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Carolina e Lourenço vão entrar no 11.º ano já em setembro. A jovem de Alenquer diz que a sua paixão é a Astrofísica, enquanto o filho de uma investigadora na área da Química admite ter uma preferência pela física mais teórica. Maxime e João, amigos e colegas de escola numa secundária no Barreiro, querem seguir Engenharia Informática já no próximo ano. Durante a última semana, estes quatro jovens estiveram, em simultâneo e a escassos metros de distância, a trabalhar em dois projetos de investigação distintos na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL).
São grupos de “sete ou oito” cientistas em potência, repartidos por 17 projetos. O programa “Ser Cientista” reuniu nesta última edição 75 participantes de todo o país e já recebeu quase 600 desde 2014. O objetivo é dar oportunidade aos jovens portugueses que frequentam o Ensino Secundário de “contactar, de forma direta, com a prática científica e com investigadores ativos em diversas áreas do conhecimento”. Assim, entre os dias 21 e 25 de julho, os vários estudantes do 10.º, 11.º e 12.º ano procuraram este programa para aprofundarem os seus interesses em determinadas áreas e, em alguns casos, tentar ter uma ideia do curso que vão querer seguir quando entraram para o Ensino Superior.
Na hora de submeter a candidatura para o “Ser Cientista“, os jovens tiveram de colocar por ordem de preferência os projetos em que queriam participar. Ao longo da semana, cada aluno é alocado a apenas um destes trabalhos, onde depois aprendem as mais variadas técnicas envolventes e falam com investigadores diretamente através de workshops e até uma sessão de “Speed Dating“. No último dia, no “Congresso”, os grupos fazem uma apresentação sobre o tema que estiveram a desenvolver.
João vê o programa como um autêntico “estágio de investigação“. Os dois estudantes do Barreiro integravam a equipa do projeto n.º 3 — “Como funciona o carregamento das baterias?” — e conversaram com o Observador numa pausa da preparação para a apresentação que teriam de fazer no dia seguinte frente a uma plateia de quase 100 pessoas no edifício C6 da FCUL. Ambos relataram uma experiência “muito boa” que transcendeu qualquer expectativa, apesar de não estar exatamente relacionada com a área que desejam seguir na Universidade.
Na mesma sala onde exploravam todas as potencialidades das baterias tradicionais, um outro grupo — igualmente composto por sete jovens — construía um carro movido unicamente pela energia solar. Naquela oficina que estavam Carolina e Lourenço, juntamente com o resto da sua equipa, a dar os últimos toques na construção que tinha começado oficialmente na manhã de quinta-feira, e que desejavam ter concluída até ao final do dia, de modo a fazer uma “entrada em grande” no auditório que viria a receber “Congresso Ser Cientista”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Vestir a bata de investigador, o “Speed Dating” e a antevisão da vida universitária
Enquanto futuros candidatos a entrar numa área no mundo das engenharias, e sentindo uma grande atração pela investigação, os quatro jovens que conversaram com o Observador tiveram a oportunidade de falar também com professores, alunos e investigadores ao longo da semana. No “Speed Dating com cientistas”, no segundo dia de atividades, Carolina recorda uma conversa que teve com um dos investigadores presentes, pertencente ao Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Perguntámos o que investigavam e o que faziam exatamente, e lembro-me de que [um deles] respondeu que solucionavam enigmas e puzzles”, conta a jovem estudante.
As perguntas eram muitas, em pouco tempo disponível. Para João e Maxime, a abordagem foi diferente: perceber concretamente como era o dia-a-dia de um investigador. “Quisemos saber o que é que fazia todos os dias, como funcionava o seu trabalho — o conceito de ter um projeto para fazer até uma certa data, poder gerir o seu próprio tempo, ir ou não para a universidade trabalhar. Essa foi das partes mais importantes do “Speed Dating“, responder a esta pergunta”, confessam. Como a procura excedia a oferta de especialistas no evento, os dois jovens admitem que, com algumas perguntas ainda por responder, ficaram à espera de que as filas vazassem para pedir mais informações.
