Introdução
Os casais até podem ter uma música, aquela que estava a tocar quando se conheceram, a que descobriram que os unia à maneira da tese do Carlos Tê e do seu amigo Nicolau da viola, a que acompanhou a entrada da noiva ou abriu o baile. As pessoas não. Pessoas, individuais, é mais difícil. Até podem ter um filme, um livre preferido, com certeza uma banda preferida, mas uma música? Uma só? Há tanta música e tantos estados de alma e cada canção, tipicamente, só vai bem com um (tem, literalmente, um “tom”).
Até que vieram os Queen e resolveram-nos isso: criaram uma canção com várias canções lá dentro. Melhor: com vários géneros musicais, muitos estados de alma, séculos de música e cultura compactados. Inadjetivável, como se diria na Cinemateca. E com isso, uma das mais fortes candidatas a melhor canção de sempre, para muita gente. Foi há 50 anos, num dia das bruxas, de Londres para o mundo.
Balada
Bohemian Rhapsody — que esteve para se chamar Mongolian Rhapsody — são, na verdade, palavras nunca ditas ao longo da canção, questão, desde logo, não única, mas certamente rara nas regras da pop (além do pormenor, eventualmente acidental, de serem também o título de um álbum de 1962 de música clássica de Bedřich Smetana e Antonín Dvořák). Chamar-lhe “canção” roça, porém, o redutor. É todo um teatro em 5 minutos e 55 segundos. Um palco com personagens, figurinos e atos, pano que sobe e desce, entradas estrondosas em cena e saídas melodramáticas. Era o single de avanço para o quarto álbum dos Queen, A Night at the Opera (a partir do nome de um filme dos irmãos Marx), e esteve tão perto de não acontecer.
Que rádio iria passar um single de quase seis minutos, ainda por cima, sem refrão, uma parte que as pessoas pudessem reconhecer e cantar? Seis minutos davam para passar quase duas canções inteiras de valores completamente seguros, um Elton John ou uns Rolling Stones. Não haveria ao menos um “radio edit”, uma versão mais curta? Mas a banda, então apenas em ascensão (ainda não eram os Queen, possivelmente a maior banda do seu tempo. Isso só aconteceria, precisamente, com Bohemian Rhapsody), recusou sempre. Tentar reduzir esta canção seria sempre amputá-la duma parte única. Ou ia assim, inteira, ou não ia.
Nos Queen, conta Brian May, as coisas aconteciam muito em estúdio, em conjunto, num processo criativo colaborativo, mas Bohemian Rhapsody, quando chegou, já “existia na cabeça de Freddie”. Amigos do vocalista contam que já o ouviam tocar partes dela ao piano desde os anos 60, quando lhe chamava The Cowboy Song, o que pode ajudar a fazer alguma luz sobre a balada inicial, o drama do rapaz que matou um homem e agora vem despedir-se da mãe, antes de fugir. Mas Mercury nunca quis especialmente fazer luz sobre o significado do tema. Ainda assim, sabemos que pretendia que fosse uma “mock opera”, uma ópera “a brincar”, auto-irónica com o próprio género e, portanto, também com a própria pop. Que era a junção de três canções que já tinha e que a letra não significava nada em particular, um conjunto de rimas sem especial sentido. Mas então, como perguntavam os autores do livro 1000 UK Number One Hits, como é que uma canção sem sentido foi significar tanto para tanta gente?
Solo
Foi no verão em que Jaws semeou o pânico pelas salas de cinema de todo o mundo. O Verão Quente em Portugal, em que o PREC ameaçava deixar o país à beira da guerra civil. O verão em que Eusébio deixou o Benfica depois dos 15 melhores anos da sua história e rumou aos Estados Unidos da América para vestir a camisola dos Boston Minutemen. O ano em que uma mulher chamada Margaret Thatcher subiu à liderança do Partido Conservador inglês. Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon foram para estúdio em final de agosto e só saíram definitivamente três semanas e alguns estúdios depois.
Sim, Bohemian Rhapsody era tão complicada de gravar como parece. Segundo o produtor Roy Thomas Baker, falecido em abril deste ano, foi a loucura total, mas uma em que não paravam de rir de cada vez que acrescentavam mais uma parte. Sentado ao mesmo piano C. Bechstein em que Paul McCartney terá gravado Hey Jude, Freddie Mercury conduzia as operações, acrescentava mais um “Galileo”, mais uma ideia. Limitados pela tecnologia de então aos gravadores de 24 pistas, foram necessárias muitas misturas, muito corta-e-cola, muitos overdubs, diferentes sítios e diferentes equipamentos para gravar diferentes secções, mas, no fim, estava feita a obra (tão complexa que, na verdade, nunca a conseguiriam tocar ao vivo na íntegra, com a parte da ópera a ter de ser sempre assegurada por um playback – assumido).
