vicky: E depois há a casa da mãe. Agora no lockdown, estou lá sempre eu, a Rita a Mónica e a Inês, há um ano a convier diariamente.

Como é que uma família unida se adapta ao confinamento?
Carolina: Tendo em conta a dinâmica da família, acho que o confinamento não é algo assim tão estranho em relação ao que já se passava nas nossas vidas. Nós vivíamos de forma muito unida, com o polo central em casa da minha mãe. Mesmo em alturas de não confinamento, confinavamo-nos muito lá, fosse ao fim de semana, a almoçar durante a semana. Isto apenas veio acentuar isso.
Mariana: E o agregado de mãe e filhas e é assim que vivemos o confinamento.

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Mariana Patrocínio, 35 anos

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É a filha mais velha de Teresa Viera de Almeida e Pedro Patrocínio. Formou-se em Direito e trabalha na Casa da Árvore, escola para crianças até aos três anos fundada pela mãe em 1993. Emotiva e sensível, nas palavras da irmã Carolina, é casada com Alexandre Esteves de Oliveira. Tem três filhos: Mateus, Pureza e Mariana. Em janeiro de 2020, falou publicamente sobre o diagnóstico do filho mais velho, uma doença autoimune crónica que ataca as articulações do joelho.

Para as mães, este período exige um esforço redobrado. Qual o balanço que fazem?
Inês: Mesmo assim, consideramo-nos umas sortudas. Conseguimos ter os miúdos mais ou menos ocupados, temos casas em que cada um tem o seu espaço, mesmo não sendo o ideal porque acho que as crianças estão felizes é na rua. Mas não nos podemos queixar. É claro que, como todos os pais, sofremos de algum desgaste, de alguma tensão.
Carolina: É exatamente isso. É o cansaço acumulado da convivência permanente e da falta de possibilidade das crianças brincarem na rua ou de terem programas fora do seu âmbito familiar. Nesse sentido, fica um ambiente menos saudável. Tenho quatro filhos, todos muito pequenos. Estaria a mentir se dissesse que a minha casa não é caótica. A minha casa é um caos absoluto de barulho e de crianças a brincar.
Mariana: Os nossos filhos, ainda assim, são privilegiados por poderem brincar uns com os outros. Mas é difícil explicar às crianças, por isso estou constantemente a lembrá-los que existe o coronavírus e que ainda não se foi embora. Existe também essa parte, a do desgaste psicológico das crianças, e não é fácil de gerir. Agora, tenho dois na telescola e diria que, se não conseguirmos relaxar, é mesmo um trabalho a tempo inteiro e acho que isto se aplica a todas as mães. Há que fazer um exercício diário de pensar que aquilo não nos pode absorver e não pode ser o centro das nossas vidas.
Rita: O Mateus esteve dois dias em casa da minha mãe em telescola e nós estávamos a dar as quatro em malucas. Tínhamos reuniões, não conseguíamos ouvir e depois ele precisava de ajuda. Percebemos realmente o trabalho que dá e o quão difícil é.
Mariana: É a tal capacidade de abstração de que falo e que elas se calhar ainda não têm.

