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MARIO CRUZ/LUSA

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Universidade de Coimbra e a carne de vaca. Qual é o real impacto no ambiente? /premium

A Universidade de Coimbra vai deixar de servir carne de vaca nas cantinas, poupando a atmosfera a toneladas de gases poluentes. Como podemos avaliar o impacto desta indústria no ambiente?

Faz parte de um plano para reduzir o peso dos gases de estufa na pegada ecológica da Universidade de Coimbra em mais de duas mil toneladas, mas foi, de longe, a medida que mais polémica criou. Depois de o reitor, Amílcar Falcão, ter anunciado que, a partir de janeiro de 2020, não vai ser servida carne de vaca nas cantinas universitárias, multiplicaram-se as reações — de apoio por parte do PAN, por exemplo, ou de “perplexidade” por parte dos agricultores.

A abolição da carne de vaca das cantinas universitárias de Coimbra integra-se numa estratégia comum às várias instituições de ensino superior portuguesas, de transformarem os seus campi em estruturas carbonicamente neutras até 2030, o chamado “ponto de não retorno” para o planeta. Mas qual é, afinal, o verdadeiro impacto ambiental da carne de vaca? Como vai Coimbra contribuir com esta medida para o combate às alterações climáticas? E que questões levanta a decisão a nível nutricional?

Especialistas ouvidos pelo Observador dizem que a carne de vaca pode não fazer falta à dieta diária — mas alertam que esta abolição não pode abrir a porta à abolição de todos os produtos de origem animal. Além disso, o problema também está na forma massificada como as vacas passaram a ser produzidas. Até porque, criadas de forma natural, sem recurso a pastagens intensivas e em muito menor número, as vacas têm inclusivamente um papel relevante nos ecossistemas onde vivem.

Uma refeição, oito quilos de gases poluentes

Do ponto de vista ambiental, há poucas dúvidas sobre o impacto profundamente negativo da produção alimentar, e, em especial, da produção de carne de vaca. Este impacto materializa-se sobretudo nas emissões de gases de efeito de estufa, mas também na destruição dos solos e na poluição dos cursos de água (e, por conseguinte, dos oceanos).

A Universidade de Coimbra deixará de ter carne de vaca nas suas cantinas

PAULO NOVAIS/LUSA

No mundo ocidental, a agricultura é responsável por cerca de 10% de todas as emissões de gases de efeito de estufa — e, dentro da agricultura, a criação de gado representa cerca de um terço dessas emissões. No total mundial, cerca de um quarto das emissões de gases de efeito de estufa tem origem na produção alimentar.

Por exemplo, na Europa, onde, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente, se come hoje mais do dobro da carne por pessoa do que há 50 anos (embora esteja a aumentar-se o consumo de carnes de aves e a reduzir-se o consumo de carnes vermelhas), a agricultura foi responsável por 10% das emissões totais de gases com efeito de estufa em 2012.

Ainda assim, tem havido melhorias a nível europeu. “A diminuição significativa do número de animais, a aplicação mais eficiente dos adubos e a melhor gestão do estrume reduziram em 24 % as emissões do sector agrícola da UE entre 1990 e 2012”, segundo a mesma agência.

"O gado, especialmente o gado ruminante, produzem metano como parte do seu processo digestivo normal. Este processo é chamado fermentação entérica e representa quase um terço das emissões do setor económico da agricultura"
Agência norte-americana para a proteção ambiental

Um cenário semelhante verifica-se nos Estados Unidos, onde, segundo a agência norte-americana para a proteção ambiental, a agricultura representa 9% do total de emissões de gases de efeito de estufa. “O gado, especialmente o gado ruminante, produz metano como parte do seu processo digestivo normal. Este processo é chamado fermentação entérica e representa quase um terço das emissões do setor económico da agricultura”, detalha aquele organismo governamental.

Um estudo publicado em fevereiro deste ano na revista científica britânica The Lancet alerta para os elevados impactos ambientais da produção alimentar a nível mundial e detalha que os gases libertados na produção de gado são ainda mais perigosos do que o dióxido de carbono.

“A produção de alimentos é uma fonte primordial de metano e de óxido nitroso, que têm um potencial (ao longo de 20 anos) de aquecimento global 56 e 280 vezes superior ao dióxido de carbono. O metano é produzido durante a digestão do gado ruminante, como as vacas e as ovelhas, ou durante a decomposição anaeróbica de material orgânico em arrozais inundados”, lê-se no estudo.

