Trabalhei na Feira por um dia. Vendi livros e descobri minis a 1 euro /premium

03 Junho 2018351

Pedro Vieira já foi livreiro. Por isso, voltar à Feira de Lisboa para ocupar uma barraca do Parque Eduardo VII foi tão saudosista como surpreendente. Este é um relato do horário de expediente.

Não se deve voltar a um lugar onde já se foi feliz, diz um ditado popular. Ou uma daquelas frases entre o motivacional e o conformista cunhadas por um apresentador de programas televisivos de decoração, nem sei bem. O que é facto é que, muitas vezes, a nostalgia pode conduzir à desilusão. Por exemplo, caro leitor, se tal como eu tiver nascido em meados dos anos 70, desaconselho-o vivamente a revisitar séries de televisão como “Jovens Heróis de Shaolin”. Ou a voltar a fincar o dente num sucedâneo de chocolate Donaire. É que tanto a série como o sucedâneo continuam a saber a sabão. E no entanto às vezes vale a pena fazer o regresso a uma parcela do passado. Por isso, resolvi passar um dia inteiro numa barraca da Feira do Livro de Lisboa, retomando uma função de livreiro e feirante que exerci com gosto.

Para o efeito, pedi autorização à Antígona – Editores Refractários para assumir esse ponto de vista privilegiado sobre aquilo que é, hoje, a Feira do Livro de Lisboa, usando como base uma casa que se mantém independente dos grandes grupos. Disseram-me que sim. Se a resposta fosse negativa, vestia eu a pele de cronista desobediente e instalava-me lá de qualquer forma. Assim como assim, o editor Luís Oliveira só apareceu a uma hora do encerrar das hostilidades, por alturas da Hora H (também conhecida entre vários players deste mercado como Sorte Grande ou Vaca Leiteira), razão pela qual eu já teria feito todos os estragos que me aprouvesse.

Mas reservemos o editor para mais tarde, como se faz com os melhores preparados culinários. Para já, darei conta de um dia passado entre livros e turistas, curiosos e hambúrgueres, vozes de altifalante e chuva, claro. Essa nunca falta na feira. Uma espécie de dia como jornalista embedded, só que sem jipes, nem marines, nem armas de destruição maciça. Ah, espera, dessas também não havia no Iraque. Enfim, notas de rodapé, como se diz nos livros.

Walden ou a Vida no Parque

Nos meus tempos de livreiro, vivia a feira como uma oportunidade de desanuviar, trabalhando. O ambiente era muito mais ligeiro do que o de uma livraria de centro comercial, os clientes assumiam uma atitude mais distendida, o gerente aparecia ao final do dia com uma saca de farturas e braços extra para ajudarem ao fecho dos pavilhões de metal, cujas portinholas pesadíssimas faziam as vezes de guilhotinas. Havia a inevitável chuva, evidentemente, e o frio de rachar à noitinha e as muitas horas passadas em pé, mas existia também – e existe – uma circunstância mais favorável ao estado de espírito do empregado de balcão. Além de livros, muitos livros, comprados à época com o dinheiro das horas extra passadas em serviço. Sorte minha, não ser um voluntário ao serviço da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL).

Continua a haver muitos pavilhões, continua a haver comida, agora com uma patine de sofisticação, continua a APEL aos comandos, continua a perverter-se o vocábulo. “Quase não há fundos de catálogo, não há livros difíceis de encontrar. Não há ambiente de feira, pronto”. Questão que não é de hoje, diga-se.

Desta vez, depois de atravessar uma turba de vendedores de bilhetes do Lisbon Sightseeing que se encontram aos pés do Parque, e de ver um conhecido frade franciscano a comprar um croissant, subi a ladeira entre pavilhões coloridos, muitos com decorações personalizadas, alguns deles abertos antes da hora marcada, as 12:30. Porque sempre vai passando um ou outro cliente de ocasião. Ao chegar ao pavilhão da Antígona, o meu quartel-general para esta empreitada, já o Alexandre tinha aberto sozinho as portinholas, demonstrando a melhoria nas condições de trabalho dos feirantes e o sossego nos pescoços de toda a gente, desde que as infraestruturas foram substituídas há pouco menos de uma década. “Nos últimos anos dos outros pavilhões ainda puseram uns apoios pneumáticos, para aquilo não se fechar à bruta, mas não prestavam para nada”.