E profissionalmente, como estão a atravessar esta pandemia?
Inês: Para mim tem sido um período de grande transição. Foi no início da pandemia, logo em março, que comecei a largar o meu trabalho antigo para abraçar um projeto novo que é a Grow, a minha marca. Nada foi normal. Toda uma adaptação à nova vida de montar um negócio, com todo o stress que implica. E com a pandemia à mistura tem sido uma aprendizagem. Acho que, dentro do mau, acontecem coisas boas. A Grow e outros negócios online têm conseguido criar um espaço novo junto de muita gente que se calhar preferia comprar as coisas presencialmente.
Carolina: Se me dissessem há dois anos que ia fazer um programa de televisão a partir de casa, assim como as minhas colegas, nunca acreditaria. A verdade é que isto veio mudar o panorama todo nas várias áreas, mesmo na televisão. Abdicámos de ir a estúdio, gravamos com os nossos telemóveis, fazemos Skype calls com os entrevistados. Foi uma adaptação absolutamente radical. Haja trabalho para o continuarmos a encarar isto como uma frase.
Mariana: Tenho a telescola dos meus filhos e depois a gestão da escola. Às vezes queixo-me que os meus filhos não são autónomos ou que têm trabalhos a mais, mas depois tenho de tentar estar mais próxima das famílias e aliviar de alguma maneira os pais e as mães que têm filhos em casa como eu. Como em todas as famílias, é difícil estar num computador com duas crianças ao lado em telescola, mas vou gerindo, às vezes mais à noite, outras vezes acordo mais cedo, outras vezes não tenho paciência para estar com eles e estou sozinha, focada no meu trabalho. É ir gerindo dia a dia.
Rita: Tenho um trabalho das nove às cinco numa empresa do grupo Volkswagen, onde sou designer. Tenho estado em casa da minha mãe a trabalhar, com elas. Também comecei um projeto meu, um bocadinho antes da pandemia, portanto veio assim num timing porreiro. Tenho tentado conciliar as duas coisas e fazer o melhor que consigo.
Mónica: Estive meses na Holanda, tudo normal. Deu para aproveitar, fazer amigos e tudo. Agora, essa dinâmica de ir para fora, ir a festas e conhecer pessoas meio que se perdeu. E sendo o curso de desporto, é um bocado mais difícil ser online.

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Rita Patrocínio, 25 anos

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É a mais nova das irmãs Patrocínio. Designer de profissão, a irmã Inês descreve-a como serena e generosa. No último verão aventurou-se em nome próprio ao abrir um atelier dedicado a vestidos de noiva. Atualmente, Rita namora com o ator Tiago Teotónio Pereira, de 31 anos.

No vosso caso, Inês e Rita, um pouco como todos os pequenos negócios, tem sido especialmente desafiante?
Inês: Quando uma pessoa acredita no projeto e cria uma coisa com propósito e com contexto, isso transparece para as pessoas, mesmo que as circunstâncias não tenham sido as ideais. Acredito mesmo que a Grow nasceu de uma necessidade e essa necessidade continuar a existir. Se calhar, por esta altura, já teria aberto um espaço para as clientes irem experimentar os soutiens. Não fiz isso, fiz outras coisas. Adaptei o site, ficou mais user friendly. Acho muito importante que as boas ideias continuem a chegar às pessoas. Tenho sorte — está a correr muito bem.
Rita: Há algo que diferencia completamente os nossos negócios. O da Inês começou online, eu tenho um espaço aberto com custos, com pessoas a trabalhar diariamente. Por ser direcionado a noivas, é um negocio completamente pessoal e intimista, que muito dificilmente consigo fazer através de um site. Não estou a conseguir realizar nenhuma marcação nem nenhuma prova agora, mas há sempre a esperança de que as coisas vão melhorar e de que os casamentos vão continuar a acontecer. No fundo, é manter algum otimismo.

Mónica e Vicky, ter este quarteto de irmãs mais velhas como referência pode ser tão inspirador como um fator de pressão. Como é que encaram isso?
Mónica: Acho que nunca sentimos assim uma pressão gigante. Tivemos momentos em que a parte do fitness e tal nos fazia sentir mais desconfortáveis na praia, mas com a idade aprendemos que temos todas personalidades bastante diferentes. Como irmãs mais novas, fomo-nos protegendo, com a nossa própria personalidade. Não sentimos que dependemos do clã.
Vicky: Durante muito tempo, não me apercebi do impacto que elas tinham. Foram sempre todas muito discretas. A Carolina começou muito cedo, mas era super discreta. Só comecei a perceber que as pessoas as conheciam e se inspiravam nelas quando íamos à praia ou quando íamos ao Slide & Splash e pediam para tirar fotografias. Acho que, mesmo nessa altura, nem percebia muito bem o que se estava a passar.
Mónica: Que não era tão normal como achávamos que era.
Vicky: Por isso é que acabou por não ter muito impacto.
Carolina: Achavam que todas as irmãs mais velhas eram assim? [Risos]
Inês: Isso é super fixe. Vocês cresceram as duas muito confiantes de quem vocês são e são muito diferentes, não só de nós mas uma da outra.
Mónica: Há muitas pessoas da nossa idade que vêm ter connosco e perguntam como é que é viver com elas. Eu sei lá.. É o normal para nós.