A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação dá outro dado significativo: as 20 maiores empresas de produção de carne e lacticínios a nível mundial emitem, juntas, uma quantidade de gases de efeito de estufa maior do que a emitida, globalmente, por países como a Alemanha, o Reino Unido ou a França.

Um matadouro na Amazónia brasileira (Ricardo Funari/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images)

LightRocket via Getty Images

Mas vamos a números concretos, que ajudam a perceber melhor esta realidade. De acordo com a calculadora ambiental alimentar da BBC, consumir uma ou duas refeições de carne de vaca por semana traduz-se na emissão de 604 kg de gases de efeito de estufa para a atmosfera num ano. Isto equivale ao impacto ambiental de uma viagem de perto de 2.500 quilómetros num carro a combustível. Além disso, para produzir essas refeições é necessário utilizar cerca de 1.700 metros quadrados de terreno para criar os animais.

A carne de vaca é dos alimentos mais poluidores quando se olha à pegada ecológica associada à sua produção. Ainda segundo a mesma calculadora da BBC, cada refeição de carne de vaca (considerando a quantidade média de 75 gramas de carne por refeição) é responsável pela emissão de oito quilogramas de gases de efeito de estufa para a atmosfera — quatro vezes mais que as emissões associadas a uma refeição de carne de porco ou de frango.

Feitas as contas, no caso da Universidade de Coimbra, em cujas cantinas são consumidas atualmente cerca de 20 toneladas de carne de vaca, esta abolição significa que a instituição deixará de contribuir para a emissão de cerca de 2.133 toneladas de gases de efeito de estufa por ano.

A produção de carne de vaca em massa tem um profundo impacto no ambiente também ao nível da ocupação e destruição de terrenos. Só na Amazónia, de acordo com uma investigação conjunta do The Guardian, do Repórter Brasil e do The Bureau of Investigative Journalism, todos os anos são desflorestados cerca de 5.800 quilómetros quadrados para serem convertidos em pasto para vacas — e a União Europeia não fica de fora, importando todos os anos 600 milhões de dólares de carne de vaca proveniente do Brasil.

A Universidade de Coimbra deixará de contribuir para a emissão de cerca de 2.133 toneladas de gases de efeito de estufa por ano.

Além disso, a quantidade de terreno necessária para produzir alimento para as vacas é muito superior à que é precisa para cultivar alimentos para consumo humano, estimando-se que sejam necessários 7 kg de cereais para produzir 1 kg de carne de vaca.

A este impacto junta-se ainda a poluição dos cursos de água associada à produção de gado e à agricultura intensiva, que contribuem para a poluição dos oceanos e para a criação das chamadas “zonas mortas” — um conjunto de regiões dos oceanos onde a concentração de oxigénio é tão reduzida que não é possível a nenhuma espécie marinha sobreviver.

Faz sentido uma dieta sem carne de vaca?

É certo, porém, que a carne de vaca faz parte da alimentação humana há séculos. Criadas de forma natural, sem recurso a pastagens intensivas e em muito menor número, as vacas têm inclusivamente um papel relevante nos ecossistemas onde vivem. A possibilidade, trazida pelas novas tecnologias, de criar gado em enormes quantidades veio reduzir os custos daquela carne e aumentar exponencialmente o seu consumo entre os humanos, aumentando, consequentemente, o impacto ambiental desta indústria — que é hoje um dos principais contribuidores para a poluição atmosférica.

Isto significa que a solução passa por deixar de comer carne de vaca? É aqui que as posições divergem, com as associações ambientalistas a advogarem a adoção de uma dieta vegetariana ou vegana como solução, e outros setores a sublinharem apenas a necessidade de moderar o consumo de carnes vermelhas e de adotar métodos de produção de gado menos intensivos e poluentes.

O que é certo, de acordo com nutricionistas ouvidos pelo Observador, é que esta medida tomada pela Universidade de Coimbra tem um impacto nulo na qualidade da alimentação de quem frequenta as 14 cantinas da mais antiga universidade portuguesa. “Não existe nenhum problema que possa advir da substituição da carne de vaca, que se pode substituir por muitas outras coisas, como o porco, o cabrito, o frango, o peru ou o pato. Não justifica nenhum tipo de preocupação com a alimentação dos estudantes da Universidade de Coimbra que vão ser abrangidos por esta medida”, explica Nuno Borges, professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.

“Não me preocupa nada se me disserem para reduzir ou retirar a carne de vaca. Mas se me disserem que é a porta de entrada para retirar todos os produtos de origem animal, isso preocupa-me”
Nuno Borges, professor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Aliás, segundo Nuno Borges, a redução do consumo de carne de vaca é positiva no contexto português. “Em Portugal, consome-se uma quantidade excessiva de carne vermelha, de vaca e também de porco”, assegura, destacando que o consumo em Portugal “vai para lá daquilo que seria o mais saudável” e que existe “um aumento do risco de cancro colorretal com o aumento do consumo de carnes vermelhas”.

