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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Vitória “reforçada” ou poucochinho? Abstenção ameaça ambição de Seguro

A uma semana das eleições e em dia de voto antecipado, António José Seguro reativa armas contra Ventura e volta a colocar a fasquia acima do que precisa para ganhar. Abstenção é preocupação.

A participação eleitoral na segunda volta preocupa António José Seguro, sobretudo quando colocou uma fasquia acima do necessário para ser eleito. O candidato não quer apenas mais um voto que o seu adversário, mas ter uma margem expressiva para ter “mais força política” no exercício do cargo de Presidente da República. O pedido andou arredado do seu discurso na última semana, mas voltou agora, numa altura em que a mobilização eleitoral pode estar comprometida pelas intempéries (sofridas e previstas) e a consequente passagem desta eleição para um segundo plano.

Este domingo, a política voltou em força à intervenção do candidato que tem estado, nos últimos dias, com discursos mais focados nos problemas na zona centro do país. A campanha acelera agora, com mais iniciativas previstas já para a segunda-feira e até um contacto com a população, coisa que não aconteceu ainda desde que a segunda-volta começou (até porque oficialmente arrancou no dia do temporal).

“Admito que isto não o beneficie e que possa ter menos de 60%“, nota um dos seus apoiantes e elemento próximo, ao mesmo tempo que também diz que o aumento da abstenção não tem beneficiado Ventura, é o contrário. Outro admite ao Observador que a abstenção é, nesta altura, uma preocupação visível nas conversas com o candidato. E o próprio candidato tem dito isso muitas vezes, sobretudo quando ouve alguém dizer-lhe “que está ganho” (uma constante nesta segunda volta): “Não, não está ganho porque as sondagens não ganham eleições, o que ganha é a contagem final dos votos”. Mas entre alguns dos seus conselheiros, a questão da “legitimidade reforçada” que Seguro pede vai sendo desvalorizada.

“É irrelevante a dimensão do resultado dele”, diz um dos socialistas com que o Observador falou. “No dia seguinte ninguém se vai lembrar”, comenta outro. O foco vai estar, dizem, no resultado de Ventura, “que fez destas eleições as primárias das legislativas”. “O problema é de Montenegro”, consideram. Mas o que é certo é que o objetivo de derrotar Ventura por muitos voltou a ser reclamado por Seguro este domingo.

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Num comício no Teatro Cine de Gouveia, o candidato disse sem entrelinhas que “não é indiferente o número de votos que a candidatura tem. Não basta ganhar por um. O Presidente da República tem de sair com legitimidade eleitoral reforçada. Quanto mais votos tiver, mais força política tem para fazer com que os partidos, o Governo e o Parlamento façam aquilo que devem, que é contribuir, dentro daquilo que são os seus projetos, para resolver os problemas dos portugueses”.

Só não quantifica se o resultado que procura é mais da largura de Soares 1991 (70%) ou de Marcelo 2021 (60%). Questionado pelos jornalistas sobre a dimensão desse reforço que pede, o socialista recusa dizer: “O apelo que fiz é que as pessoas vão votar e digo que é importante que concentrem o maior número de votos na minha candidatura.”

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Para Seguro, este pedido ganha especial importância no “momento em que o país vive” e em que “precisa”, diz, “de ter um Presidente da República com muita força. E se tiver mais votos, naturalmente tem mais força política.” Uma fasquia arriscada numa altura em que o foco do país está longe das eleições, em que a segunda volta pouco diz a alguns dos eleitores que saíram derrotados da primeira e em que Seguro tem mostrado uma ligeira queda nas sondagens diárias (CNN Portugal).

Certo é que este pedido ainda não tinha sido ouvido nesta primeira semana de campanha oficial e voltou agora, juntamente com um ataque mais cerrado a André Ventura. Começou primeiro, num comício na Lixa, através das vozes dos convidados a intervir (o presidente da câmara de Felgueiras e o mandatário distrital da candidatura) e, nesse mesmo sábado, à noite foi também assunto na intervenção do próprio Seguro no comício do Teatro Jordão, em Guimarães.

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Democracia vs. “divisão”

E este domingo apareceu novamente, quando Seguro esteve no Octógono do Fundão para um comício onde recolocou a discussão desta segunda volta onde acredita que conseguir mais votos: no combate pela defesa da democracia. Era, de resto, um dos argumentos que mais usava durante a primeira volta para tentar concentrar em si os votos à sua esquerda e também à sua direita, ou seja, todos os anti-Ventura. Ressurgiu agora que a luta parece ter arrefecido no palco mediático.

Em dia de voto antecipado e a uma semana das eleições, demarcou o seu território, colocando-se como o representante de “um chão comum onde podem conviver todos os democratas, com opções plurais, com opções completamente distintas”. Não teve de referir Ventura pelo nome quando proclamou que “chega de divisão e chega de ódio”.

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Mas à noite, na entrevista que deu à SIC, foi muito direto no ataque ao adversário ao admitir que Ventura “é um risco para a democracia”. O socialista que se candidata à Presidência da República falava especificamente da questão da desinformação promovida pelo seu adversário nas redes sociais. “A desinformação não ajuda a democracia. E um estudo recente mostrou que 85% das falsidades na internet se devem a André Ventura. O país tem de ser claro no dia 8 e repudiar essa situação”, desafiou. “Os métodos desse candidato não são democráticos, nem têm a ver com a maneira de ser dos portugueses, nós somos um povo pacífico”, disse ainda na mesma entrevista.

Sobre a convivência futura com o líder do Chega, se for Seguro a ganhar as eleições, o candidato disse que tem “tentado fazer tudo para manter condições mínimas” e preservar essa eventual relação institucional futura, acrescentando um “mas”: “O recurso à desinformação é inaceitável”. Neste combate político que parece ter voltado à campanha, o socialista ainda pica o adversário com a candidatura dirigida a outras eleições, as legislativas, e a comprová-lo aponta para uma campanha em que “a todo o momento, está a ter uma atitude de oposição ao Governo”.

É o reativar de outra das armas que tem apontadas a Ventura, a da colagem do líder do Chega à ideia de instabilidade política. Em Gouveia, durante a tarde deste domingo, o candidato sublinhou que pretende ser “um Presidente independente que não será de um partido contra o resto: nunca serei um Presidente de uma parte dos portugueses contra a outra parte.” Uma clara indireta a Ventura que lidera um partido e é candidato a Belém. Em contraponto, promove a figura de um Presidente que “promova a paz social e política, sobretudo num momento que não é de divisão, é de união.” Uma linha que já não deverá largar até ao dia 6 de fevereiro, se a meteorologia não voltar a desviar o foco.

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