Ópera
Lançada em single a 31 de outubro de 1975, levando no lado B I’m in Love with My Car, depressa faria desaparecer os receios da EMI: chega a número um do top de vendas do Reino Unido e por lá fica durante nove semanas, coisa que não se (ou)via desde o Diana de Paul Anka, 18 longos anos antes. Por lá passa o Natal, vende um milhão de cópias naqueles dois breves derradeiros meses de ‘75 e só é destronada já no ano novo, curiosamente por Mamma Mia, dos Abba (bem que Mercury canta “Oh, mamma mia, let me go”. E ela, pelos vistos, deixou). Com o tempo, tornar-se-ia na única canção de sempre a passar dois Natais na liderança do top britânico, quando, depois da morte de Mercury em novembro de 1991, regressasse ao topo das vendas e por lá ficasse mais cinco semanas, num total de 14, só igualado ou ultrapassado por cinco outras canções ao longo da história: I Believe, de Frankie Laine, 18 semanas em 1953, (Everything I Do) I Do It For You, de Bryan Adams, 16 semanas em 1991, Love is All Around, dos Wet Wet Wet, 15 semanas em 1994, One Dance, de Drake, 15 semana sem 2016, e Shape of You, de Ed Sheeran, em 2017.
Teve nova vida em 1992, quando Mike Myers insistiu em levá-la para dentro de Wayne’s World e transformá-la no momento mais memorável do filme, transplantando-a diretamente para a geração MTV enquanto, com Dana Carvey e os amigos, a curtiam ao ritmo do headbanging típico dos metaleiros de fim de século:
E ainda outra quando, em 2018, deu nome ao filme de Bryan Singer, protagonizado por Rami Malek, que ganharia quatro óscares e se tornaria o biopic musical mais rentável de sempre: qualquer coisa como mil milhões de dólares em receitas de bilheteira globais (e já agora, em que, numa boa piscadela de olho à história, Mike Myers encarna o executivo da EMI que fica chocado com a duração da faixa e garante que jamais os miúdos sacudirão a cabeça ao som daquilo):
Um número incontável de artistas aventurou-se a tocá-la e reinterpretá-la ao longo de meio século, incluindo os Marretas, cuja versão de 2009 conta até hoje com o modesto número de 192 milhões de views no YouTube:
Bohemian Rhapsody é hoje o terceiro single mais vendido da história do Reino Unido, só batido pela versão de Candle in the Wind lançada por Elton John depois da morte da princesa Diana, e Do They Know it’s Christmas, do projeto solidário Band Aid. Mas muito mais do que isso: é a canção do século XX mais ouvida de sempre nas plataformas de streaming (quase 3 mil milhões de audições só no Spotify) e o mais antigo videoclip a ultrapassar o milhar de milhão de visualizações no YouTube (hoje, à beira dos dois mil milhões). Em 2012, os leitores da Rolling Stone elegeram-na como a melhor performance vocal da história do rock – e há vídeos de Kanye West nessa admirável internet a provar isso mesmo.
Quer isto dizer que, ultrapassados os receios da EMI, Bohemian Rhapsody foi um caso de aclamação instantânea? Oh, não. Nada disso. Não se esqueça dos críticos. Já havia críticos em 1975.
Mesmo que, anos mais tarde, percebendo para que lado tinham soprado os ventos (viram o que fizemos aqui?), alguns destes mesmos títulos a colocassem nas suas listas de músicas mais isto ou aquilo de sempre, a verdade é que, à época, a imprensa especializada reagiu com indiferença ou mesmo algum desdém a uma música em que o mínimo que se poderia esperar seria que fosse recebida como um ovni. A Time despachou-a como “uma faixa de seis minutos que mistura introspeção e uma opereta à Gilbert & Sullivan” (autores de óperas cómicas); “infelizmente, as letras dos Queen não são da massa de que se fazem os sonetos”. A Melody Maker chamava-lhe “pastiche incongruente”, “menos que a soma das partes”, reconhecendo que era, ainda assim, “diabolicamente inteligente”. Quanto à crítica da Rolling Stone ao álbum, nem sequer referia Bohemian Rhapsody, preferindo concentrando-se em The Prophet’s Song. A Rhapsody valeria aos Queen, ainda assim, as primeiras nomeações aos Grammy: duas, nenhuma para melhor canção do ano, ambas perdidas. O que é que isto significa? Que o que é para sempre nunca é para agora. E que os críticos são pessoas muito, muito aborrecidas (é um crítico em desintoxicação que vo-lo diz).