Existe competição entre irmãs?
Mariana:
Existe, mas diria que é uma competição que nos torna mais fortes.
Inês: Não acho que haja competição. Uma coisa é competir quando se está a fazer um desporto específico, mas isso é no sentido estrito. Somos tão diferentes…
Carolina: Não há competição profissional, de ambição. É uma competição saudável na dinâmica familiar, seja no desporto que fazemos juntas…
Rita: Seja para ser a preferida da mãe ou para saber quem é que faz melhor a espargata (que ninguém faz). [Risos]
Mariana: Talvez não seja competição, é assim um picanço, umas bocas que mandamos umas às outras. Mas o que disse sobre nos tornar mais fortes é em termos de poder de encaixe, de melhorar isto ou aquilo, de querer ser melhor.

Nos últimos anos, voltámos a discutir temas como a igualdade de género, a justiça salarial entre homens e mulheres, o sexismo e a misoginia como males ainda entranhados na nossa sociedade. Quando se cresce nesta irmandade, chega-se ao mundo lá fora mais preparado ou mais vulnerável?
Inês:
Tem sido um ambiente enriquecedor, mesmo quando alguém tem uma posição ligeiramente diferente. Não sinto que sejamos uniformes nisso, todas têm as suas opiniões.
Carolina: Fomos criadas num matriarcado, foi essa a base da nossa educação. Somos seis mulheres, vivemos com a nossa mãe e tínhamos uma avó muito presente nas nossas vidas, ela era o símbolo máximo da nossa família. Por isso, fomos sempre educadas com esse poder no feminino, com a importância das nossas vozes serem ouvidas, a podermos discutir de igual para igual numa mesa e com conversas abertas, não às mulheres, mas às crianças também. Portanto, essa liberdade de pensamento e de sentido crítico sempre foi muito fomentada na nossa família. Até me chocou, na fase adulta, quando comecei a perceber as desigualdades reais que aconteciam lá fora. Na nossa casa, as mulheres são muito respeitadas e têm, muitas vezes, a última palavra.
Mariana: E antigamente, muitas mulheres não trabalhavam, enquanto na nossa família, das gerações que conhecemos, todas trabalharam. A nossa avó tirou um curso superior e trabalhou a vida toda, a nossa bisavó também. Sempre crescemos com mulheres fortes e muito respeitadas.
Rita: No fundo, isso acabou por nos proteger um bocadinho.
Carolina: Sim, eu não estava alerta para estes temas até há meia dúzia de anos, é por isso que é importante estarem na agenda pública. Isso e as discussões sobre feminismo que as mais novas trazem muito para cima da mesa. Discussões que não tínhamos porque não nos diziam nada, porque sempre foi algo inscrito no nosso ADN.

O ambiente protegido de que fala a Rita resulta também de um privilégio financeiro?
Inês: Sim, exatamente.

Falando em enfrentar o mundo lá fora, a Carolina foi a primeira a dar o corpo às balas, precisamente por ter sido a primeira a expor-se mediaticamente.
Carolina: Ter começado muito nova fez com que fosse um processo gradual. Não tive uma exposição mediática do dia para a noite. Estamos a falar de há muitos anos atrás — a televisão era bastante diferente, não tínhamos redes sociais –, é difícil comparar com os dias de hoje, com os casos mediáticos que surgem de repente. Não posso pôr a minha família toda num saco e dizer que reagiu de certa forma porque há individualidades e personalidades. O meu pai sempre teve um sentido artístico mais apurado, apoiou-me em certas coisas e tem uma opinião mais participativa na minha carreira. A minha mãe menos, é mais reservada, mais anti este lado da exposição. Dou o corpo às balas desde miúda, mas porque a minha personalidade também é assim. Considero-me uma pessoa segura e sei que esta profissão também não é para toda a gente. Somos muito atacados, muito expostos e defender-me disso faz parte da minha personalidade, embora também tenha trabalhado nisso. Quando a minha família foi atacada também reagiu. Quando saíram capas sobre o divórcio dos meus pais, eles agiram judicialmente. Neste momento, já está tudo muito calejado.