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Lourenço, com uma profissional do setor na mesma casa, admite que não estava tão interessado em perceber o quotidiano de um investigador, mas sim os trabalhos que estavam a realizar. “Toda a minha vida experienciei a vida de investigador. A minha mãe é investigadora aqui na faculdade, então conheço as dificuldades que existem em ser investigador em Portugal”, continua o estudante que passou agora para o 11.º ano. Ciente dos procedimentos para se poder avançar com projetos de investigação no nosso país — “É preciso ganhar concursos para depois ter investimentos” —, Lourenço assume que neste momento, esta é a carreira que pretende seguir. Este sentimento é algo que é partilhado por todos os jovens consultados, apesar de não terem ainda “ideias concretas” sobre o que envolve a carreira de investigação científica em Portugal.
“A minha expectativa era de que nos mostrassem o que é a faculdade e, nesse sentido, a experiência encaixa bem naquilo de que eu estava à espera. Está a mostrar-nos muito bem o tipo de trabalho que os investigadores e os alunos fazem”, continua João, admitindo que a experiência está a conseguir transmitir “uma boa ideia daquilo que vão viver no futuro”. Sobre a vida académica, os colegas do Barreiro mencionam um outro programa, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, onde tiveram a oportunidade de aprofundar a vivência enquanto alunos na licenciatura de Engenharia Física. “Não era um projeto específico, era explorar um curso“, explicam.
O plano para estes dois jovens é o mesmo: fazer uma licenciatura em Engenharia Informática e depois um mestrado na mesma área. Flutua ainda a ideia de seguir para um doutoramento, mas entendem que pode ainda ser muito cedo para decidir. Para Carolina, “tudo na astronomia é bastante interessante” e, então, depois de uma licenciatura em Física, a ideia é expandir o conhecimento no grau de mestrado para a Astrofísica — uma ideia alimentada também por uma conversa com um investigador durante o “Speed Dating“.
Já Lourenço, apesar da proximidade da mãe e da irmã à área da Química e da Biologia, não seguiu o exemplo da família, admitindo um “bichinho” pela Física. “Por enquanto, para mim é um sonho, mas quero entender o que significam estas equações complexas que utilizam na Física teórica para explicar como o mundo funciona“, confessa.
João, Maxime, Lourenço e Carolina, com backgrounds completamente diferentes, têm o objetivo de permanecer em Portugal, apesar de muito se falar sobre a falta de oportunidade de projetos de investigação no país. Admitem a possibilidade de, eventualmente, avançarem para um doutoramento no estrangeiro e explorar a mobilidade facilitada pelos meios académicos, mas asseguram que o plano definitivo passa sempre por tentar fazê-lo funcionar em Portugal.
A “missão” de divulgação de Ciência, a quebra da “torre de marfim” e o carro de corrida
Enquanto uns circulam nos corredores vazios do primeiro piso do C1, sentados no modelo que serviu de inspiração para o carro solar, outros têm a mão na massa. Ao mesmo tempo que davam os últimos retoques no seu projeto, depois de dias intensos a aprender a soldar e a modelar em três dimensões, os jovens confessam ao Observador que estavam “um pouco ansiosos” em participar neste projeto — um dos mais requisitados desde que entrou no cardápio do “Ser Cientista”.
A razão para esta ânsia é precisamente porque é o único dos 17 projetos que não é liderado por um professor ou investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), mas sim por estudantes. Mário Daniel Vilas concluiu este ano a licenciatura, é o presidente da Oficina das Energias — o Núcleo de Estudantes de Engenharia da Energia e Ambiente — e é também quem dirige os trabalhos de construção deste triciclo equipado com painéis solares.
