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Três em um. As vidas cruzadas dos candidatos à liderança do PSD /premium

Quando Montenegro entra para a AR em 2002, Rio sai para a câmara do Porto. Pinto Luz faz política em Lisboa, os outros dois a norte. Percursos pouco se cruzam, mas há ligações. Um perfil cruzado.

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Da Jota à Assembleia da República, passando pelas lutas autárquicas entre Espinho e o Porto, os caminhos dos dois principais candidatos à liderança do PSD fizeram-se quase sem se tocarem. Anos mais tarde, os filhos de ambos, Hugo e Marta, hoje com 18 anos, encontrar-se-iam na mesma escola. Rui Rio tem 62 anos, Luís Montenegro 46. Um filiou-se na JSD quando o outro tinha apenas um ano de idade. Só quatro anos mais tarde nasceria o terceiro candidato à liderança: Miguel Pinto Luz tem 42. Os três concorrem às eleições diretas do PSD que se jogam este sábado, exatamente a mesma data onde um ano antes Luís Montenegro deixava traçado o destino. É por aí que começamos. Uma viagem ao percurso político cruzado dos candidatos à liderança do PSD.

Rui Rio, Miguel Pinto Luz e Luís Montenegro (da esquerda para a direita). Fotos retiradas dos sites das candidaturas

CCB. O primeiro dia do resto da vida

11 de Janeiro de 2019 — precisamente um ano antes das diretas que disputam agora a 11 de janeiro de 2020. Luís Montenegro aparece sozinho numa pequena sala do CCB. Curiosamente, faltavam dois dias para Rui Rio cumprir um ano de mandato à frente do PSD. Gravata azul clara vestida, bandeiras do partido, do país e da União Europeia como pano de fundo. E mais nada. Montenegro não queria ser associado ao chamado “movimento das distritais” que andava a congeminar contra Rui Rio, por isso só permitiu aos amigos Hugo Soares e Pinto Moreira (autarca de Espinho) estarem presentes na sala para darem força política. De resto, só jornalistas. E isso “não foi por acaso”.

Foi o momento mais “difícil” para Luís Montenegro, conta agora Hugo Soares ao Observador. Não foi a luta propriamente dita no Conselho Nacional, aquele que Rui Rio ‘carinhosamente’ intitula de “Conselho Nacional do golpe de Estado”, nem o facto de, no dia seguinte, ter de admitir que perdera a primeira batalha. Houve um antes e um depois do CCB. Gerir o momento, para não ser acusado de taticismo, ao mesmo tempo que tentava não perder o momento, era um equilíbrio difícil. Saiu assim: “Estou disponível para me candidatar de imediato à liderança do PSD convidando o dr. Rui Rio a marcar já diretas e a apresentar a sua própria candidatura”. As palavras estavam escritas, e as essas seguiu-se um pedido de “coragem”, para que não se “refugiasse” atrás de questões formais, jurídicas e administrativas. Montenegro queria diretas, queria diretas ‘já’, não queria moções de censura ou de confiança, porque essas, com um Conselho Nacional relativamente confortável para Rio, seriam muito mais difíceis de ganhar. O gesto era arriscado, sobretudo para quem, como ele, tinha prometido, no dia em que decretou o apoio a Santana Lopes nas diretas, não atrapalhar o líder eleito até este provar o que valia em eleições.

A verdade, contudo, é que o “momento CCB” já tinha começado a ser trabalhado há uns tempos, sobretudo desde setembro, altura em que Rui Rio foi à tradicional festa laranja do Pontal (desta vez num formato novo, à la Rio), com a mira apontada aos adversários internos que “tentavam ser alguém na política”. A esses, Rio avisou: “Podem esperar sentados”. Montenegro ouviu e registou. O tom áspero com que o líder do partido se dirigiu aos colegas — críticos — não caiu bem a alguns setores e, em vez de ficar à espera sentado, foi nessa altura que Luís Montenegro mais se agitou na cadeira e se começou a levantar. Já tinha prometido, no congresso de entronização de Rio, que ia andar por aí.

Luís Montenegro apareceu sozinho na sala do CCB para lançar desafio a Rui Rio

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

As televisões estavam em direto e, estrategicamente, Montenegro começou por se dirigir aos portugueses, em vez de se limitar a dirigir aos militantes do partido. O “momento CCB” foi todo pensado para que de uma comunicação ao país se tratasse, embora Luís Montenegro não fosse mais do que um ex-líder parlamentar. Rui Rio não reagiu logo, antes pelo contrário: reduziu o adversário à sua insignificância e deixou o partido e o país na expectativa. Só no dia seguinte, ao final da tarde, é que disse: “A minha resposta é não”. Não convocou diretas, mas convocou o Conselho Nacional e apresentou uma moção de confiança. O momento seria de “clarificação”, como diria o próprio desafiador para se defender preventivamente das acusações de taticismo que iria ouvir.