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Carolina Patrocínio, 33 anos

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Com apenas 16 anos, estreou-se como apresentadora do Disney Kids e foi na SIC que fez carreira. Atualmente, é uma das caras do Fama Show e tem o seu próprio programa na SIC Mulher, o What’s Up TV. Carolina soma polémicas: das grainhas da uvas ao exercício físico durante a gravidez. Em 2019, lançou a BabyLoop, uma plataforma de venda de artigos de puericultura em segunda mão. Mariana define-a como confiante e divertida. Casada com Gonçalo Uva, é mãe de Frederica, Diana, Carolina e Eduardo.

Ter sido a mais atacada fez com que fosse a mais preparada para lidar com o lado menos bom da exposição mediática?
Carolina:
Ainda sou, no sentido em que ainda digo às minhas irmãs para relativizarem determinadas notícias. Digo-lhes que é apenas um dia e ensino-as a fazer o exercício que faço comigo, de visão helicóptero — de nos vermos de cima, de vermos que somos absolutamente insignificantes num estádio de futebol, de acreditarmos que os nossos problemas se vão resolver e que, no final do dia, o sol se vai pôr e teremos uma nova oportunidade no dia seguinte. Tive de fazer isso comigo pelas condições em que me encontrava, pelas frases que eram descontextualizadas. Se numa fase isso me tirava o sono, hoje em dia dificilmente me conseguem atacar, seja com um argumento sobre o meu corpo — se estou gorda, se estou magra — ou sobre a forma como educo os meus filhos. Felizmente, fi-lo a tempo e horas. Tenho 33 anos e estou altamente preparada para essa exposição mediática.

Foi aprendendo a gerir os ataques que, entretanto, começaram a chegar também através das redes sociais?
Carolina: Esse cyberbullying, que ninguém pode negar que existe, tem de ser um assunto em cima da mesa. O facto de ter sobrevivido e de me ter dado bem na minha vida profissional e pessoal, não quer dizer que todos tenham essa capacidade. É importante que haja campanhas, porque atrás de um telemóvel pode haver alguém a sofrer muito ou a desistir dos seus sonhos por ter ouvido um determinado comentário. Aconteceu na minha vida durante vários anos e quando me dizem as que redes sociais exponenciaram isso, é verdade. Mas por outro lado, vieram salvar-nos. Através das minhas redes consegui dar-me a conhecer de uma forma que na altura dos paparazzi não conseguia. Tudo o que eles punham nas revistas era verdade para o público. Neste momento, as pessoas conseguem conhecer-nos e tirar as suas próprias ilações. Podem continuar a não gostar de mim, mas consigo ser transparente na comunicação que faço, na forma como levo a minha vida, como educo os meus filhos, como trato as minhas irmãs, como respeito as pessoas com quem trabalho.

Foi por isso que decidiu abrir essa janela?
Carolina: Fi-lo de forma natural e sinto que, hoje em dia, os meus canais falam por mim. Isso é muito poderoso, Somos nós que temos o controlo. Tinha muita dificuldade em tentar negar o que tinha sido descontextualizado, era um exercício sempre muito desgastante, muito triste e solitário.

Foram episódios que fizeram mossa?
Carolina: Claro, foram ataques ao meu aspeto físico quando tinha 18 ou 19 anos, quando ainda não tinha formado na totalidade a minha personalidade. Hoje, é diferente atacarem-me a mim e atacarem a minha irmã Vicky, sobre um aspeto que ela não goste no seu corpo. Ter esse calo é muito importante. Esses ataques doeram na altura, tal como os títulos que fizeram de “pobre menina rica”. Sendo criada num âmbito familiar tão seguro como o meu, ser considerada uma pessoa mimada foi um ataque muito feroz. Nós nunca protegemos os mimados, pelo contrário. incentivamos a pessoa a ser responsável pelos seus atos. A palavra mimada pode não significar muito para uma pessoa, mas no meu caso comprometeu a minha integridade.