Alexandre Esgaio é feirante de ocasião, livreiro, faz-tudo-na-Antígona e ilustrador por conta própria, com livros publicados. Trabalhou como livreiro na FNAC durante quatro anos, local onde fez os piores embrulhos do mundo, forma de fugir a essa tarefa nos períodos de pico do Natal, regressando rapidamente ao consolo e conforto dos livros. E esteve durante ano e meio num call-center do Círculo de Leitores, onde descobriu a faceta de vendedor fracassado. “Foi um ano e meio de angústia. Nessa altura nasceu a minha filha mais velha e eu pensei, a minha filha não pode ver-me neste estado. Despedi-me e comecei a desenhar a sério”. Alexandre faz a feira há 15 anos – três ao serviço da Relógio d’Água, 12 ao serviço da Antígona –, tendo assistido a algumas mudanças que nem chegam a ser estruturais.

Continua a haver muitos pavilhões, continua a haver comida, agora com uma patine de sofisticação, continua a APEL aos comandos, continua a perverter-se o vocábulo. “Quase não há fundos de catálogo, não há livros difíceis de encontrar. Não há ambiente de feira, pronto”. Questão que não é de hoje, diga-se. Há muitos anos que a Feira do Livro é um momento aproveitado pelos editores para vender novidades e livros recentes com grandes descontos, esmigalhando o poder negocial e as vendas das livrarias naquele período. Mas também nas semanas que antecedem a feira (leitores entram em fase de poupança) e que se seguem à feira (leitores estão nas lonas e com os saldos no vermelho).

A escassez de fundos de catálogo identificada por Alexandre é de facto uma assinatura para o evento que todos os anos por esta altura toma conta do Parque Eduardo VII. E o livreiro disse-o às 12:34. Daí em diante, o dia podia ser sobre o que quiséssemos, até porque era mais urgente encontrar uma solução para arrombar a caixa do pavilhão, cuja chave se encontrava em parte incerta. Nada como o lado artesanal de uma editora independente, sobretudo quando esse lado vem armado com uma tesoura.

Admirável mundo novo

O grupo LeYa formou-se em 2007, no seguimento de um processo de aquisição de casas com grande peso no panorama editorial português. Dom Quixote, Caminho, ASA, são alguns exemplos. E em 2010, a Porto Editora comprava o grupo Bertrand aos alemães da Bertelsmann, subindo mais um degrau no Processo de Concentração em Curso, uma espécie de PREC dos livros, só que sem editores fascistas no Campo Pequeno. Ah, espera, na altura toda a gente teve o bom senso de nem sequer ouvir o Otelo, personagem literário por excelência.

O que é facto é que, desde essa altura, a paisagem da feira alterou-se um pouco, com a criação das chamadas “praças”. Primeiro a da LeYa, depois a da Porto Editora, hoje em dia mimetizadas parcialmente pelos grupos Presença e 20|20. “Aquilo é mais ambiente de livraria de centro comercial. Têm alarmes, têm seguranças a controlar as pessoas. Feira é que não é. Depois houve há uns anos aquele túnel da Babel (outros dos grupos constituídos por agregação de editoras já existentes). Foi um fracasso, ninguém percebeu o que aquilo era. E ninguém se aguentava lá dentro com o calor”.

A Babel, que tem sido notícia pelas ligações à nebulosa Ongoing e por factóides mais literários como a dispensa de Agustina Bessa-Luís, regressou à configuração clássica dos pavilhões. Mas as tais praças dos grupos com mais músculo e testosterona comercial parecem ter vindo para ficar. Nada disso invalida que haja rostos e práticas que se repetem de ano para ano. “Aqui o pessoal da Livros Horizonte, são os nossos grandes amigos, já nos têm safado muitas vezes”, garante Alexandre. “Estão sempre preparados para tudo, martelos, aparafusadoras. São impecáveis, são as mesmas caras há muitos anos e ficam sempre perto de nós”.