O resto é história: Rui Rio teve a maioria do Conselho Nacional e Montenegro remeteu-se a nove meses de silêncio. Segundo conta agora Hugo Soares, Luís Montenegro “nunca teve dúvidas de que aquele iria ser o desfecho do Conselho Nacional”, porque era “o Conselho Nacional de Rui Rio”, e, por isso, não se envolveu pessoalmente na contagem de espingardas. Mesmo que estivesse a escassos metros do hotel do Porto onde a batalha se desenrolava. Deixou isso para o chamado eixo das distritais descontentes. O ponto, neste momento, já não era ganhar: era poder dizer ‘eu avisei’.

No dia seguinte, deu-se o segundo take do “momento CCB”, desta vez no hotel Sol Verde de Espinho. As mesmas três bandeiras como pano de fundo: do partido, do país e da União Europeia. A gravata em tons de rosa claro, mas a mesma solidão. Luís Montenegro voltaria a aparecer sozinho para dizer que estava de “consciência tranquila”, que tinha feito um serviço ao partido ao ter “acordado um gigante adormecido”, e para prometer regressar: “Voltamos a ver-nos depois das eleições”. Aí sim, seria o momento de usar o trunfo conquistado: ‘Eu avisei’.

“Estou disponível para me candidatar de imediato à liderança do PSD convidando o dr. Rui Rio a marcar já diretas e a apresentar a sua própria candidatura”
Luís Montenegro desafiou Rio para diretas em janeiro de 2019, um ano depois de Rio ter chegado à liderança

Era o pré-anúncio da candidatura à liderança do partido (que se seguiu ao pré-pré-anúncio que já tinha feito no congresso de 2018). O anúncio mesmo só se viria a consumar nove meses depois, em outubro, quando Rui Rio perdeu as legislativas com 27,8% dos votos. Mas foi no CCB que o destino se traçou. Depois disso, já não havia volta a dar. Foi ali que Montenegro teve o que lhe faltou um ano antes, quando disse que ‘não’ a quem lhe pediu para preencher o vazio deixado pela queda de Pedro Passos Coelho.

O fim do passismo e um avanço em “qualquer circunstância”

Não se perspetivavam umas autárquicas famosas para o PSD. Cinco dias antes da ida às urnas já o Observador noticiava que Rui Rio ia avançar para a liderança do partido “em qualquer circunstância”. Desta vez, já não seria a história do Pedro e do Lobo: mesmo que as autárquicas não fossem um desastre e Passos Coelho se recandidatasse, Rio seria mesmo candidato às próximas diretas. Por essa altura, como noticiava o Observador, Rio já andava pelo país à procura de apoiantes. Na segunda e na terça-feira que antecederam as eleições de 1 de outubro de 2017, andou por Lisboa e encontrou-se com figuras como José Eduardo Martins, Feliciano Barreiras Duarte, Nuno Morais Sarmento ou mesmo Rodrigo Gonçalves. Miguel Relvas tinha deixado a provocação, duas semanas antes, em entrevista ao Expresso: “Pago para ver [se Rio avança]”. Se pagou, perdeu dinheiro.

As eleições autárquicas correram mal ao PSD. Passos Coelho surpreendeu todos quando na noite eleitoral disse que ia ponderar a saída num tom de quem já tinha tudo ponderado. E saiu mesmo. No dia seguinte, o Expresso noticiava um encontro numa quinta em Azeitão entre Rui Rio e alguns “barões” como Ângelo Correia, Morais Sarmento ou Ferreira Leite. Foi nas vésperas do Conselho Nacional que marcou a saída de Passos. Rio só anunciaria a candidatura (“É hora de agir”, era o slogan) alguns dias depois, a 11 de outubro, deixando o palco do Conselho Nacional ser dominado pelos avanços e recuos de outros. Mais recuos do que avanços, diga-se.

Montenegro não avançou para líder da oposição. Mas foi oposição a Rio

Luís Montenegro e Hugo Soares almoçam no dia 3 de outubro de 2017, num local que costumam frequentar: o restaurante Último Porto, em Lisboa. Era dia de Conselho Nacional, Passos estava de saída, mas para o espinhense a liderança não estava, para já, no menu. Foi, por isso, um almoço tranquilo. Meses antes, quando abandonara a liderança parlamentar, ali perto, no restaurante Café In, reiterava aos jornalistas aquilo que repetira nos últimos anos. Que um dia, quando quisesse avançar para a liderança, não pediria autorização a ninguém.

