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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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Tarjas, gritos e protestos. Manifestantes saíram à rua para criticar Governo e pacote laboral "perigoso" que "cria incerteza"

Em dia de greve geral, as ruas de Lisboa encheram-se de manifestantes que criticaram Luís Montenegro e um pacote laboral "perigoso". Protestos concentraram pessoas de todas as idades e profissões.

Com 65 anos de vida e experiência repetida em greves e manifestações, Jorge Guerreiro voltou a sair à rua em dia de paralisação geral, 12 anos depois. Mas, desta vez, fê-lo pelos mais novos. “Estou à beira da reforma, esta luta não é por mim, é por todos os jovens que têm menos condições para criar um futuro”. Com um ‘pin’ da greve ao peito, o responsável técnico foi um dos milhares de manifestantes que fizeram de Lisboa o epicentro dos protestos que concentrou pessoas de todas as idades e profissões.

A mobilização que começou com poucas pessoas pelas 14h da tarde foi crescendo à medida que passavam as horas e culminou numa concentração junto à escadaria da Assembleia da República, onde milhares de manifestantes permaneceram até cair a noite, gritando críticas aos principais alvos: o primeiro-ministro, o Governo e o novo pacote laboral.

Foi em frente ao Parlamento que, depois de uma concentração de várias horas, os protestos subiram de tom e mancharam a manifestação pacífica que tinha dominado o ambiente até ao cair da noite. Pouco passava das 19h quando os cerca de dez polícias que controlavam, à distância, os manifestantes foram reforçados com pelo menos outros 20 agentes, depois de algumas pessoas terem atirado objetos em fogo e garrafas de vidro partidas para a escadaria.

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Até então, entre bandeiras (de diferentes sindicatos e movimentos) e cartazes criativos, uma onda de pessoas criticou o Executivo liderado por Luís Montenegro, um dos nomes mais vezes citados nos gritos amplificados por megafones. “Não deixem o Luís trabalhar”, leu-se e ouviu-se durante a tarde, vezes sem conta. Aos trabalhadores juntaram-se várias figuras políticas que se mostram solidárias com os protestos. Velhos conhecidos (Francisco Louçã, ex-coordenador do Bloco de Esquerda) e rostos mais novos (Fabian Figueiredo, ex-líder da bancada parlamentar) numa representação da simbiose generacional que marcou o dia. Além do líder partidário Rui Tavares (Livre), também estiveram presentes três candidatos presidenciais: Jorge Pinto, António Filipe (que se cumprimentaram e trocaram breves palavras ainda no Rossio) e Catarina Martins.

Longe das ruas, o Governo apressou-se a desvalorizar, pela voz do ministro da Presidência António Leitão Amaro, a “adesão inexpressiva” da greve geral. A resposta dos sindicatos foi rápida: “É uma das maiores”. Entre os manifestantes, também reinou a dúvida entre os que esperavam mais protestos e os que ficaram impressionados com a mobilização. Sem a confirmação dos números, André Gomes, da FNAM, respondeu ao ministro enquanto segurava um cartaz: “De certeza que é acima do inexpressivo”.

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Gritos de ordem ouvem-se em manifestação que juntou crianças e idosos. “Temos de proteger os nossos direitos e os direitos dos nossos filhos”

A meia hora do início marcado para o arranque dos manifestantes do Rossio em direção ao Parlamento, havia poucos sinais de uma greve geral na praça central de Lisboa, onde um mercado de Natal roubava a atenção dos turistas que por ali passavam. A algumas centenas de metros do local, no Martim Moniz, iam-se juntando dezenas de pessoas com bandeiras da Palestina, anarquistas e antifascistas.

Sentadas, três amigas acabavam de escrever os pequenos cartazes que tinham levado para a manifestação. “A cidade parece vazia, isso é bom”, dizia Marta que, como Ana e Yana, fez greve ao trabalho. Sobre as razões que as levaram à rua, trocavam suspiros e assumiam que “são tantas coisas”, enquanto centralizavam as queixas no “pacote laboral”. “Quem é que ganha de facto com a flexibilidade? O trabalhador só fica mais precário”, reclamava Ana, técnica de espetáculos de 36 anos. As medidas, dizem, só beneficiam os “patrões”.