Mais euro menos euro, mais palavra em inglês, menos palavra em inglês, haverá sempre quem queira encher o bucho com vista para os livros, com distintos graus de satisfação e cada vez mais por paladares por onde escolher. “Eu continuo a ir à roulotte, a imperial é a um euro e nos outros é um euro e meio”

Este ano, a lateral da editora destaca A Lisboa Que o Turista Deve Ver, de Fernando Pessoa, embarcando com naturalidade no boom do terceiro sector e do pastel de bacalhau com queijo da serra. Também há o livreiro X da editora Y que está sempre bêbedo, “do pavilhão para a imperial, da imperial para o pavilhão” e os próprios rostos d’O Cantinho da Carla, a única roulotte à moda antiga que se mantém ao serviço na feira. “A gente continua a vir para cá, para nós é bom. Mas por exemplo, os colegas que ficavam do outro lado, este ano já não os convidaram”.

Aparentemente, as bifanas, entremeadas e cachorros já têm dificuldade em competir com a street food, as pitas vegan e a cerveja craft, alterando em parte o carácter mais popular que se associava aos comes e bebes da Feira do Livro. Onde antes se disputava a supremacia entre as Farturas Otário e as Scalabitano, hoje o duelo far-se-á entre diferentes modelos de bolo do caco. Seja como for, mais euro menos euro, mais palavra em inglês, menos palavra em inglês, haverá sempre quem queira encher o bucho com vista para os livros, com distintos graus de satisfação e cada vez mais por paladares por onde escolher. “Eu continuo a ir à roulotte, a imperial é a um euro e nos outros é um euro e meio”. Palavra de Alexandre, livreiro experimentado.

O Fetichismo da Mercadoria

12:37 – Primeira venda do pavilhão. Dois livros de George Orwell, autor no catálogo da Antígona que tem sempre muita saída. A cliente partiu satisfeita com o 1984 e A Quinta dos Animais. “Vou oferecer o 1984 ao meu sobrinho, que anda a estudar comunicação. Acho que lhe vai fazer bem”.

13:30 – Cinco livros vendidos ao todo, durante a primeira hora. Menos mal para um segunda-feira, naturalmente pouco concorrida e mimoseada por chuviscos intermitentes e vento frio. Já passaram transeuntes lambuzando-se em farturas. Já se venderam cinco distopias, entre Orwell e Huxley. É um tema com muita saída, sobretudo em época de fake news.

14:18 – Duas adultas esparramam-se no livro gigante de plástico, colocado pela Presença no meio do seu espaço de vendas. Aproveitam para tirar selfies, à falta de crianças que folheiem as páginas tamanho-família. Nada se perde, tudo se transforma.

14:37 – As vendas vão-se fazendo a conta-gotas, a conversa flui ao sabor das incumbências de Alexandre e dos visitantes que se acercam do pavilhão. As nódoas da blusa do Zizek, que Alexandre foi buscar ao aeroporto e a quem levou a almoçar, “muito curioso sobre Portugal, fez imensas perguntas sobre Lisboa, sobre o 25 de Abril, sobre os contentores à beira-rio, os estivadores, queria saber tudo, tudo, tudo… cheio de nódoas e com uma namorada loira com ar de top-model. Um personagem”.

Ao contrário dos filósofos franceses com quem Alexandre já privou. “O Rancière, por exemplo… Eh pá, é que nem olham para ti, acham que estás ali só para servi-los. Coitados, ainda não perceberam que o mundo já não gira à volta deles”. No catálogo da editora há muito ensaio, muita filosofia e provocação, romances distópicos e vendas à boleia de uma certa redescoberta do marxismo, um marxismo em bolo do caco, talvez.

E na feira há muitos leitores fiéis em busca de novidades, de descontos, de uns minutos de conversa, que tanto pode versar em torno de marcas de cerveja, como de fuzilamentos durante a Primeira República, o desaparecido Eduardo Galeano e a sua paixão pelo futebol, as maravilhas do cozido da Malveira, o papel da GNR, aquele ano em que a LeYa contratou miúdos chineses para fazerem publicidade ao livro do Futre, as carreiras comparadas de Maradona e Vitor Baptista, a publicidade que se faz aos altifalantes da feira (inclusive a rastreios visuais de rotina na tenda de uma conhecida marca de lentes) ou um método particular de conservação de peixe que envolve ureia (não perguntem). “No ano passado apareceu aqui um homem a meter conversa. Estava todo emocionado porque viu aqui à venda os livros do Tomás da Fonseca. Diz que foi preso durante o Estado Novo por vender esses livros, que na altura estavam proibidos, e que apanhou porrada na esquadra. Até chorou quando os viu aqui”.