No Conselho Nacional dessa noite, contudo, Luís Montenegro não se retira logo do jogo, embora Paulo Rangel apareça ali como o candidato que ganha gás para suceder a Passos Coelho. Só dois dias depois, no feriado de 5 de outubro já ao final da noite, é que Luís Montenegro anuncia que não será candidato: “Após a reflexão que fiz entendo que, por razões pessoais e políticas, não estão reunidas as condições para, neste momento, exercer esse direito”. Em entrevista ao Observador, a 12 de dezembro, relembra que entendeu que estava demasiado colado ao passismo e “que era útil que o PSD também tivesse essa mudança, essa possibilidade, com alguém que não tivesse uma ligação tão íntima com esse período, para que pudesse criar um novo ciclo no PSD”.

Luís Montenegro foi ao congresso de Rio dizer que não ia pedir licença a ninguém quando quisesse avançar

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Miguel Pinto Luz — que em setembro de 2017 tinha sido incluído por Miguel Relvas numa lista de possíveis sucessores de Passos Coelho — também se colocou fora da corrida. E com uma nuance: decidiu não apoiar nenhum candidato, numa perspetiva de poder vir a ser candidato no futuro, mas vincou o seu ponto quando escreveu uma carta aberta a Rio com linhas vermelhas claras: tinha de ganhar as eleições legislativas. Até lá, fez questão de se manter com um pé dentro e outro de fora: criticar, mas deixar andar até às legislativas. Essa seria a prova final. Primeiro soldado, depois general.

A 11 de janeiro de 2018, dois dias antes das diretas, Luís Montenegro decide dar apoio público a Santana Lopes antes de um evento realizado em Aveiro. E como o fez? Atacando Rui Rio. Montenegro dizia ser “suicidário qualquer compromisso pré-eleitoral com este PS”. Negava, no entanto, vir a desafiar o candidato que vencesse as diretas antes de este se submeter ao voto popular: “O PSD vai eleger um líder que tem dois anos de mandato, que terá de enfrentar alguns desafios: europeias, eleições na região autónoma da Madeira e legislativas. Depois disso, terão de ser feitas avaliações”. Nunca antes, dizia.

Rui Rio ganhou mesmo as eleições, mas não demorou muito até que Luís Montenegro se assumisse como o líder da oposição ao líder da oposição. Logo no congresso da entronização do atual presidente do PSD, o antigo líder parlamentar entrou ao ataque. Da tribuna, repetiu a frase que marcaria posição para o futuro: “Desta vez decidi não, se algum dia disser sim, já sabem, não vou pedir licença a ninguém”.

"O PSD vai eleger um líder que tem dois anos de mandato, que terá de enfrentar alguns desafios: europeias, eleições na Região Autónoma da Madeira e legislativas. Depois disso, terão de ser feitas avaliações"
Luís Montenegro quando deu apoio público a Santana Lopes, dias antes das diretas de 2018

Recusou ser um homem na sombra, à espreita para liderar, para não fazer o que Rui Rio fez no tempo de Passos: “Não fui eu que estive dez anos à espera de disputar a liderança do PSD entre desejos alternantes de ser primeiro-ministro e presidente da câmara”. E acrescentaria: “Tal como Rui Rio fez noutras ocasiões, a minha decisão de não candidatura foi de liberdade. Se querem dar esse selo de calculismo podem dar, mas há aí alguém que deve ter a caderneta cheia”. 

Luís Montenegro dizia a Rui Rio que “o PSD não pode capitular nos braços deste Partido Socialista”, que é “mais bloquista do que socialista, é mais Louçã do que Mário Soares”. E deixava ainda outro pedido, logo no congresso da entronização: “Não deixe que o PSD se transforme do grupo de amigos de Rui Rio ou da agremiação dos amigos de Rui Rio. Confio em si. Sei que se vai afastar da intrigalhada e da mesquinhez. Isso ensombra os fracos, sei que Rui Rio é forte. Eu confio em si.”