Houve alguma evolução desde essa altura ou continuam a dizer-se e a escrever-se as mesmas coisas sobre si?
Carolina: O facto da comunicação ter passado quase na totalidade para o digital, onde as figuras públicas comunicam aquilo que querem, lhes dá muito poder. Dificilmente um meio de comunicação consegue inventar de forma descabida algo porque depois é confrontado com a figura pública falar sobre o que se passou na realidade. No caso da minha família, essa distinção sempre foi muito clara. De forma inteligente ou mesmo sem se aperceberem, afastaram-se um pouco desse lado público. Às tantas, eles até achavam que tinha duas vidas: a Carolina na SIC e a que era em casa, nas férias e com os meus amigos de sempre. Hoje já se fundem mais, mas durante muitos anos tive vidas quase distintas.

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Victoria Jacobi, 17 anos

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Victoria prefere ser tratada por Vicky e é a benjamim da família. “É das pessoas mais criativas que conheço e não tem vergonha na cara, no bom sentido”, é a descrição avançada pela irmã Mónica. Vive com os pais e é maioritariamente a partir de casa que faz furor no TikTok, onde tem mais de 42 mil seguidores. Quanto ao futuro, considera-se perdida.

E depois do público a conhecer, dá a sensação de que foi desbravando o resto da família.
Inês: Nunca houve nenhuma estratégia faseada para essa exposição.
Mónica: Eu e a Vicky criámos um Instagram, vocês punham uma fotografia connosco e recebíamos 200 ou 300 pedidos de amizade. Chegou a um ponto em que tornámos os perfis públicos porque entre estes todos haviam de estar amigos meus que queria que me seguissem. Foi assim que começou a crescer.
Vicky: O que tem piada agora é que vocês nos deram o arranque, mas depois as visualizações foram trazendo outras pessoas. Hoje, tenho vários seguidores que não sabem…
Carolina: Que és nossa irmã? Quem são esses palhaços? [Risos]
Mónica: É do apelido. Há pessoas que não chegam lá.
Rita: Acho que passa muito pela curiosidade das pessoas que começam por ver uma irmã com outra, depois vão ver quem é e acabam por conhecer os filhos e o resto da família e vão ganhando interesse. No caso da Inês, se calhar o discurso está mais virado para a amamentação e para os filhos, a Mariana para o fitness… Não querendo pôr as pessoas em caixas, acho que é mais por aí.
Inês: E as pessoas também se reveem na dinâmica familiar, não é? Há sempre uma dose loucura e de caos com a qual se identificam e acham piada. Mas foi um processo bastante natural.

Têm muitos milhares de seguidores no Instagram — a Carolina já vai a caminho de um milhão — e partilham vários momentos da vida familiar. Nunca se sentem num reality show, mas sem andarem com as câmaras atrás?
Inês:
Não me sinto num reality show. Vocês sentem?
Mariana: Sinto mais isso quando não estou a filmar nada. Sinto que a nossa vida é caótica, mais verdadeira e que sim, podia dar um reality show.
Inês: Acho que as pessoas já conseguem ter uma bela imagem de como são as nossas vidas.
Carolina: conseguem um insight bom daquilo que se passa na verdade, dos sítios que frequentamos, das pessoas com quem nos damos, da nossa dinâmica do dia-a-dia.
Rita: Se for um evento em que estejamos todas, realmente dá para ver todas as perspetivas e todos os ângulos possíveis, como se fosse um programa.
Vicky: Eu própria, a seguir a uma tarde todas juntas, vou ver tudo de todas para saber o que aconteceu onde eu não estava. O que é que se estava a passar na sala enquanto fui à cozinha.