15:58 – Minutos depois do relato em torno do autor d’A Cova dos Leões, surge mais um fã de Tomás da Fonseca, um mata-frades literário que pelos vistos marcou uma série de leitores com idade mais avançada e um gosto particular por demolições em Fátima. “O gajo desfez a fraude dos pastorinhos até à última. Por isso é que não gostavam dele. Eu adoro. É ele e o Guerra Junqueiro. Vá, desculpem estar a chatear-vos, gosto muito de ler e do socialismo. Mas do socialismo real que eu cá sei, que é dar escolas boas tanto aos ricos como aos pobres”. Eu não tenho conhecimentos muito consolidados de ciência política, mas não estou certo que a definição seja essa. Infelizmente, no caso, o catálogo da editora também não me permite dissipar as dúvidas.

16:05 – Descubro que o café junto ao parque infantil vende minis a um euro e vinte. Por vinte cêntimos de diferença, não vale a pena fazer o caminho mais longo até ao Cantinho da Carla.

16:23 – Pela terceira vez perguntam-me com um tom de comiseração na voz: “Então, regressaste aos livros?”

16:35 – Rui, fundador da Hiena, editora de culto, aparece em busca de raridades. Aos meus olhos é um homem assim para o niilista, pois coleciona títulos da Antígona e derrotas do seu Sporting. No momento, mais preocupado com a farsa de Alvalade do que com o teatro de Artaud, sentencia: “Eu vou deixar de pagar as quotas. Já fiz isso quando foi para lá o Santana Lopes”. Há outros colecionadores que costumam aparecer na feira e que às vezes conseguem comprar o que querem com a ajuda de Alexandre. “Às vezes há livros esgotados que ainda têm meia-dúzia de exemplares disponíveis no armazém. Nesses casos combino com a pessoa e trago para aqui”. Nota: o armazém da Antígona fica na Venda do Pinheiro, paredes meias com a distopia dos reality shows. Isto anda tudo ligado.

17:24 – Depois de ter passado pelo pavilhão com uma série de perguntas sobre livros esgotados, entre outros demónios, um cliente regressa com um livro na mão. “Há bocado estava a consultar este e levei-o na mão sem querer. Vim cá avisar. Mas é para cobrar porque quero levá-lo para casa”. Afinal, quem precisa de alarmes e seguranças?

17:40 – Pedro, o reforço, entra ao serviço, acabando com a solidão oficial de Alexandre. Pedro é livreiro em Lisboa e compõe o salário com as horas feitas na feira. Na sua carreira já passou por alguns sobressaltos como a aparição de Dinis Nazareth Fernandes, um vigarista exilado na Suíça que fez alguns alguns estragos no mercado editorial e livreiro há uns anos. Como em todos os casos de aparições, era arranjar um Tomás da Fonseca que as demolisse.

19:00 – Apesar de o dia não ser muito propício às vendas, a caixa vai funcionando (afinal a chave estava atrás de um livro no topo das prateleiras). O Papalagui, George Saunders, Zamiatine e seus discípulos vão compondo o dia. O sol, que mal espreitou durante o dia, começa a esconder-se. Vem aí o frio. Ou não estivéssemos nós na Feira do Livro.

20:15 – Surge o primeiro cliente a perguntar pela Hora H (ver referência à Vaca Leiteira dos editores).

Passou a Hora H e o sufoco inerente. No meio da confusão, dei por mim a vender Thoreaux e Cossery, logo esse que tanto saudou a preguiça. Achei que podia ser útil e já tinha recolhido todas as minhas notas. Alexandre fica a fechar a caixa, Pedro e Luís aguardam. Despedimo-nos, eu enregelado, o Pedro soltando fumaças, o editor soltando a verve de vendedor caprichado.

20:52 – Chega Luís Oliveira, fundador e editor da Antígona, que está disponível para algumas declarações, ao mesmo tempo que demonstra ser um vendedor nato, sobretudo quando o sufoco da Hora H e da sua dupla fila de clientes ávidos aperta. Distribui catálogos, vende livros, recolhe endereços de email para a newsletter e distribui cumprimentos quase-sorrisos num registo deadpan. Algo que contrasta com a imagem belicosa que tinha dele. A mesma boina vermelha, um discurso mais amanteigado.