A refiliação do austero Rio e o príncipe do PSD/Espinho

Recuemos às origens. Além dos cargos de direção nacional que ocupou na JSD logo no início dos anos 80 (filiou-se na Jota logo no rescaldo do 25 de abril), Rui Rio chega ao primeiro cargo de relevo nacional em 1996, quando é escolhido pelo líder Marcelo Rebelo de Sousa para ser secretário-geral do partido. Não foi a primeira escolha, a primeira tinha sido Manuela Ferreira Leite, que recusou e indicou o jovem deputado portuense. É aí que Rui Rio começa a deixar a sua marca ao iniciar, desde logo, um duro processo de refiliação no partido com dois objetivos: limpar os mortos e reduzir a margem dos caciques (já então, na casa de Sérgio Vieira, líder da JSD/Porto, por exemplo, “viviam” 12 militantes). Com as regras impostas por Rio, os militantes tinham de dar novamente o comprovativo do bilhete de identidade e fazer prova de residência (com comprovativo de morada) para se manterem filiados no partido. Caso contrário, saíam dos cadernos. Foi um terramoto e muitos militantes bateram com a porta.

Rui Rio chega à direção da JSD em 1981

Internamente, a tensão criada foi de tal forma que Marcelo tentava evitar que o seu secretário-geral fosse a alguns eventos partidários na distrital do Porto para não criar fricções. Mas Rio ia na mesma. Em dezembro de 1996, há até um comício “anti-Pachecos, Rios e Brancos”, organizado pela JSD/Porto e por Valentim Loureiro. O advogado Amorim Pereira, homem-forte de Menezes, atira-se a Rio e a outros “bem pensantes”: “Há pessoas que estão a destruir o PSD.” Pouco depois, Patinha Antão, que era presidente do gabinete de estudos, demite-se e chama a Rui Rio “fascistoide e cobarde”, referindo-se a ele como o “mentecapto que exerce as funções de secretário-geral”.

Marcelo acabaria por perder a paciência com Rio e pouco depois passaria para Carlos Horta e Costa o pelouro financeiro. O rigor de Rio estava a atrasar tudo. Sobretudo a campanha para as autárquicas, que não andava nem desandava por causa das contas certas do secretário-geral. Como o próprio Horta e Costa contou mais tarde: “Tínhamos de encontrar financiadores para a campanha das autárquicas, mas o Rio achava que só quando tivesse o dinheiro todo em caixa é que se podia avançar para a campanha, o que estava a atrasar todo o processo”. Na comissão que preparava as autárquicas, Rio incompatibiliza-se também com José Luís Arnaut e fica cada vez mais isolado.

O líder do PSD dá o beijo da morte a Rio num Conselho Nacional no início do verão antes das autárquicas de 1997. Aí, Marcelo diz que no processo para as autárquicas “nem todos souberam distinguir o essencial do acessório”. As declarações saíram no Expresso. Rui Rio enfiou a carapuça e enviou um fax a Marcelo a exigir que se pronunciasse sobre as declarações que saíram no Expresso e manifestasse solidariedade. O que não aconteceu. Rio sai a 20 de junho do cargo de secretário-geral. Pacheco Pereira e Luís Filipe Menezes, amigos de sempre, fazem-lhe elogios.

Rio já não era secretário-geral quando em Espinho acontecia a tempestade perfeita — a favor do PS. Nas autárquicas de 14 de dezembro de 1997, os socialistas conseguem a maior vitória de sempre em Espinho com 54,62% dos votos e uma esmagadora maioria no executivo (5-2). Um desses dois é Luís Montenegro, embora não tenha sido o cabeça de lista do PSD à autarquia. É aí que o jovem Montenegro, com apenas 24 anos, se torna líder do PSD/Espinho.

Em 1998, o efeito das regras de Rui Rio — a juntar à estrondosa derrota para os sociais-democratas — teve as suas consequências. Montenegro recebe um PSD/Espinho que passa de 600 militantes para apenas 50. Começa a esboçar um plano para o PSD recuperar a câmara que escapava desde 1989 e que parecia mais longe do que nunca. “Na sequência dessa derrota catastrófica, o PSD tinha-se esfumado. Mas o Luís acreditava que conseguia recuperar o poder”, recorda ao Observador o atual presidente da autarquia e amigo de Montenegro, Pinto Moreira.

Luís Montenegro conhece Pinto Moreira no café Baviera, na rua 19, em Espinho, no ano em que terminou a licenciatura na Universidade Católica do Porto (1999). “Era apenas um café, mas ele já sabia do meu interesse e ele foi de facto absolutamente convincente. Tratava-me como senhor doutor para trás e para a frente. Com grande formalidade. Eu já tinha 30 anos, ele era mais novo. Logo ali reconheci-lhe o talento”, conta Pinto Moreira. Começou aí a tentativa de reconquista da câmara de Espinho. Montenegro sabe que será candidato às autárquicas em Espinho daí a dois anos, em 2001. Rio ainda não.