As críticas ao pacote laboral motivaram a grande mobilização de manifestantes que seguiram do Martim Moniz até Rossio, onde eram esperados por um considerável grupo que juntava diversas forças sindicais e movimentos como o Vida Justa. “Há uma grande diferença de classes entre o que o Governo pensa e o que se passa”, diz o ativista António Brito Guterres que destacou a adesão que teve o apoio de quase todos os partidos — excetuando PSD, CDS-PP e IL —, “incluindo o Chega”. “A greve pode ter impacto, mas não chega”.

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Ao longo do percurso, manifestantes e grevistas passaram por lojas, cafés e restaurantes que mantinham as portas abertas. No Rossio, os turistas enchiam as esplanadas e eram atendidos pelos trabalhadores que paravam o serviço para olhar com surpresa para a multidão que ia gritando contra as medidas propostas pelo Governo. “Traição nacional, este pacote laboral não estava no pacote eleitoral”, lia-se num cartaz.

A grande massa de jovens era acompanhada por adultos e idosos já repetentes nestas andanças e por várias crianças e bebés levados ao colo por pais e mães. Não se ouve só português entre os manifestantes, além dos turistas impressionados — “transformam isto numa festa”, disse uma norte-americana surpreendida com as músicas — havia muitos estrangeiros a residir em Portugal que se foram juntando aos protestos.

“Temos de proteger os nossos direitos e os direitos dos nossos filhos”, defendeu Ilaria Bozzini, designer italiana de 41 anos que levou a filha para a rua. Adesão é mais fraca entre os mais jovens? “Quem está a participar nesta manifestação são as pessoas mais novas, por isso se calhar até temos que passar a mensagem aos mais velhos”, diz a mulher casada com um português.

O grande contingente que sobe a sempre movimentada Rua do Carmo, recheada de lojas de comércio, já circulava há largos minutos quando surgiu a carrinha da PSP a fazer de carro vassoura. Mas mais atrás, continuavam a surgir vários grupos de pessoas que vinham mais afastadas do pelotão principal, mas que tornavam quase interminável a cauda da manifestação.

Célia, trabalhadora da função pública, estava no pelotão dos últimos e surgiu acompanhada de outras duas pessoas, trabalhadores de uma multinacional portuguesa. Fizeram os três greve, confessou de imediato, procurando desmentir que a paralisação só se sentiu no setor público. A mulher de 56 anos assumiu a sua preocupação “com o trabalho”, com as “leis preparadas” e com as “atuais”. “Não há grandes perspetivas para os mais novos”, desabafou. Assumiu o privilégio de não viver mal, mas pediu a quem não aderiu às manifestações que pense, como ela, de forma solidária com aqueles que têm menos condições.

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Protestos em frente à Assembleia com profissionais de várias áreas. Violência manchou fim da manifestação

No cruzamento entre a rua Serpa Pinto e a rua Garret, turistas sentados que trocavam comida entre pratos interrompiam a refeição para ouvir os protestos. Junto a um passeio, um homem aproveitava a manifestação para trabalhar e vendia buzinas aos manifestantes que queriam fazer mais barulho.

As ruas enchiam-se de pessoas que caminhavam em direção à Assembleia da República. No meio da multidão destacava-se um cachecol verde e vermelho com uma palavra escrita a amarelo ao centro. Não dizia Portugal, mas “professor” e era erguido bem alto por Carlos Sécio, docente de 42 anos que surgiu acompanhado de vários colegas e junto a uma tarja do STOP – Sindicato de Todos os Profissionais da Educação.

“Os direitos dos trabalhadores estão a ser atacados, todos os trabalhadores devem manifestar-se. O Governo tem que acordar, o povo não está contente”, descreveu o trabalhador de uma classe que nos últimos anos tem saído várias vezes à rua. Desta vez, “os professores não são muito afetados”, mas “estão aqui” por todos os que dedicam a vida ao ensino e que vivem com condições “precárias” e com “recibos verdes”. “Tudo isto está interligado”.