No entanto, para o especialista, é importante dar atenção à “justificação dada para adotar a medida” e ter cuidado com as portas que uma decisão destas pode abrir. “É preciso perceber bem qual é o real impacto da produção de carne de vaca nesta tal catástrofe ambiental anunciada. Não temos ainda uma coisa globalmente satisfatória quanto a isso”, diz Nuno Borges, considerando “ligeiro” fazer uma associação direta entre o consumo de carne de vaca e as alterações climáticas.

Dando como o exemplo a roda dos alimentos habitualmente considerada em Portugal e na dieta mediterrânica, que tem “pouca carne, algum peixe, ovos e queijo”, Nuno Borges diz que é preciso não entrar numa “deriva” de vegetarianismo que pode trazer “riscos”.

“Não me preocupa nada se me disserem para reduzir ou retirar a carne de vaca. Mas se me disserem que é a porta de entrada para retirar todos os produtos de origem animal, isso preocupa-me”, afirma o especialista, considerando mesmo que defender a retirada de toda a carne, do peixe e dos ovos da alimentação humana significa “entrar numa zona muito mais perigosa”.

“Sabemos que uma alimentação estritamente vegetariana é deficitária em vários pontos que têm de ser corrigidos, normalmente com o uso de suplementos. E, mesmo assim, é muito mais difícil fazer uma refeição equilibrada com obtenção de todos os nutrientes sem produtos de origem animal do que com produtos de origem animal”, destaca Nuno Borges.

Por seu turno, a nutricionista Sandra Gomes Silva, ela própria vegetariana, vê com bons olhos a medida anunciada pelo reitor da Universidade de Coimbra, embora concordando com Nuno Borges no ponto central: “No sentido nutricional, ter ou não ter carne de vaca não vai fazer diferença, porque é semelhante a outras carnes. Sabemos que a carne de vaca, por si só, não vai ter um impacto significativo”.

"No sentido nutricional, ter ou não ter carne de vaca não vai fazer diferença, porque é semelhante a outras carnes. Sabemos que a carne de vaca, por si só, não vai ter um impacto significativo"
Sandra Gomes Silva, nutricionista

O impacto maior, no entender de Sandra Gomes Silva, é precisamente o ambiental. “Pode ser uma medida interessante no sentido em que, dos vários tipos de carne, é aquela que terá um impacto maior. Mas há outras medidas que terão um impacto ainda maior, como a redução do desperdício alimentar, da quantidade de comida que diariamente é deitada fora, porque é produzida a mais, ou a redução da compra de alimentos embalados em plástico não reutilizável.”

Reduzir o consumo de carnes vermelhas, em especial da carne de vaca, é, portanto, benéfico quer para a saúde quer para o ambiente. “Não diria abolir, mas reduzir”, resume Nuno Borges, destacando que não faz sentido retirar por completo da alimentação humana um produto que faz parte dela naturalmente — mas que hoje, devido à exploração intensiva e aos preços mais baixos, ocupa nela um lugar de demasiado destaque.

Universidades portuguesas querem neutralidade até 2030

A abolição da carne de vaca decretada agora pela Universidade de Coimbra insere-se precisamente neste esforço de redução do impacto ambiental que está a ser levado a cabo pelas várias instituições de ensino superior em Portugal, numa estratégia que aponta para o ano 2030 como meta para alcançar um campus de carbono zero.

“O nosso objetivo é atingirmos a neutralidade carbónica em 2030 e, para o conseguirmos, vamos ter de integrar outras ações. A carne de vaca simbólica, é uma forma de chamar a atenção para um problema emergente”, explica ao Observador o reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão, responsável pelo anúncio feito esta terça-feira.

Destacando que “aquilo que a carne de vaca nos dá pode ser dado pelo porco, pelo frango, pelos lacticínios e pelos ovos”, Amílcar Falcão descansa também as preocupações levantadas ao Observador pelo especialista Nuno Borges, assegurando que não está em cima da mesa a retirada de outras carnes da ementa das cantinas universitárias.