Luís Montenegro foi nadador salvador durante a adolescência, aos 16 anos, em Espinho (foto cedida pela candidatura)

O rei do Porto Vs. o derrotado de Aveiro

Rui Rio tinha sido praticamente imposto como candidato à câmara do Porto pelo líder do partido, Durão Barroso, contra a vontade do líder da distrital, Luís Filipe Menezes. Mas foi essa vitória surpreendente que ditou o início de mais de uma década à frente dos destinos daquela cidade. Foram doze anos marcados pela recuperação das finanças da cidade — mesmo asfixiada pela crise financeira que se abateu no país a partir de 2009 –, que lhe valeram o rótulo de gestor rigoroso (Rio tinha mesmo um cartão com a palavra ‘Não’ na secretária sempre pronto a ser usado para recusar verbas avantajadas aos vereadores). Mas foram também doze anos de gestão marcados por muitas polémicas: da demolição do Bairro do Aleixo às controversas obras do Metro do Porto, do Mercado do Bolhão e do Pavilhão Rosa Mota, passando pela guerra com os agentes culturais da cidade, com Pinto da Costa e o FC Porto e com os arrumadores de carros. A chegada de Rio ao Porto coincidiu também com o arranque do período em que o PSD regressaria ao poder (as autárquicas de 2001 ditaram o “pântano” que levaria à queda de Guterres e à posterior ascensão de Durão Barroso).

Rio costumava dizer que sabia que não podia comprar as guerras todas, por isso escolhia-as bem e só comprava aquelas em que o benefício era previsivelmente maior do que o custo. Uma máxima que mantém ainda nos dias de hoje, onde todos reconhecem que Rio é tanto mais aguerrido quanto maior for a guerra que estiver a travar.

Logo no primeiro mandato, houve a guerra com o FC Porto por causa do Plano de Pormenor das Antas, que custava 500 milhões de euros. A animosidade com Pinto da Costa manteve-se desde então e Rio recusou sempre receber o FC Porto nos Aliados de cada vez que aquele clube somava títulos nacionais e europeus (e naquela altura foram muitos). Era em Gaia, do outro lado do rio, o lado de Luís Filipe Menezes (com quem se tinha chateado por causa de uma traição política), que os portistas celebravam o futebol.

Rui Rio na tomada de posse para o primeiro mandato à frente da câmara do Porto (foto do site da candidatura)

Houve ainda a guerra contra aquilo a que Rio chamava a cultura da subsídio-dependência instalada nos agentes culturais da cidade, tendo sido acusado de hostilizar a cultura durante os 12 anos que esteve à frente do Porto. Para a história fica, por exemplo, o momento em que o autarca foi vaiado na inauguração do Fantasporto, o Festival Internacional de Cinema Fantástico do Porto, que era subsidiado pela autarquia (mesmo com os cortes impostos por Rio), e que levou a que Rio apertasse a malha a este tipo de apoios tendo sido acusado de comportamentos anti-democráticos. Já no segundo mandato, houve ainda a guerra da concessão do Teatro Rivoli a privados, que meteu mesmo polícia, e que, feitas as contas, também serviu para Rio provar o seu ponto: quando não há dinheiro para tudo, o dinheiro gasto em cultura não pode ser o dobro do que é gasto em ação social. O dinheiro para a cultura tem de ser racionalizado, defendia.

No primeiro mandato, Rio governava sem maioria — era o comunista Rui Sá quem viabilizava o executivo social-democrata. Mas em 2005, mesmo com todas as guerras que começou a comprar, Rui Rio já não precisou da CDU. Depois de o socialista José Sócrates ter conquistado a maioria absoluta no país, Rio conquistou a maioria absoluta do PSD no Porto, nas autárquicas do mesmo ano. Francisco Assis tinha sido uma escolha pessoal de Sócrates para o Porto, mas Rio não deu hipótese. “O senhor primeiro-ministro empenhou-se politicamente e pessoalmente no Porto, veio cá quatro vezes apoiar a candidatura do PS. O senhor primeiro-ministro perdeu as eleições no Porto. Aquilo que peço é que o engenheiro José Sócrates aceite democraticamente a derrota e não me trate como um adversário político porque eu não quero ser seu adversário político, quero respeitá-lo e quero que ele me respeite como presidente da Câmara do Porto”, diria Rio no discurso da vitória. O alvo não era Assis, era mesmo Sócrates.