O projeto começou há mais de uma década na FCUL, mas esteve “abandonado” durante os últimos anos, até o grupo de estudantes ter sacudido o pó ao engenho e colocado as suas rodas na pista. Mário e a comitiva da Oficina das Energias participaram nas últimas edições da Grande Corrida de Carros Movidos a Energia Solar, uma competição nacional dedicada a estes carros construídos de raiz nas diferentes universidades, que consiste em ver qual deles consegue completar o maior número de voltas num determinado tempo.
Sendo um autêntico íman nas convenções como a Futurália ou noutras iniciativas de divulgação científica, Mário Daniel Vilas confessa ao Observador que decidiram propor à faculdade a inclusão deste projeto no programa “Ser Cientista”. “É um projeto mais prático e dinâmico“, onde os jovens aprendem as diferentes técnicas usadas para montar um carro solar. Aprendem a soldar — algo que não é feito no âmbito da licenciatura em Engenharia da Energia e do Ambiente, mas que a Oficina das Energias promove através de múltiplos workshops ao longo do ano — e a trabalhar com arduino, para no final da semana terem as “ferramentas” reunidas para o exercício de montagem.
Apesar de agora estarem exclusivamente dedicados a ensinar as novas técnicas a este grupo de sete jovens, o trabalho não se limita a uma semana no Verão. Entre pequenos cursos e muitas iniciativas, o estudante que vai iniciar no próximo ano letivo a segunda etapa da sua vida académica — o mestrado — revela que as iniciativas partem de “um gosto de estar com os miúdos e de comunicar a Ciência“. Foi precisamente por sentir algumas lacunas na divulgação da sua própria licenciatura que o grupo de alunos da Oficina das Energias se esforça a “tapar buracos” e a fazer com que a geração mais nova tenha conhecimento das várias valências que vêm com o curso.
Com todos estes projetos em horário extra-curricular, Mário nota que a própria faculdade já começou a quebrar a sua “torre de marfim” e, assim, conseguem “mostrar que a Ciência é para todos”. Esta ideia é também apoiada por Killian Lobato, o professor que está ao leme do projeto das baterias na mesma sala e esteve na origem do projeto dos carros solares “há mais de 10 anos” — agora que os alunos “já estão mais maduros, podem tomar conta” do projeto, admite. O investigador e professor da FCUL, apesar de ser um estreante no “Ser Cientista”, recorda o seu envolvimento em iniciativas anuais como a “Noite dos Investigadores” e a “Escola de Verão de Energia”, ambas oportunidades para jovens estudantes de todas as idades terem uma experiência mais íntima nestas áreas da investigação e um contacto mais próximo com os profissionais do setor.
Killian Lobato acredita que os alunos têm um papel muito importante na divulgação científica e destaca o envolvimento da Oficina das Energias e dos “seus” voluntários que ajudam na execução das atividades sobre baterias. Apesar de se sentir “ansioso” no início, Lourenço, que integrava o plantel de estudantes do Ensino Secundário no projeto dos carros solares, admite que ao conhecer o trabalho do grupo de alunos da FCUL ficou “mais motivado para pertencer a este tipo de grupos” quando chegar ao Ensino Superior.
A dissecação de baterias, o limão e a importância de “sentir e ver a investigação”
De um lado, o projeto da Oficina das Energias transformava a sala numa autêntica oficina mecânica, enquanto as restantes bancadas — e o quadro branco — estavam reservados pelo projeto de Killian Lobato. “A atividade final é eles agora criarem o seu próprio carregador de baterias, utilizando painéis solares como fonte de energia“, afirma o investigador, que refere as múltiplas atividades realizadas pelo grupo ao longo da semana, que culminam no desenvolvimento do protótipo que seria apresentado no congresso final.
