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Alguns dos drones usados durante o ataque
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▲Alguns dos drones usados durante o ataque

▲Alguns dos drones usados durante o ataque

Um armazém, camiões e drones. Como a Ucrânia destruiu dezenas de bombardeiros no "Pearl Harbor" russo

Ucrânia garante ter destruído 34% dos bombardeiros estratégicos russos, num ataque que apanhou Putin de surpresa. Drones estiveram num armazém perto do Cazaquistão e foram lançados desde camiões.

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“A Rússia finalmente entendeu agora o verdadeiro significado da palavra desmilitarização.” Numa reação ao jornal Politico, um responsável do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) lembrava um dos objetivos de Vladimir Putin para a invasão em larga escala do país para comentar os ataques ucranianos deste domingo que destruíram dezenas de aeronaves em vários pontos do território russo. A operação Teia da Aranha, como lhe chamaram os serviços secretos de Kiev, foi uma das mais bem-sucedidas desde o início da guerra. “Foi brilhante”, saudou Volodymyr Zelensky, o Presidente ucraniano.

Nos canais militares de Telegram russos, reagiu-se com um misto de estupefação e insatisfação. O dia foi mesmo apelidado de Pearl Harbor, numa referência aos ataques japoneses à frota norte-americana no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. As sofisticadas secretas russas não conseguiram prever a operação militar ucraniana. Oficialmente, a Rússia descreveu o sucedido como um “ataque terrorista”, garantindo que tinha sido repelido e que os perpetradores tinham sido detidos. Moscovo concedeu, ainda assim, que algumas aeronaves pegaram fogo. 

A Ucrânia alegou que 34% dos bombardeiros estratégicos russos — serão mais de 40 — foram destruídos na sequência dos ataques com drones, sendo que os prejuízos se situam na ordem dos sete mil milhões de dólares (cerca de 6,1 mil milhões de euros). Estes números representam, no entanto, apenas a versão ucraniana, não havendo confirmação por parte da Rússia. Independentemente dos dados, o ataque foi um importante sucesso estratégico para Kiev. 

Segundo Volodymyr Zelensky, a operação militar deste domingo estava a ser planeada há mais de 18 meses. Ainda assim, o timing não poderia ter sido mais conveniente: os ataques ocorreram um dia antes de as delegações russas e ucranianas se encontrarem em Istambul para mais uma ronda de negociações de paz. Em termos negociais, esta ofensiva pode ter ajudado a fortalecer a posição da Ucrânia diplomaticamente. E mostrar que Kiev ainda tem “cartas” e vários trunfos prontos para enfraquecer a Rússia.

O ataque que demorou 18 meses a planear

“A preparação levou mais de um ano e meio. Planear, organizar, todos os detalhes foram perfeitamente executados. Pode ser dito com confiança que foi uma operação absolutamente única.” Nas redes sociais, o Presidente da Ucrânia deu vários pormenores sobre a ofensiva Teia da Aranha. “A Rússia sofreu perdas significativas — totalmente justificadas e merecidas.” 

Esta “operação única” teve como ponto nevrálgico um “escritório” numa localização inusitada: perto de uma sede regional do Serviço Federal de Segurança (FSB), um dos ramos dos serviços secretos russos, revelou Volodymyr Zelensky. “No total, 117 drones foram utilizados nesta operação”, disse o Presidente da Ucrânia, indicando que os responsáveis operacionais estavam em “várias regiões russas — em três fusos horários diferentes”. Contrariamente ao que alegou Moscovo, Kiev garante que as pessoas que ajudaram a prepará-la “saíram de território russo” e “estão a salvo”. 

O plano ucraniano foi relativamente simples para resultados tão positivos. Camiões sem qualquer identificação foram estacionados em zonas rurais, mas a uma distância calculada para atingir as bases aéreas russas. Através de um mecanismo à distância, os tejadilhos dos camiões abriram-se e os drones, armazenados no interior, lançados contra os alvos.