"O nosso objetivo é atingirmos a neutralidade carbónica em 2030 e, para o conseguirmos, vamos ter de integrar outras ações. A carne de vaca simbólica, é uma forma de chamar a atenção para um problema emergente"
Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra

“Tem a ver com as vacas, o metano que elas produzem é muito elevado, é de longe a que tem a maior pegada. Na carne de porco, a poluição é quatro vezes menos, na de frango é seis vezes menos”, argumenta Amílcar Falcão. “Teremos alternativas válidas de outras carnes, mais refeições com peixe, também temos uma opção vegetariana. Esse é um trabalho que tem a ver com os nutricionistas, que estão a calcular os valores nutricionais para as novas ementas.”

Relativamente a eventuais custos que esta medida possa ter para o orçamento da universidade, Amílcar Falcão destaca que a carne de vaca não é apenas a mais poluente — é também a mais cara, em comparação com o porco ou a maioria das aves. Se houver algum impacto financeiro, contudo, “será seguramente suportável”, garante.

O reitor de Coimbra recusa também a ideia de que a medida possa de alguma forma restringir a liberdade individual de escolha de cada um. “Nós não obrigamos ninguém a ir às cantinas. A gestão é nossa. Temos de garantir qualidade naquilo que lá colocamos, qualidade dos produtos. Eu também já fui estudante e às vezes ia à cantina e não gostava de nenhum prato que lá havia. É óbvia que    gosta muito de carne de vaca pode ficar muito incomodada: come porco, come frango. Estamos a fazer um esforço ambiental para o futuro destes jovens.”

A retirada da carne de vaca das cantinas universitárias não é a única medida na mira da Universidade de Coimbra rumo à neutralidade carbónica em 2030. Algumas mudanças já estão em estudo ou em implementação, como a transição de todo o sistema de iluminação da universidade para LED ou a instalação de painéis fotovoltaicos para servirem de fonte primordial de energia. Também a abolição dos produtos de plástico não reutilizáveis nas cantinas e em todos os serviços ou a retirada das máquinas de vending deverão ser medidas aplicadas nos próximos tempos em Coimbra.

Mas Coimbra não está sozinha neste esforço. O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Fontaínhas Fernandes, explicou ao Observador que “cada instituição tem uma estratégia na área do ambiente” e que “ao abrigo da sua autonomia cada uma deverá encontrar as medidas que achar mais adequadas”.

Sobre a medida aplicada em Coimbra, Fontaínhas Fernandes considera que há estratégias diferentes, que se vão implementando para “atingir o mesmo objetivo”.

“Por exemplo, uma medida que é muito simples passa por, em vez de vender a senha da refeição com tudo incluído, vender os elementos da refeição à peça. Diminui o desperdício. Portanto, há diferentes estratégias de se atingir o mesmo ponto. A Universidade de Coimbra lançou uma estratégia mais drástica, que é proibir. Outras, através da diminuição sucessiva, gradual, poderão atingir o mesmo  noutros tempos, explicou o líder dos reitores.

Assumindo que “é difícil traçar um plano comum” a todas as universidades, Fontaínhas Fernandes explica que decisões como a tomada agora por Coimbra cabem na autonomia de cada instituição — necessária devido às grandes diferenças de contexto e dimensão.

"Portanto, há diferentes estratégias de se atingir o mesmo ponto. A Universidade de Coimbra lançou uma estratégia mais drástica, que é proibir. Outras, através da diminuição sucessiva, gradual, poderão atingir o mesmo  noutros tempos"
Fontaínhas Fernandes, presidente do Conselho de Reitores

“O campus da minha universidade [UTAD], por exemplo, é completamente diferente de outras instituições. As grandes instituições situadas nos grandes centros urbanos têm um campus disperso, e há medidas que se tornam mais difíceis. As instituições têm de pensar os campi à luz do conceito de cidades inteligentes, das smart cities”, diz Fontaínhas Fernandes.

Em Vila Real, por exemplo, há uma “estratégia diferente”, explica, detalhando que preferiu começar pelo “ordenamento do campus” — ou seja, pela otimização dos espaços da universidade em termos energéticos e da própria mobilidade interna.

“Além disso, todo o sistema de iluminação vai passar a sistema LED, o sistema de aquecimento vai passar a usar biomassa e estão a ser feitas intervenções para evitar as perdas de energia ao nível dos telhados. Vai diminuir, numa intervenção de 3 milhões de euros, 50% da despesa em energia e as emissões em 70%. Tem um impacto muito significativo na área da energia”, resume Fontaínhas Fernandes.

O ano apontado pelas universidades portuguesas como meta para alcançar a neutralidade carbónica — 2030 — é considerado pela comunidade científica e pelas Nações Unidas como o “ponto de não retorno”. Trata-se do prazo até ao qual ainda será possível reverter grande parte dos danos infligidos ao planeta pela atividade humana.

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