Podia ser a história do Pedro e do lobo. Mas vai ser mais um lobo a desafiar o Pedro. Desta vez, o ex-autarca do Porto avança mesmo. Rui Rio transmitiu a várias figuras do PSD, com quem falou nas últimas semanas, que avançará como candidato à liderança do PSD “em qualquer circunstância” após as autárquicas de 1 de outubro. O momento até pode não ser mais confortável — já que Passos tem, para já, o “aparelho” controlado –, mas Rio terá feito a leitura de que ou avançava agora ou os seus apoiantes desistiriam de vez. Não há vitória sem “aparelho” e, por isso, Rio já anda pelo país à procura de apoios, como confirmou o Observador junto de fontes próximas do ex-autarca e de alguns dos seus apoiantes.

Na última segunda e terça-feira, o ex-autarca do Porto e eterno challenger de Passos deslocou-se a Lisboa e terá feito contactos, em separado, com diversas figuras do partido, incluindo o também já apresentado como candidato a candidato José Eduardo Martins, o ex-secretário de Estado e ex-chefe de gabinete de Passos, Feliciano Barreiras Duarte, e com outro crítico habitual de Passos Coelho, Nuno Morais Sarmento (que no domingo foi notícia por faltar a uma ação de Teresa Leal Coelho). Mais discreto, o “ponta-de-lança” de Rui Rio para as tropas em Lisboa poderá ser o cacique que controla a concelhia do PSD/Lisboa, Rodrigo Gonçalves. O ex-autarca do Porto tem tudo a postos, até um site de candidatura que ficará disponível quando esta for assumida. Nos últimos dois meses, dirigentes sociais-democratas têm trabalhado na sombra — na clandestinidade — a preparar tudo para o ataque a Passos Coelho. “Pago para ver” se Rio avança, chegou a dizer Miguel Relvas há duas semanas ao Expresso como forma de provocação. Esse momento parece aproximar-se.

Rui Rio tem feito também algumas ações de campanha pelo país, onde aproveitou para fazer contactos sempre discretos. Também faz muitos contactos na sociedade civil. No Porto esteve ao lado de Álvaro Almeida, onde fez uma declaração que indicia que está preparado para fazer uma leitura nacional do resultado das eleições de 1 de outubro, data a partir da qual “outros temas se podem resolver”, como afirmou aos jornalistas:

Até às eleições autárquicas, o imperativo é procurar a unidade. A partir do momento em que estiverem resolvidas as eleições autárquicas, outros temas se podem resolver. Agora, o resultado de 1 de outubro é um elemento importante, como é lógico. São eleições autárquicas, mas todas ao mesmo tempo, tem um resultado nacional, ponto.”

Chegou a ser comentado entre dirigentes sociais democratas que, quanto pior o resultado de Álvaro Almeida, mais positivo seria para uma eventual candidatura de Rui Rio. Em Coimbra, Rui Rio apareceu ao lado do candidato Jaime Ramos, e ainda passou por autarquias como Sever do Vouga e Anadia. Ajudou na campanha e aproveitou para contactos junto do aparelho. A última palavra pública de Rio sobre o assunto foi em novembro de 2016 quando disse que se não aparecesse um candidato credível até ao congresso de 2018, seria candidato. Já em junho de 2017, voltou a reiterar o que tinha dito, dizendo que estava “válido a 100%” o que disse em novembro.

No Porto, Rio terá falado com Pedro Duarte, que tem alguns fiéis na estrutura do PSD um pouco por todo o país, do seu tempo na juventude partidária. Em Aveiro, o ex-autarca terá sondado o líder da distrital, Salvador Malheiro, que é aquele que está menos alinhado com Passos. Em distritais como Braga, o ex-autarca falou com autarcas como o presidente da câmara municipal de Famalicão, Paulo Cunha.

Passos Coelho, entretanto, já tem a disputa interna toda desenhada no calendário. O PSD já convocou o Conselho Nacional para dia 3 de outubro, 48 horas depois das eleições. No fim de novembro, haverá outra reunião do órgão máximo entre congressos e, de acordo com o próprio líder, esse, sim, servirá para convocar diretas e congresso.

Em entrevista esta segunda-feira à Rádio Renascença, Passos Coelho afirma que o PSD “tem previsto realizar as suas eleições diretas e congresso no início do próximo ano.” E até concretiza que as eleições internas “ocorrerão por finais de janeiro, princípios de fevereiro”. Sugere ainda que a discussão da liderança (marcação de diretas) se faça no próximo conselho nacional e não neste de dia 3: “Há-de haver um conselho nacional que vai marcar isso, em princípio até finais de novembro, e o congresso seguir-se-á. Encaramos isso com absoluta normalidade.”

Passos Coelho disse ainda que as eleições internas são “uma coisa que não tem relação com a campanha eleitoral” e que “a liderança não está em jogo”, mas admite: “Se o PSD tiver mau resultado autárquico, isso é mau para a liderança do PSD. Se o
resultado autárquico for muito bom, isso é bom para a liderança do PSD.”

O líder do PSD também garante à Renascença que “as eleições autárquicas não servirão” nem para se “pôr ao fresco” nem para “fazer provas de vida dentro do PSD.” E acrescenta: “Eu sou presidente do PSD, quando existirem eleições internas a seu tempo me apresentarei a essas eleições.”