Fariam um reality show?
Rita: Essa discussão tem barbas.
Carolina: Vamos fazer quando já ninguém tiver dentes, tudo de bengala. [Risos]
Rita: É muito difícil chegarmos a um consenso.
Carolina: É muito difícil chegar a um consenso sobre qualquer coisa nesta família. Diria que a probabilidade de um reality show ser impossível ronda ali os 99%. É difícil concordarmos todas sobre isso.
Rita: E temos personalidades diferentes. Há pessoas que se sentem mais confortáveis, outras não. Até que ponto é que vamos expor as nossas vidas e os filhos delas. Em certos pontos, é mais difícil chegar a um consenso.
Carolina: Estamos no panorama português, os reality shows que temos como referência na televisão em Portugal também não são algo com que nos identifiquemos. Dificilmente embarcaríamos numa aventura sem termos uma referência óbvia daquilo que seria.
Vicky: Nós podíamos ser a referência. [Risos]

Apesar da exposição, continua a haver momentos que não chegam às redes sociais?
Carolina: Muitos, diria que os mais importantes.
Inês: Ainda temos bastante esse controlo.
Carolina: Temos controlo máximo. As relações amorosas e com os maridos — ninguém sabe de nada.
Inês: As pessoas dizem que parece que estamos a viver a nossa vida e que eles estão sempre no backstage. Nós escolhemos que seja assim, na verdade.
Carolina: Eles são muito protagonistas na vida real e isso não passa nas redes. Por isso é que em digo que é um insight leviano do que se passa na nossa vida, das relações entre nós. Mas há muitos protagonistas que não entram e são fulcrais nas nossas relações.
Vicky: Nós não queremos, nem eles. Em casa, não posso filmar nada da mãe nem do que diz sem a mãe saber. É das grandes protagonistas da nossa família, mas é a que menos quer entrar.
Rita: Todas concordamos que se fosse uma coisa só entre nós, não haveria grande problema. É o que já mostramos. Agora, tudo o que passa por maridos, familiares próximos e filhos é um tema mais sensível e mais difícil de gerir. Como é que se iam controlar as coisas mais íntimas?

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Mónica Jacobi, 19 anos

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É a filha mais velha de Teresa e Mark Jacobi e, de todas a irmãs, a que menos paciência tem para as redes sociais. Vicky, a irmã mais nova, define-a como calma e reservada, mas também com alguém inesperado. Estuda Desporto, embora a pandemia a tenha feito voltar de Groningen, na Holanda, no final de primeiro semestre.

A adaptação a essa exposição da vida familiar, ainda que controlada, foi fácil para todas?
Mónica: Em comparação com a Vicky ou com a Carol, não interajo muito cara a cara com os meus seguidores. Gosto porque vou falando com várias pessoas que não conhecia antes, mas há imensos momentos em que se torna chato, sempre que quero postar alguma coisa minha ou de um amigo e tenho de ter o cuidado de não o fazer por haver mais pessoas a ver. Todos os meses penso em apagar esta conta e fazer uma nova, mas acabo sempre por gostar. É verdade, gosto da atenção.
Inês: Há muito responsabilização também. Estamos sempre a ouvir: “estou dececionada” ou “não esperava isto de si”. Ou no sentido contrário: “valorizo muito a sua opinião” ou “o que é que acha que faça?”.
Carolina: Há uma responsabilidade acrescida.
Vicky: Foi tão rápido. Lembro-me de estar sempre a mudar o meu perfil entre público e privado porque estava sempre indecisa sobre em que lado é que estava, se queria manter só os meus amigos mais chegados ou não. Mas começou a ser um bocado difícil. Houve um dia em que deixei público, mas prometi a mim mesma continuar a usar a conta como se fosse só para os meus amigos.
Carolina: Ou seja, não tenho vergonha na cara. [Risos] E é por isso que não te deixas afetar pela responsabilidade de postar determinada coisa?
Vicky: Sim.
Mariana: Gostava de ser assim.
Rita: Identifico-me mais com a Mónica, mas acho que é uma questão de personalidade. Não gosto de me expor tanto ou sou mais tímida em alguns assuntos e há momentos em que me apetece fechar as contas. Penso: o que é que me acrescenta? Mas acabo por não fechar.
Inês: Até porque depois, pessoas que nos estão a conhecer pela primeira vez ou em contexto profissional acabam por criar uma imagem nossa como um todo e põe-nos um rótulo — “Ah é uma Patrocínio, faz isto, pensa assim” –, quando somos todas diferentes umas das outras. Não vou dizer preconceito que é uma palavra muito forte, mas a exposição em clã tem também essa consequência: somos sempre todas postas na mesma gaveta.
Rita: Tenho pessoas do âmbito profissional que me seguem e às vezes sinto-me um bocado desconfortável porque sabem muita coisa da minha vida, embora seja porque eu deixo, porque eu partilho. E no dia seguinte, são capazes de vir perguntar sobre uma coisa que fiz. Torna-se estranho.
Mariana: Senti esse preconceito em relação a viver em clã há pouco tempo. Alguém o referiu como um dos meus aspetos negativos. Como é que isso pode ser uma coisa negativa? Para mim, traz-nos muito mais coisas positivas. Mas ainda há muita gente que vê este bloco e fica intimidada.