“A feira está bonita, comercialmente está a correr-nos bem. Para nós vale sempre a pena participar. Temos muitos leitores que vêm cá, por isso é que temos 150 títulos esgotados. E as alterações são bem-vindas, as novas barraquinhas de comida, nada contra. Só sinto falta de um restaurante com facas e garfos, como já houve em tempos”.

Para ter a certeza de que estou a falar com o mesmo Luís Oliveira que em tempos me disse numa entrevista que gostaria de pegar fogo à Feira do Livro, pergunto-lhe se ainda é um editor refractário. “Claro, refractário é quem desobedece, e eu gosto de desobedecer. Refractário é quem não alinha com a sociedade”. Então, mas está aqui na feira organizada pela APEL, contraponho. Está a alinhar com a sociedade. O que é que acha da APEL? “A APEL é uma coisa que cumpre a função de organizar a feira, mas que durante o ano não existe. Sou sócio e pago a quota de quatrocentos e tal euros, mas não sei para quê. Não sei o que é que eles fazem ao longo do ano (Não quer deixar o seu email para receber as novidades? Mas não o entregue aos rapazes, que eles são atrevidos). E o aluguer destes pavilhões é caro, são milhares de euros. No Porto a câmara cortou com a APEL e são eles que organizam a feira. E bem. Os alugueres custam um quarto do preço que nos cobram em Lisboa (Não quer levar um catálogo?). Pagamos e não há retorno para os sócios. Na feira, estamos uma semana a trabalhar só para pagar o pavilhão”.

That’s more like it, Luís. Portanto, isto é cultura ou é um negócio como os outros? “Cultura? A cultura é tudo e não é nada. É uma coisa vaga. Um copo a rodar numa mesa é cultura, como dizia o Proust. Isto não tem a ver com cultura, tem a ver com a APEL precisar de um 25 de Abril. É disso que eles precisam, de um 25 de Abril, que ainda não aconteceu lá”. Portanto, é uma estrutura que precisa de mudanças? Faz sentido haver uma APEL? “Há APEL é um vício que se desenvolve no mau sentido. O secretário-geral, tenho estima por ele, mas é impotente para mudar as coisas. É uma associação contraditória. E onde há contradição, há ataque cardíaco. Há enfarte. Livreiros e editores não estão juntos em parte nenhuma do mundo. E a APEL sofre de sedentarismo (Já recebe as novidades da editora? É só deixar o email). Ponha aí, ponha aí que o problema da APEL é o sedentarismo”.

Luís mantém-se à frente da editora por paixão, palavra do próprio. E diz que o fará até ao fim, entenda-se, não pensa em reformar-se. Pergunto-lhe se nunca pensou em vender a editora. “Pensei, pensei. Houve há uns anos uma oferta da Babel… mas felizmente não vendi. O Paulo Texeira Pinto, tenho consideração por ele, mas não é editor, não percebe nada de livros. E eu gosto é do dia a dia a pensá-los e a prepará-los. Eu fico até ao fim. Aliás, eu parto do princípio de que não morro”, mas se morrer, arrisco, “se morrer, fica a Lurdes Afonso e a Carla Oliveira, que é minha filha e editora da Orfeu. E uma equipa que tem muita experiência… os meus colaboradores”.

Pergunto, então não devia chamar-lhes trabalhadores em vez de colaboradores? “Digo colaboradores pela partilha, porque colaboramos todos, na Antígona somos amigos. Há uma partilha, uma afectividade, um movimento”. E a novilíngua do Orwell, claro. Colaboradores oblige.

22:03 – Passou a Hora H e o sufoco inerente. No meio da confusão, dei por mim a vender Thoreaux e Cossery, logo esse que tanto saudou a preguiça. Achei que podia ser útil e já tinha recolhido todas as minhas notas. Alexandre fica a fechar a caixa, Pedro e Luís aguardam. Despedimo-nos, eu enregelado, o Pedro soltando fumaças, o editor soltando a verve de vendedor caprichado. “Já me viu estes gajos? Têm vergonha de pedir o email às pessoas. Aprendam comigo”. Big Luís is watching you. E lá vou eu ladeira abaixo, despindo a nostalgia da feira e a farda de colaborador por um dia.

Pedro Vieira é pivô de televisão e ilustrador relutante

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