“Hoje é especial. É uma questão de estar unido a todos os trabalhadores no geral. Todo o país devia mostrar ao Governo o quão mal estamos. Estas medidas são más, tiram direitos… mais um direito que nos está a ser tirado, o direito à greve. A manifestação é importante, só assim somos ouvidos”. Apesar da adesão, o professor da Margem Sul em greve confessou que “estava à espera de ver mais gente”.

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Mais à frente, junto a uma tarja da FNAM – Federação Nacional dos Médicos, André Gomes dizia que a mobilização desta quinta-feira demonstrou a “união do povo e dos trabalhadores contra este ataque inenarrável que é o pacote laboral”. Médicos, professores, ilustradores, técnicos de espetáculo, engenheiros e arquitetos. Foram várias as profissões que se começaram a juntar nas imediações da Assembleia da República pelas 16h30, onde se mantiveram de bandeiras ao alto até ao cair da noite.

“Achei que iam estar mais lojas fechadas”, desabafou ao Observador uma brasileira de 23 anos que trabalha numa livraria e que preferiu não revelar o nome. “São os trabalhadores que sustentam a economia do país e os estilos de vida que as classes mais altas têm. Explorar os trabalhadores e diminuir direitos… tinha que ser esta a consequência”, disse a jovem enquanto apontava para o grupo que se mantinha junto às escadas da Assembleia da República. “É importante que todos se mobilizem pelos trabalhadores que não têm dinheiro e não se podem dar ao luxo de fazer uma greve, é um privilégio”, concluiu.

A poucos metros, Carla vê o movimento da manifestação a partir da papelaria que gere com o pai num edifício com vista para o Parlamento. Atrás do balcão, a trabalhar, disse que “nunca na vida” fez uma greve, e mencionou que chegou a trabalhar 22 anos numa junta de freguesia “a recibos verdes”. “As pessoas têm que lutar pelos seus direitos, mas se toda a gente fizer greve… Eu percebo algumas críticas, mas outras não”. Não se mostrou surpreendida com a mobilização — “já vi manifestações maiores” — mas confessa que não esperava ver “tanta malta mais nova”.

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Francisco, de 25 anos, foi um dos jovens que saiu à rua para manifestar a sua indignação. “Senti-me motivado para vir, além do pacote laboral, porque estou a fazer um estágio de curta duração sem remuneração, apenas dez euros diários”. Não tem a certeza sobre o impacto que pode ter esta greve, mas acredita que “as duas grandes forças sindicais” podem aproveitar “este mar de gente” para ter uma vantagem “nas futuras negociações com o Governo”. “Espero que o Governo deixe de ser casmurro e não faça um debate de surdos”.

É por Francisco, e os jovens que entram agora no mercado de trabalho, que Jorge Guerreiro voltou a sair à rua. “Noto mais pessoas a aderir, mais pessoas indignadas. Mais jovens na rua é a parte que mais me alegra. Eu estou à beira da reforma, esta luta não é por mim, é por todos os jovens que têm menos condições para criar um futuro”. O trabalhador de 65 anos dá o exemplo da empresa onde trabalha para dizer que há mais adesão na greve desta quinta-feira, quando comparada com outras mobilizações. “Na minha empresa, na última greve, fiquei sozinho com mais três colegas [a fazer greve]. Hoje eram mais de 50, muitos deles jovens”, regozijou-se.

Lembra-se bem do tempo da troika e das várias greves em que participou nos governos de Pedro Passos Coelho. “Acho que este período é muito pior do que esse”, admite. “Este pacote é perigoso e cria incerteza na vida das pessoas. É uma coisa que não deve nem pode passar”.

“Estamos num período diferente que não vivemos até hoje”, acrescenta o professor Ricardo Gageiro. “Sinto que estamos a avançar para políticas neoliberais pouco humanistas que fazem com que os trabalhadores tenham cada vez menos valor. O Governo está a assumir, a espaços, estar mais do lado dos patrões”. O trabalhador de 50 anos é uma das pessoas que não conseguiu fazer greve — “se fizesse teria que pagar o meu dia de trabalho” —, mas nem assim deixou de estar na manifestação.