O nome Patrocínio traz preconceitos associados?
Inês:
Na minha experiência traz bastante.
Rita: Há dois anos, quando comecei este trabalho, era uma desconhecida. Mas entrei logo com aquele rótulo de vaidosa, do ginásio, um bocadinho snob, que não se mistura. Mais tarde, acabaram por me dizer que achavam que eras mais nariz empinado.
Mariana: É a ideia preconcebida de que somos um bloco inatingível, mas que não corresponde à realidade. Cada uma de nós tem uma personalidade diferente, mas as pessoas põe-nos aquele rótulo: “És uma Patrocínio, são todas iguais”.
Rita: Sim e de não sermos acessíveis.
Inês: O que mais ouço é: “Ah, mas vocês são…” ou “os vossos filhos”. Os vossos de quem?

Mesmo havendo uma filtragem do que mostrar e do que é mantido só para a família, a Mariana e a Inês optaram, recentemente, por partilhar momentos bastante íntimos nas redes sociais. Porque é que o fizeram?
Mariana:
Gosto de partilhar, mas só no momento em que me sinto capaz de levar com o outcome que isso traz, perguntas ou críticas. Talvez o pudesse ter feito antes, no caso do Mateus, mas acho que foi no final das operações. Demorei seis meses a estudar a doença, a inteirar-me dela e sentir-me confiante para o poder fazer. Diria que o faço para mostrar um bocado o que sou — não vou mostrar só a parte boa ou só as festas — e em solidariedade com quem está a passar por situações idênticas. De alguma maneira, fi-lo também por mim, porque me ajudou falar sobre o assunto.
Inês: Às vezes as pessoas têm a ideia de que não passamos por dificuldades na vida, de que os nossos filhos nunca ficam doentes, de que não sofremos. É o perigo das redes sociais: as pessoas acham que a vida dos outros é perfeita. Isso aconteceu quando estava prestes a partilhar essa gravidez que foi para a frente e mexeu um bocado comigo. Ia partilhar aquela gravidez, mas tinha havido outra antes. Porquê só canalizar aquilo que é bom? Pensei no que a Carol dizia: tantas e tantas mulheres passam por isso e seguem-me, que se calhar isso vai fazer diferença para elas. Decidi partilhar.

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Inês Patrocínio, 28 anos

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“Sempre foi muito decidida”, explica a irmã Rita. Inês também estudou Direito e, em julho de 2013, subiu o Kilimanjaro numa expedição de angariação de fundos para uma ONG a atuar em Moçambique. Em abril do ano passado, criou o projeto #ItsNotJustMilk a pensar nas dúvidas e mitos da amamentação. Em dezembro, o movimento deu origem à Grow, uma marca de soutiens. É casada com Pedro Rocha e Melo e tem dois filhos: Alice e Pedro. Em janeiro de 2019, sofreu um aborto espontâneo, do qual falaria publicamente meses mais tarde. Era a sua segunda gravidez.