Do primeiro para o segundo mandato, Rui Rio mudou toda a sua equipa de vereadores, incluindo Paulo Morais que já não foi nas listas. Só ficou uma vereadora, Matilde Alves, e Rio queixou-se da lei que não permitia a um presidente de câmara fazer toda a remodelação da equipa como se fosse um primeiro-ministro (porque os vereadores são eleitos em lista, ao contrário dos ministros). Por altura do segundo mandato de Rio no Porto, o adversário Luís Filipe Menezes chegava à liderança do PSD (em 2007), mas pouco tempo lá ficaria. Menezes sai em 2008 por não resistir à forte pressão dos adversários internos, que se multiplicavam em declarações contra o líder. A gota de água foi uma entrevista de José Pedro Aguiar Branco à revista Visão a defender um congresso antecipado e a desafiar a liderança de Menezes. Não foi preciso: Menezes saiu pelo seu pé e não se candidatou nas eleições seguintes. Pelo meio, Rio mantinha o mesmo espírito: não queria que o Porto caísse nas mãos do autarca do concelho vizinho, agora que as contas estavam a ficar em dia.

Em 2005, Rui Rio conquista a primeira maioria absoluta na câmara do Porto (foto do site da candidatura)

Por esta altura, em meados da década de dois mil, Montenegro era ainda um jovem deputado, mas não desistia de ir a jogo em eleições: quer em autárquicas, quer nas estruturas do PSD. Em 2005, ano em que Sócrates consegue a primeira maioria absoluta para o PS, Luís Montenegro volta a tentar vencer a câmara de Espinho, desta vez em coligação com o CDS. A soma dos dois partidos nas eleições anteriores dava uns esperançosos 41%, mas Montenegro não consegue lá chegar e perde para o histórico socialista com 37,97% dos votos e os mesmos três vereadores. Rio vence no Porto, Montenegro perde em Espinho, António Capucho vence em Cascais. Nesse mesmo ano, Miguel Pinto Luz torna-se adjunto do vice-presidente da câmara municipal de Cascais, Carlos Carreiras, e inicia aqui o seu percurso autárquico através do gabinete daquele que é considerado uma espécie de seu “pai político”.

No anos seguintes, Luís Montenegro vai acumular mais uma derrota às duas que já leva no currículo. Tenta conquistar a distrital de Aveiro, mas perde outra vez. E perde para António Topa (agora apoiante de Rio), que demonstrou mais uma vez ter mão no distrito a partir de Santa Maria da Feira. Terceira derrota em cinco anos. Parecia improvável afirmar-se como uma figura nacional, quando nem conseguia ganhar o próprio distrito.

Rio ao lado de Ferreira Leite, Montenegro com Santana, Pinto Luz com Passos

O PSD vai a diretas no ano seguinte, em 2008, e, tal como hoje, a corrida opunha três candidatos: Manuela Ferreira Leite, Pedro Santana Lopes e o semi-desconhecido do grande público Pedro Passos Coelho. Houve ainda um quarto candidato que acabaria por ter pouca expressão eleitoral: Patinha Antão, o mesmo que se demitiu anos antes em conflito com o secretário-geral Rui Rio.

Curioso é que os agora três candidatos (Rio, Montenegro e Pinto Luz) dividiram-se em 2008 pelos três principais candidatos de então. Luís Montenegro apoiou e fazia parte da estrutura de candidatura de Pedro Santana Lopes, Rui Rio apoiou Manuela Ferreira Leite e Miguel Pinto Luz apoiou Passos Coelho, o único dos agora candidatos a fazê-lo — e deu conta disso numa recente entrevista ao Observador: “Sou um passista desde a primeira hora, ao contrário dos outros candidatos.” Era uma indireta para Montenegro que só se coloca ao lado de Passos dois anos depois (nas diretas de 2010).

Quem ganhou foi Manuela Ferreira Leite, e foi aí que Rui Rio voltou à direção do partido, agora na qualidade de vice-presidente. A verdade é que 2008 foi o ano em que Rio esteve a um triz de avançar para a corrida à liderança. Segundo conta o Expresso, as negociações foram mesmo até ao último minuto e duraram todo o fim de semana, obrigando Rio a viajar até Lisboa numa derradeira tentativa para o convencerem a avançar. Mas Rio não queria. Um dos motivos era o facto de se temer que, se avançasse, Luís Filipe Menezes poderia não resistir a uma recandidatura, o que transformaria as diretas numa luta fratricida. Manuela Ferreira Leite acabou por ser a escolha mais consensual (com Rio a vice), reunindo apoios de “barroristas” e “cavaquistas” que se viraram para ela perante a resistência de Rio.