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Até as ruas em frente à Assembleia da República ficarem praticamente desertas, ainda houve tempo para um pequeno grupo de desordeiros manchar o que até então havia sido um protesto sem violência. Pelas 19h, um homem passou a barreira de segurança e subiu pacificamente a escadaria do Parlamento, tendo sido detido, também calmamente, pela PSP. Em simultâneo, viveram-se momentos menos calmos, com um grupo de jovens a atirar garrafas de vidro na direção dos agentes e a queimar cartazes e lixo de um contentor, como acabou por confirmar a polícia num comunicado enviado às redações ao início da noite e no qual recordou todas as incidências da manifestação.

“Pelas 17h20 foi detetado um grupo de cerca de 150 indivíduos, que se separou da manifestação e saiu de frente da Assembleia da República, deslocando-se em direção ao Chiado. Este grupo de indivíduos foi provocando diversos danos ao longo do trajeto adotado, nomeadamente graffiti, em fachadas de prédios residenciais e comerciais, tendo sido intercetados ao chegar ao Largo do Carmo. Alguns dos indivíduos abordados reagiram violentamente à abordagem por parte dos polícias, tendo dois deles sido detidos por resistência e coação sobre funcionário e dois outros identificados”, descreveu a PSP.

Os restantes desacatos foram registados já na parte final dos protestos, quando um homem ultrapassou as barreiras de segurança e subiu calmamente as escadas, tendo sido detido também de forma pacífica, como captaram as câmaras de televisão que se encontravam a filmar a manifestação.

“Os polícias no local necessitaram de, por duas vezes, apagar focos de incêndio, ateados por manifestantes. Em virtude da persistência de tal incivilidade, foi ativado o Regimento de Sapadores Bombeiros que apagou o incêndio que lavrava em caixotes do lixo”.

“Após ter sido extinto o foco de incêndio, os manifestantes foram encaminhados para as artérias adjacentes à Rua Correia Garção, para evitar que fossem efetuados mais danos ao património. No final da manifestação, cerca das 20h38, foram detidos 3 indivíduos por resistência e coação sobre funcionário e ofensas à integridade física qualificada.” Totalizando assim em seis detenções e duas pessoas identificadas.

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Ministro diz que “adesão” foi “inexpressiva” e é criticado por candidatos presidenciais

O ministro da Presidência foi um dos primeiros governantes a dar a cara e a desvalorizar o impacto da paralisação que classificou como uma “adesão inexpressiva”. “A grande maioria dos portugueses está a trabalhar”, disse. “Esta parece mais uma greve da função pública, uma greve parcial em alguns setores da função pública. Na verdade em alguns setores que depois têm impacto, como nos transportes e nos assistentes nas escolas, para impactar muitos mais. (…) Mas repito: o nível de adesão no conjunto do país à greve geral é inexpressivo, em particular no setor privado e no setor social. (…) Convido as pessoas que nos ouvem, que olhem à volta, vejam a sua vida. Teremos provavelmente mais pessoas que se não conseguiram trabalhar foi porque houve perturbações nos transportes mais do que por razão de greve”.

Na rua junto aos manifestantes, o candidato presidencial apoiado pelo Livre criticou as declarações do ministro e acusou o Governo de não olhar para as “milhares de pessoas na rua”. “É quase ofensivo dizer que a adesão a esta greve é inexpressiva, sabendo nós os números reais e as pessoas que abdicaram dos seus salários para defender os seus direitos e os direitos de todas as pessoas”, disse à SIC Notícias. “Não ouve os trabalhadores, não vê as milhares de pessoas que estão aqui hoje na rua”.

Já António Filipe acusou Leitão Amaro de estar “em estado de negação”. “Não tem noção nenhuma do país em que está. E não tem noção, ou se tem não a quer assumir, de enorme repúdio que esta proposta de pacote laboral está a ter junto dos trabalhadores”.

Catarina Martins, a terceira candidata a marcar presença na manifestação, seguiu o mesmo tom dos seus adversários. “Temos um problema de termos um governo descolado da realidade, que acha que a saúde está bem e que a greve não tem significado. É um governo absolutamente descolado da realidade”.

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