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O que é a psico-oncologia?

É um campo especializado da Psicologia da Saúde que atua em temas ligados com cancro: vertentes psicológicas, sociais, emocionais e comportamentais.

“Esta área dedica-se a identificar e mitigar as respostas psicológicas adversas, promovendo a adaptação e a qualidade de vida ao longo de todas as fases do percurso da doença: desde o diagnóstico inicial, passando pelo tratamento e, se a situação evoluir nesse sentido, até à fase paliativa, ao processo de luto, remissão e sobrevivência”, explica Maria de Jesus Moura, diretora da Unidade de Psicologia do IPO de Lisboa, especialista em Psico-Oncologia pediátrica.

A psico-oncologia reconhece a ligação entre o bem-estar emocional e a saúde física do doente, que procura desenvolver competências de adaptação à doença, otimizando a capacidade de lidar com os desafios impostos pela condição oncológica, promovendo a adesão aos tratamentos, facilitando a comunicação entre os intervenientes. Além disso, presta atenção ao impacto que a doença oncológica tem nas famílias, cuidadores e profissionais de saúde.

 

Convém lembrar que entre 25 e 30% dos doentes com cancro apresentam sintomas clinicamente significativos de perturbação psicológica, nomeadamente perturbações de ansiedade, depressivas e de adaptação, segundo dados que constam nas diretrizes de prática clínica de gestão do sofrimento em oncologia da National Comprehensive Cancer Network, organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos que reúne 33 centros líderes em investigação, educação e atendimento a doentes com cancro.

 

 

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Que intervenções faz?

Várias e em diversos momentos. Na fase do diagnóstico, momento crítico, ajuda a digerir a notícia através de estratégias para manter a calma, lidar com o impacto da doença, facilitando a gestão de medos e incertezas.

Na fase do tratamento, como quimioterapia, radioterapia e cirurgias, o acompanhamento foca-se na adaptação e adesão à terapêutica e na gestão dos efeitos secundários – tanto físicos, como náuseas, fadiga e dor; como emocionais, como ansiedade e depressão. Ensinar técnicas de relaxamento para gerir a ansiedade pré-operatória é um exemplo.

Nos cuidados paliativos, presta suporte emocional ao doente e família, promove a dignidade e a qualidade de vida através do apoio na comunicação de temas sensíveis, nomeadamente com a equipa de saúde, e na facilitação de um ambiente de conforto psicológico. Ajuda a gerir emoções, receios e dificuldades, criando um clima de transparência e confiança, através da mediação em conversas difíceis ou da capacitação para a assertividade. Os familiares podem participar em sessões de psico-educação sobre como apoiar o doente e como lidar com o stress, por exemplo.

O suporte na fase de remissão e pós-tratamento, centra-se na readaptação à vida, na gestão do medo persistente de que a doença volte a aparecer, bem como na reconstrução da identidade pessoal. Uma possibilidade é participar em grupos de apoio para sobreviventes para partilhar experiências e adquirir estratégias de reintegração social.

A Psico-Oncologia dá também atenção a profissionais de saúde que atuam em contextos oncológicos para prevenir e mitigar o burnout profissional, a exaustão emocional, nomeadamente através de workshops sobre gestão de stress e estratégias de autocuidado. “O trabalho com pacientes oncológicos é inerentemente exigente e stressante, dada a proximidade com o sofrimento, a doença grave, a morte e as complexidades emocionais envolvidas.”

No luto, a intervenção acompanha familiares e cuidadores durante esse processo delicado, oferecendo um espaço seguro para assimilar a perda e dar suporte necessário para a adaptação à nova realidade.

 

 

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Quais os doentes que precisam deste apoio?

Todos, na teoria. Os especialistas notam que todos os doentes oncológicos são potenciais beneficiários, dada as repercussões nas suas vidas. No entanto, não há um critério único e rígido, uma vez que as necessidades de suporte psicológico são individuais e, portanto, variáveis.

“O apoio psico-oncológico revela-se particularmente relevante em situações de sofrimento emocional significativo, como ansiedade, depressão, níveis elevados de stress e perturbação de pânico”, adianta Maria de Jesus Moura, mestre em Psicopatologia e Psicologia Clínica, acrescentando que “é igualmente crucial para aqueles que enfrentam dificuldades de adaptação, nomeadamente problemas na gestão do diagnóstico, dos tratamentos, das alterações físicas e das suas consequências na vida diária.”