Rui Rio em 1983 (foto do site da candidatura)

Foi aposta ganha: Ferreira Leite bateu Santana e Passos, mas à míngua. Conseguiu 37,9% dos votos, contra 31% de Passos e 29,6% de Santana Lopes. No mesmo mês em que Ferreira Leite é entronizada líder em congresso (em junho de 2008), Rui Rio recebe o então presidente da câmara de Lisboa, António Costa, nas festas do São João, no Porto, para sinalizar a “excelente relação” entre os autarcas dos dois municípios mais importantes do país. O gesto, no entanto, foi visto como statement político, já que Rio tinha acabado de assumir um cargo de topo na direção nacional do partido e era a primeira vez que aquele tipo de convite (entre Lisboa e Porto, PS e PSD) acontecia. Interrogado sobre se a presença de António Costa no Porto significava um ressurgimento do Bloco Central, Rui Rio recorria à ironia. “Só se for ao nível dos santos populares”, disse na altura.

Ainda sob a liderança de Ferreira Leite, Luís Montenegro consegue finalmente uma vitória em Espinho, mas não era ele o candidato. À terceira foi de vez, mas era Pinto Moreira quem dava a cara. Estamos em dezembro de 2009 e Montenegro é “apenas” eleito presidente da Assembleia Municipal. Adversários de Montenegro na distrital de Aveiro ainda hoje comentam: “Foi preciso o Luís sair para o PSD ganhar a câmara de Espinho”. Pinto Moreira, em declarações ao Observador, considera esta análise uma “injustiça grande”, já que acredita que o PSD só conseguiu “vencer a câmara graças ao trabalho feito por Luís Montenegro no desgaste ao PS e ao então presidente socialista José Mota”.

Foi dias antes das autárquicas que Luís Montenegro e Pinto Moreira perceberam que o PS estava a perder gás. “Nas legislativas, o PSD tinha tido o pior resultado de sempre com Ferreira Leite, só superado por Rui Rio agora, mas eu e o Luís Montenegro vimos que o PSD tinha subido e percebemos que as autárquicas iam ser disputadas voto a voto”, conta Pinto Moreira. “Queres ver que ainda vamos ganhar as eleições?”, comentaria Luís Montenegro na noite eleitoral.

Luís Montenegro jogou futebol no Sporting Clube de Espinho. Aqui, nos iniciados (foto cedida pela candidatura)

Nessa noite, Montenegro e Pinto Moreira montaram “um pequeno estaminé“, onde foram recebendo os resultados das mesas, até ao telefonema final, em que perceberam que tinham conquistado a autarquia. “Não falámos. Tivemos um olhar. Saímos do lugar onde estávamos e fomos para a rua. Saltei literalmente para o colo de Luís Montenegro como se fosse um golo no último minuto do prolongamento. Demos um abraço muito forte”, conta Pinto Moreira. A câmara de Espinho era finalmente PSD, como Montenegro sonhava desde o final dos anos 1990.

Era a última vez que o PSD conseguia manter-se como maior partido autárquico e conquistar mais câmaras do que o PS. Em Cascais, António Capucho é reeleito presidente da autarquia e Miguel Pinto Luz é eleito pela primeira vez como vereador. Em Lisboa, Santana dá luta a Costa, e o PSD mantém grandes câmaras como Sintra e Porto, onde Rio volta a vencer com 47% dos votos, mais ainda do que os 46% que lhe tinham dado a maioria absoluta há quatro anos. Era o terceiro e último mandato de Rio no Porto: começou ainda com José Sócrates no poder e estendeu-se até ao governo de Passos Coelho, no auge da presença da troika.

Com o passismo a crescer, Rio remete-se ao Porto

Rui Rio fica com Manuela Ferreira Leite até ao fim. Apesar da derrota nas legislativas de 2009, a antiga ministra das Finanças (no governo de Durão Barroso) e da Educação (no governo de Cavaco Silva) passa o ano à frente do partido. No entanto, a líder anuncia que não se recandidata e coloca-se de fora das eleições diretas que ocorreriam no final de março. Nessas diretas, há quatro candidatos: Passos Coelho, Paulo Rangel, Aguiar-Branco e Castanheira Barros. Nesse mesmo mês de março houve um congresso extraordinário (não eletivo) para rever os estatutos, onde Santana Lopes fez aprovar a polémica “lei da rolha”, que morreu sem precisar de novo congresso.

Rui Rio não segue os “barões”, que optam por Paulo Rangel, e opta por uma terceira via saída da mesma ala: José Pedro Aguiar-Branco. Rio até admite que Paulo Rangel é um “melhor tribuno” e que seria melhor “líder da oposição”, mas explica que apoia Aguiar-Branco por ser o melhor para ser primeiro-ministro. Já Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz apoiam ambos Passos Coelho. Foi o último congresso a que Rui Rio foi: depois desse, ficou oito anos sem pôr os pés no órgão máximo do partido, onde só voltaria a entrar como líder.