Hard rock
Mas o que faz, afinal, deste tema tão extraordinário? Bohemian Rhapsody não é, de todo, alheio à época em que surge. É, apesar de tudo, catalogável sob a etiqueta do rock progressivo, aquele estilo em que algumas super-bandas do tempo se entretinham a mostrar tudo o que sabiam fazer com o seu virtuosismo e a tecnologia permitisse. O primeiro traço que o distingue totalmente desse contexto é a ópera: a ninguém até então, dos Genesis aos Pink Floyd, dos Yes aos Jethro Tull, tinha passado pela cabeça enxertar ópera no meio de solos de guitarra e sintetizadores do Espaço.
Na verdade, as tais três canções que Freddie Mercury terá, hipoteticamente, costurado numa só, funcionam, na prática, como andamentos numa sinfonia, a que não faltam mais alguns elementos clássicos.
▲ O que os Queen fizeram foi uma canção com vários géneros musicais, muitos estados de alma, séculos de música e cultura compactados. Inadjetivável, como se diria na Cinemateca
Redferns
Tudo começa, literalmente, na introdução: “Is this the real life? Is this just fantasy?” Bohemian Rhapsody não é bem como outra canção qualquer que se ouve e/ou cantarola; também não é só, exatamente, uma canção que se “sente”. O seu impacto não é estritamente cerebral nem físico. Há algo de alucinatório nela, de hipnótico, da ordem do sortilégio. É encantatória, como que nos tenta enfeitiçar desde esses primeiros sons e palavras, para transportar para um estado vagamente alterado de consciência. É uma canção que – sai o vocabulário técnico – dá moca.
Segue-se, dos 49 segundos aos 2 minutos e 37, a poderosa balada ao piano, “Mama, just killed a man…”, que, isoladamente, por si só, já seria uma canção incrível. Entra o solo de Brian May, até aos 3 minutos e cinco, levando-nos ao cimo da montanha para, depois, nos deixar cair, vertiginosamente, na parte da ópera, eventualmente, a mais incompreensível para a maioria dos ouvintes.
Entra Scaramouche (figura clownesca da commedia dell’arte a Galileo Galilei, Figaro, Belzebu e Bismillah, árabe para “em nome de Deus”), que funciona como uma espécie de descida aos infernos, onde os deuses ou demónios discutem se devem ou não condenar o rapaz da primeira parte. Aos 4 minutos e 7, nova transição inesperada e, ao mesmo tempo, inesperadamente perfeita para a secção hard rock: “So you think you can stone me and spit in my eye? / So you think you can love me and leave me to die?”, uma espécie de comeback, ressurreição, resposta do herói (?): “just gotta get right outta here”. Finalmente, aos 4 e 54, a sexta e última parte: uma conclusão à maneira clássica, retomando o tema da balada inicial, para a fazer descer, planando, até à terra, melancólica, resignada, relativista, niilista: “Nothing really matters / Nothing really matters to me / Any way the wind blows”.
Coda
Mas outra coisa separa a Rhapsody do restante panorama prog rock / rock sinfónico / art pop do seu tempo, uma coisa muito importante: o humor. Ao contrário da grandiosidade quantas vezes balofa, exibicionista, entretida consigo mesma, de muita música da época, a ópera rock dos Queen era – é – um exercício espantoso de auto-ironia, tão ambicioso na construção como audaz na desconstrução. É virtuosismo, sem dúvida, mas não se compraz na espiral auto-satisfatória por onde outros se perderam. É espectáculo, laboratório com porta aberta, feito para comover e divertir. Uma paródia, um delírio, ainda assim mostrando que sabe ser emocionalmente arrepiante sempre que quiser. Um condensado de séculos de música e cultura ocidental (e não só). Uma tragicomédia, como – olha o cliché baratinho, mas inevitável – a vida. Uma piada muito bem-sucedida e comovente. A cápsula que poderíamos enviar para o espaço se só tivéssemos seis minutos para dizer a um E.T. o que é a música. Como teria sido ouvida na Roma Antiga ou nos salões setecentistas de Viena? Como teria expandido ou explodido a cabeça dos que a ouvissem?
Bohemian Rhapsody faz 50 anos e, por isso, Brian May (78) e Roger Taylor (76) voltaram a tocá-la ao vivo, há pouco mais de um mês, com a Orquestra Sinfónica e Coro da BBC para o “Last Night of the Proms”. Foi o auge criativo e o elogio da liberdade de uma banda e de um tempo. O corolário do prog rock e também o seu epitáfio, mesmo antes de, no ano seguinte, surgir o punk e chutar tudo isto para fora de moda ao pontapé. Lembra-nos, ao mesmo tempo e por mais estranho que pareça, que nada é para sempre – exceto o eterno.
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