Subsistem dúvidas, no entanto, sobre quem conduziu e estacionou os camiões. Segundo apurou o Telegraph, alguns condutores nem sequer sabiam a carga que transportavam — e ficaram em pânico quando viram os drones a serem lançados. Um deles foi mesmo detido, de acordo com os meios de comunicação social russos. Certo é que aqueles equipamentos aéreos entraram clandestinamente em território russo e ainda não é claro como é que escaparam ao controlo das secretas da Rússia.

De acordo com canais de Telegram e meios de comunicação russos, citados pela publicação de investigação Insider, a Ucrânia escondeu inicialmente os drones num armazém na província russa de Chelyabinsk, perto da fronteira com o Cazaquistão — seria este o “escritório” que referiu Volodymyr Zelensky nas redes sociais. Custando mais de 350 mil rublos (cerca de 3.800 euros) por mês, os donos do armazém foram já detidos e as autoridades estão a investigar a presença de explosivos naquele espaço.

Os drones foram colocados em grandes caixas de madeira e depois transportados nos camiões; segundo o Telegraph, apenas dois não chegaram ao destino e autodestruíram-se. Os equipamentos aéreos que causaram as explosões tinham o mecanismo First Person View (Vista de Primeira Pessoa). Quer dizer que podiam ser controlados remotamente, de forma a alcançar os alvos a que se propuseram. Não se sabe quem os controlou à distância; segundo o The Guardian, terão sido manuseados desde território ucraniano, o que demonstra a sofisticação da operação.

Os drones podem, segundo os meios de comunicação social ucranianos, ter sido treinados com inteligência artificial para atingir a parte mais crítica das aeronaves. Em 2020, com o conflito localizado no leste da Ucrânia, as autoridades de Kiev já tinham surpreendido os russos com camiões: colocaram um perto da ponte de Kerch, que liga a península da Crimeia à Rússia continental, que foi detonado à distância e destruiu parte da infraestrutura.

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Mas a operação militar Teia de Aranha, que está a ser comparada à explosão de pagers no Líbano em setembro de 2024 orquestrada pelas secretas israelitas, foi mais complexa e atacou cinco bases aéreas russas praticamente em simultâneo, localizadas em diferentes pontos do território russo:

  1. Base aérea de Olenya, na província de Murmansk, perto da fronteira da Rússia com a Finlândia (a cerca de 3.400 quilómetros de distância de território ucraniano).
  2. Base aérea de Severomorsk, na província de Murmansk, perto da fronteira da Rússia com a Finlândia (a cerca de 3.600 quilómetros de distância de território ucraniano).
  3. Base aérea de Ivanovo Severny, na província de Ivanovo, perto de Moscovo (a cerca de 1.110 quilómetros de território ucraniano).
  4. Base aérea de Dyagilevo, na província de Ryazan, perto de Moscovo (a cerca de 775 quilómetros de território ucraniano).
  5. Base aérea de Belaya, na província de Irkutsk, perto da fronteira da Rússia com a Mongólia (a cerca de 5.300 quilómetros de território ucraniano).

O que foi destruído?

Nas cinco bases aéreas, a Rússia tinha uma frota relativamente avançada. Após o início da guerra da Ucrânia e depois de alguns ataques de Kiev a algumas bases aéreas, Moscovo transferiu algumas das aeronaves para o interior do seu território. Porém, na sequência desta operação militar, nem estas ficaram a salvo.

Os dados são ainda provisórios, mas a Ucrânia garante que destruiu um terço da frota de bombardeiros estratégicos, alguns dos quais já tinham sido utilizados para atacar território ucraniano. “Esses bombardeiros estratégicos são capazes de lançar ataques de longa distância contra nós. Só há 120 e nós atacámos 40. É um número incrível”, vincou o analista militar Serhii Kuzan, citado pela BBC.

Se Kiev garante que destruiu mais de 40 aeronaves, alguns analistas militares apontam para um número significativamente menor. Em todo o caso, está confirmada a destruição dos bombardeiros Tu-22M e Tu-95. Esta última aeronave é a mais antiga e é da altura da União Soviética. Inicialmente, foi criada para transportar bombas nucleares, mas foi adaptada para lançar mísseis de cruzeiro.