Essa discussão está na ordem do dia: o que a felicidade exibida nas redes pode causar do outro lado.
Inês: Não é uma preocupação que tenha, mas se acontece uma coisa menos boa não vou encobri-la.
Mariana: Partilhei agora a morte da minha avó, que para mim é de uma tristeza enorme e que me apeteceu partilhar ao mesmo tempo. Fica totalmente ao critério de cada um.
Carolina: Mas também existe uma exigência por parte das pessoas. Acham que devemos partilhar tudo, incluindo a parte má da nossa vida e os nossos conflitos. Sendo que, se pararmos para pensar dois segundos sobre esse tema, se eu discutir com o meu marido em casa, isso não é algo que deva ser público. É uma coisa altamente íntima. Se não contava à minha melhor amiga, porque é que hei-de pôr numa rede social com 900 mil seguidores? Nem tudo é para ser partilhado.
Inês: Não tem de ser forçado.
Carolina: É a onda do real, das pessoas se mostrarem a fazer ações íntimas ou na casa de banho. Essas pessoas fariam a mesma coisa numa festa à frente de 300 pessoas? Se calhar não o fariam, mas fazem-no nas redes sociais e isso não me sinto confortável em fazer.
Mónica: Há muitas coisas que a Vicky põe que nunca na vida poria. Não estou a dizer que são más, sou muito mais tímida.
Rita: Há aqui uma questão geracional. Acho que as mais novas têm menos vergonha, as páginas delas são mais reais — estão giras, estão feias, estão mal vestidas, são mais transparentes. Mostram a vida toda, as danças, fazem coisas mais estúpidas. Nós pensamos mais nas coisas, se está tudo bem com a fotografia. Sou super estética, gosto que as coisas estejam perfeitinhas. Elas são mais despreocupadas.
Mónica: A nossa geração tenta usar o Instagram mais como uma plataforma para mostrar o que estás a fazer. Se estás feia estás feia, é na boa.
Rita: Enquanto estamos a tirar umas selfies ao jantar, elas estão a gozar connosco atrás e a fazer coisas parvas.
Inês: Mas elas dão-me imensa confiança. No outro dia, estava a dizer que estava despenteada. E elas disseram: own it [assume]!
Vicky: Se assumires como estás, ninguém te pode criticar. Vão dizer-te que estás despenteada? Tu sabes que estás. Se estiveres despenteada e a fingir que estás penteada, vão dizer-te que estás despenteada e vais sentir-te mal porque estás a tentar esconder.
Mariana: É uma lição de confiança.

A Mónica e a Vicky cresceram a ver uma irmã na televisão. Esse tipo de projeção seduz-vos de alguma maneira?
Mónica: Duvido muito. Estou agora a tirar o curso de desporto e é isso que quero fazer no futuro. Vou entrar numa fase de estágios para o ano, é muito nisso que me vou focar. Esta parte vai continuar presente, mas duvido que seja tão presente como para elas. Estou só lá.
Vicky: Falamos disto constantemente em casa. A minha mãe ainda olha muito para as profissões mais tradicionais. Aceita a Mónica ir para desporto, mas já é diferente. Na nossa família é quase só advogados.
Inês: Não é nada.
Carolina: É mais profissões tradicionais. Ainda ninguém foi TikToker, Vicky. [Risos]
Vicky: Como somos as mais novas da família, tentamos sair um bocado desta tradição. Estou super perdida do que quero fazer no futuro. Tenho muitas tendências.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já a Carolina tem tido um percurso ascendente na televisão. Quais são as suas ambições?
Carolina: Vejo-me fora da televisão a ser cada vez mais empreendedora e a aprender com os exemplos que tenho em casa. A Inês e a Rita estão a ser super bem sucedidas nos seus projetos e eu quero ganhar coragem para realizar alguns projetos. Na televisão, infelizmente, é difícil sermos donos do nosso próprio percurso. As oportunidades são-nos dadas de forma faseada, por vezes é mais fácil, noutras é mais difícil. Mas ter um formato meu na SIC Mulher e num ano de pandemia já foi um passo importante. Interessa não virar a cara ao trabalho.

Não tem o objetivo de ascender na grelha do canal, de se tornar num rosto das manhãs, por exemplo?
Não, não tenho. Não é algo que projete. Tento empenhar-me ao máximo naquilo que me é dado.

Qual a primeira coisa que vão querer fazer quando a pandemia acabar de vez?
Inês: Eu quero sair à noite.
Rita: Estou à espera do festão que elas [Mariana e Carolina] vão dar.
Vicky: No ano passado, vocês já estavam a planear uma festa para este ano, mas afinal não vai dar.
Carolina: Eu gostava de viajar.
Mariana: É isso, viajar em família.
Inês: Em família? Já não vos posso ver! [Risos]

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