Problemas de comunicação, que incluem a dificuldade em expressar emoções ou em interagir com a família e a equipa de saúde, também justificam este tipo de intervenção, tal como para quem resista em aderir à terapêutica ou tenha dificuldade em seguir o plano de tratamento estabelecido.

“No âmbito das alterações físicas, as dificuldades na imagem corporal e sexualidade são uma preocupação central, especialmente aquelas resultantes de tratamentos que implicam cirurgias de elevada complexidade com impacto na autoimagem e na identidade do indivíduo”, realça a psicóloga.

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É feito algum diagnóstico?

Sim. A intervenção em Psico-Oncologia parte de um diagnóstico e de uma avaliação psicossocial das necessidades do doente, da família e cuidadores, essenciais para delinear uma intervenção personalizada e eficaz. Até porque o objetivo é otimizar o ajustamento psicológico ao longo do percurso da doença oncológica.

Maria de Jesus Moura adianta que, a partir desta avaliação multidimensional, “o especialista identifica as necessidades específicas de cada indivíduo e família, e estabelece um plano de intervenção que pode incluir psicoterapia individual, terapia familiar, terapia de grupo, psicoeducação, ou referenciação para outros especialistas, conforme a necessidade.”

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Que tipo de necessidades psicológicas sentem os doentes com cancro?

São vastas, interligadas e dinâmicas, que se concentram sobretudo na vontade de reduzir o sofrimento emocional. A ansiedade é uma das emoções mais frequentes em relação aos resultados de exames, à eficácia dos tratamentos, ao receio de recorrência da doença, à dor, à perda de controlo, ao futuro, à própria morte. A depressão pode apresentar-se como tristeza persistente, perda de interesse e prazer em atividades, sentimentos de desesperança, culpa, irritabilidade, alterações do sono e do apetite.

A adaptação é uma necessidade. “O diagnóstico é um momento de choque que exige a assimilação de uma realidade ameaçadora e a reorganização da vida.” A qualidade de vida é outra. Os doentes procuram formas de minimizar o impacto do cancro no seu bem-estar físico e emocional, mesmo perante as limitações.

“A necessidade relacionada com a alteração imagem corporal e sexualidade é particularmente significativa após cirurgias (mastectomias, amputações) ou tratamentos que alteram a aparência física, podendo gerar dificuldades acentuadas com a autoimagem e a autoestima.” Muitos sentem-se incompreendidos e têm dificuldades em falar da sua experiência.

Na fase paliativa e fim de vida, as necessidades refletem-se na gestão do sofrimento, comunicação sobre a morte, despedida, resolução de conflitos, procura de paz.

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Até que ponto o sofrimento emocional compromete a capacidade de lidar com a doença?

Compromete significativamente. A capacidade de resiliência diminui, os recursos psicológicos esgotam-se, há comportamentos disfuncionais que podem surgir, e as atividades diárias e as relações interpessoais são afetadas.

“Este impacto negativo manifesta-se de diversas formas: a adesão ao tratamento pode ser comprometida por ansiedade, depressão e desesperança, levando à não adesão ou abandono da terapêutica.” Por outro lado, a perceção e a gestão de sintomas e efeitos adversos deixam de funcionar, uma vez que a dor se intensifica.

 

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E de que forma faz diferença na adesão ao tratamento?

O apoio da Psico-Oncologia é crucial para a adesão ao tratamento oncológico, para derrubar barreiras em momentos complicados, para alcançar melhores resultados para o doente.

Maria de Jesus Moura concretiza. “A perda de interesse para fazer ou manter a terapêutica, pode ter, na sua origem, a depressão e exaustão, o que em algumas situações pode conduzir os pacientes a não seguirem os tratamentos. Além disso, o stress e a ansiedade dificultam o processamento de informações complexas sobre o tratamento o que pode também comprometer a adesão à terapêutica.”

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Qual a periocidade indicada para este apoio?

Não há um tempo definido e objetivo. A periodicidade é individualizada e depende de vários fatores. “O objetivo é assegurar que o paciente receba o suporte necessário no momento certo, com a intensidade adequada, para otimizar o seu bem-estar psicológico e a sua capacidade para lidar com a doença”, reforça a diretora da Unidade de Psicologia do IPO de Lisboa.