Miguel Pinto Luz tomou posse como secretário de Estado do governo de Passos Coelho em 2015, o governo mais curto da história

Nesse mês, Miguel Macedo é eleito líder da bancada parlamentar e escolhe como um dos vice-presidentes Luís Montenegro. Passos Coelho vence as diretas e Rio remete-se ao papel de autarca. Entretanto, em janeiro de 2011, António Capucho sai da câmara de Cascais para dar lugar ao vice-presidente Carlos Carreiras. O vereador Miguel Pinto Luz sobe então a número dois da autarquia, ficando com o lugar deixado vago por Carreiras.

Nesse ano de 2011, Sócrates cai. Passos vence as legislativas e forma uma maioria de direita. Miguel Macedo sobe ao governo e Luís Montenegro perfila-se como líder parlamentar. É eleito e fica todo o período da troika e da governação de Passos Coelho como o rosto do passismo no Parlamento: foram seis anos naquela função. Já Pinto Luz, com Passos como primeiro-ministro, é candidato pela primeira vez a liderar a segunda maior distrital do país: Lisboa. Em novembro, vence as eleições com 72% dos votos contra apenas 28% de Jorge Roque da Cunha. E fica naquela distrital até 2017.

Durante a governação de Passos (e todo o período da troika), Rui Rio foi aquilo a que se pode chamar um crítico. Chegou mesmo a falar em “irresponsabilidade política” e em “ausência de defesa firme do interesse nacional”, criticando a escolha de Maria Luís Albuquerque para suceder a Vítor Gaspar no Ministério das Finanças. Rio remeteu-se ao Porto e, depois de terminar o terceiro e último mandato, em 2013, remeteu-se ao (quase) silêncio. Voltou ao setor privado, onde assumiu funções numa empresa da área de gestão de recursos humanos, a Boyden. A presença em conferências era, contudo, mais ou menos frequente, aproveitando essas ocasiões para manter vivo o tabu de uma candidatura à liderança do partido ou, até, às presidenciais (que não concretizou).

A primeira batalha (a sério) de Pinto Luz

Uma semana depois de o Governo de Passos Coelho tomar posse, Luís Montenegro é eleito líder parlamentar de um grupo com uns generosos 108 deputados. Além disso, competia-lhe a coordenação com o outro grupo parlamentar (o do CDS) que compunha a maioria que dava suporte ao governo de coligação entre sociais-democratas e centristas. Hugo Soares, hoje o braço-direito de Luís Montenegro, estreou-se na altura como deputado na bancada do PSD e recorda as “reuniões duríssimas” do grupo parlamentar. Lembra como era matéria impossível conseguir que os 108 deputados fossem, por exemplo, “a favor da agregação da freguesia onde moravam”. Apesar disso, garante Hugo Soares, Luís Montenegro mostrava de que “fibra é feito” e conseguia “consensualizar as decisões e tornar a decisão numa decisão única e de união do Grupo Parlamentar”.

Primeiro dia de Luís Montenegro como deputado, em 2002 (foto cedida pela candidatura)

A meio do período da troika, Miguel Pinto Luz, visto como “passista”, vai novamente a votos, em 2013, para a distrital de Lisboa. A concorrência aperta. Pedro Rodrigues sai do gabinete do ministro Poiares Maduro para tentar o assalto à distrital. Era um teste a Pinto Luz já que o adversário tinha agora mais força, mas era acima de tudo um teste à força de Passos no aparelho. O vice-presidente da câmara de Cascais consegue ser reeleito, mas baixa a votação: ganha 64% contra 36% de Pedro Rodrigues. Ainda iria a um terceiro mandato, em 2015, onde foi eleito com 91% dos votos numa lista única. E assim Pinto Luz ganhou força no aparelho, embora ainda continuasse a ser desconhecido das bases noutros pontos do país.

Em 2015, Passos Coelho vence as eleições mas falha a maioria de direita. Nas semanas seguintes, já sabendo que a o PS se preparava para não viabilizar o governo, Passos Coelho decide formar um governo com a “prata da casa”, convidando mais figuras do partido do que independentes. O governo foi o mais curto da história e Miguel Pinto Luz foi secretário de Estado das Infraestruturas menos de um mês. O Governo caiu no Parlamento e Passos Coelho assumiu o lugar de deputado. Era liderado por Luís Montenegro e iam alternando nos debates quinzenais: às vezes era Montenegro a afrontar Costa, outras era Passos Coelho. Foi assim até Hugo Soares assumir a liderança da bancada no verão de 2017. E sair pouco depois, já com Rui Rio na liderança do PSD. São estes três perfis que voltam a cruzar-se e a medir forças este fim de semana nas diretas do partido.

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