Rehearsal of Victory Day military parade in Moscow

▲ Bombardeiro Tu-95

Anadolu Agency via Getty Images

Já os bombardeiros Tu-22M, foram usados, como explica o Kyiv Independent, para atacar a Ucrânia no passado — e tratam-se efetivamente de um problema para a defesa do país. Os mísseis que a aeronave da época soviética lançam são supersónicos e atingem velocidades perto dos 4.000 quilómetros por hora; apenas podem ser intercetados com o recurso aos sistemas de defesa norte-americanos Patriot. Ainda que Kiev tenha alguns, não são suficientes para cobrir o território inteiro.

Também destruídas durante os ataques, as aeronaves soviéticas Beriev A-50 têm uma utilização mais multifacetada, sendo empregues para defender os céus russos e para coordenar ataques com caças.

Não sendo totalmente conhecidas, estas perdas serão significativas para a Rússia. Como relata a BBC, já não se fabricam estas aeronaves e repará-las será extremamente complicado. O El Mundo acrescenta que os componentes para produzir ou reparar os bombardeiros vinham de vários países da União Soviética — incluindo da Ucrânia. Tendo em conta a independência das repúblicas soviéticas, torna-se agora uma tarefa praticamente impossível que voltem a sobrevoar os céus russos.

epa07309205 (FILE) - A Russian Tupolev Tu-22 Strategic Bomber flies over Moscow's Kremlin during the Victory Day parade on Red Square in Moscow, Russia, 09 May 2016 (reissued 22 January 2019). According to media reports, a Tu-22 supersonic bomber of the Russian Ministry of Defense has crashed in Russia's Murmansk region.  EPA/MAXIM SHIPENKOV

▲ Bombardeiro Tu-22M

MAXIM SHIPENKOV/EPA

Para além de ter sinalizado que se tratou de um “ataque terrorista”, o Kremlin manteve-se praticamente em silêncio em relação à operação militar ucraniana. Os propagandistas tentaram abafar o tópico, ainda que este tenha sido bastante discutido nos canais de Telegram militares, mesmo aqueles que estão mais alinhados com a presidência. Moscovo parece agora querer esconder o que pode ser encarado com um falhanço completo das suas secretas.

Em declarações à CNN Internacional, o analista militar russo Carl Schuster acredita que Vladimir Putin vai “colocar mais recursos na segurança interna” após o que considera ser um “falhanço de segurança interna”. “A Ucrânia foi capaz de posicionar dezenas de camiões com drones perto das principais bases estratégicas russas e lançar ataques aéreos massivos. Como é que se imagina explicar isso a Putin?” 

A Ucrânia quis mostrar que ainda tem cartas — e enviar um recado a Trump

A Ucrânia terá levado a cabo esta ofensiva a solo. A operação militar Teia da Aranha não terá contado com nenhuma ajuda direta de nenhum aliado. Os Estados Unidos da América garantiram que não foram avisados de antemão do sucedido, nem sabiam que ia ter lugar este domingo.

Isto demonstra, em primeira instância, que a Ucrânia consegue ter sucesso em solo russo sem o apoio norte-americano. E também que o país ainda tem capacidade de surpreender a Rússia, numa altura em que as forças de Moscovo vão fazendo lentos avanços no leste do território ucraniano e se preparam para uma nova ofensiva no verão.

Nas contas das redes sociais ligadas à Ucrânia, celebra-se a façanha militar — uma das mais sofisticadas de sempre. Pelo meio, enviam-se recados a Donald Trump. O Presidente norte-americano acredita que Kiev está numa posição desfavorável e que os ucranianos devem ceder perante a Rússia, considerada uma potência nuclear. O chefe de Estado tem repetido o argumento de que a Ucrânia “não tem cartas”, como o fez no encontro com Zelensky na Casa Branca — e que, por isso, deve resignar-se às exigências de Moscovo.

Neste sentido, o Centro para a Comunidade Estratégica e Segurança Informativa da Ucrânia, que pertence às secretas ucranianas, publicou um vídeo que termina com a seguinte frase: “Nós ainda temos algumas cartas na manga”. A operação militar “teia da aranha” obteve um êxito retumbante desta vez, mas a Rússia vai certamente fortalecer-se — e tentar evitar uma nova humilhação.

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