“A ideia aqui é eles aprenderem um pouco sobre o que é uma bateria e o que é preciso para carregar a bateria“, explica o professor responsável pelo projeto. De segunda a quarta-feira, nos espaços do calendário dedicados ao “Desenvolvimento do Projeto Científico”, o objetivo foi mostrar os vários equipamentos utilizados neste meio, “desde equipamento laboratório de ponta, que pode ser utilizado para carregar e caracterizar baterias — até um carregador que eles próprios podem comprar e ter em casa para carregar o telemóvel, por exemplo”.
Conta, também, uma das atividades “icebreaker” que desenhou para o início da semana: “Utilizámos um limão para fazer uma lâmpada acender“. Deste modo, os jovens puderam ter uma ideia das potencialidades desta área de investigação, a Energia. Quando o Observador entrou na sala onde se encontravam a treinar a apresentação de sexta-feira, os jovens utilizavam o quadro branco para explicar os procedimentos técnicos — e também a parte mais teórica — que executaram para fazer o projeto acontecer. “Com esta atividade, eles perceberam as necessidades da bateria para carregar: a voltagem, a corrente, a potência e, de uma forma geral, as características que uma bateria tem quando está a carregar e a descarregar”, continua Killian.
“Espero que, quando foram para casa ou quando forem comprar uma bateria recarregável, saibam olhar para ela e perceber o que é que os números todos querem dizer”. A ideia, na prática, é esta, admite o investigador e professor. Mas o objetivo do projeto não se rege apenas pelo tema em si, até porque, confessa, nem todos têm a vontade de seguir o seu percurso académico na área da Energia. “Eles têm backgrounds e interesses variados, uns querem ir para Engenharia Mecânica, outros para Informática — e até uma que quer ir para Biologia”, admite Killian Lobato, referindo que, de uma forma geral, o seu grupo de sete alunos tem dado o feedback de que o projeto “superou as suas expectativas”.
Regressando ao tempo em que era Killian no papel dos jovens, o agora professor que frequentou a Universidade de Bath, no Reino Unido, refere que “sentia-se e via-se a investigação“, ao contrário do que acontecia em Portugal. “Havia a capacidade de ir a seminários”, acrescenta, apontando para a diferença da carga horária nestas duas realidades distintas. Nota, também, a regularidade com que as escolas secundárias levavam os seus estudantes a visitar as universidades, recordando ter de preparar — já no Doutoramento — uma apresentação semanal para fazer aos jovens britânicos que aspiravam vir a seguir uma carreira na área.
“Visitavam diferentes secções do departamento e havia docentes e alunos que tinham uma pequena bancada para fazer uma curta demonstração de cinco minutos. Todas as semanas recebiam alunos, porque os alunos queriam tirar dúvidas ou ficar a conhecer os trabalhos”, continua o investigador, fazendo a ponte para o que acontece em Portugal. “Cá, os eventos são pontuais. Os pedidos para participar [nestes eventos] são um pouco em cima da hora“, refere. Desta forma, volta a sublinhar que esta “renovação de pessoal” — “natural ao longo do tempo” — é essencial para se produzirem novos projetos e iniciativas, reforçando o caso da Oficina das Energias.
Numa mensagem mais direcionada aos estudantes que aproveitam estas (escassas) iniciativas, Killian Lobato desabafa que gostaria de que “os alunos tomassem estes projetos como uma oportunidade de explorar uma tema de que gostem, aprenderem mais e depois, ver o que acontece“. Fazendo um balanço daquilo que tem vindo a verificar na sua experiência enquanto docente, acredita que “muitas vezes”, os jovens são “pressionados a pensar em saídas profissionais”, enquanto acredita que o papel da Universidade deve ser “dar conhecimento a pessoas”.
“Acho que aqui não podemos pensar que estamos a formar cientistas ou engenheiros. Temos que pensar que estamos a dar conhecimento a pessoas, depois podem ligar não só naquilo que aprendem mas na forma de aprenderem também. Dar-lhes ferramentas para poderem aprender para depois ser útil na sociedade”.