Um estudo ligado à Universidade de Harvard “revela que Israel fez desaparecer 377 mil palestinianos em Gaza”, sendo que “metade” são “crianças”. É o que asseguram várias publicações nas redes sociais.
Este relatório é atribuído ao professor israelita Yaakov Garb, que terá utilizado “dados e mapeamento espacial” para mostrar como o “cerco do exército israelita a Gaza e os ataques indiscriminados contra civis no enclave levaram a uma queda significativa na sua população”.
Publicação de Facebook que alega que 377 mil pessoas estão desaparecidas na Faixa de Gaza.
Os números foram partilhados em muitas publicações, incluindo uma do embaixador palestiniano na Costa do Marfim, Abdal Karim Ewaida.
Ao partilhar uma imagem que mostrava a destruição no enclave palestiniano, o embaixador escreveu que Israel “não pode escapar da justiça para sempre” e adiantava que o número de 377 mil é “baseado em dados militares israelitas“.
Antes de irmos aos números, Yaakov Garb é de facto um investigador e professor auxiliar da universidade israelita Ben Gurion. Um dos seus trabalhos mais recentes é dedicado aos “complexos de distribuição de ajuda israelita e americana” na Faixa de Gaza. Neste trabalho, publicado no repositório online e gratuito da Universidade de Harvard, são detalhados mapas e dados de localização destas infraestruturas humanitárias.
Mas nenhum trabalho de Yaakov Garb menciona o desaparecimento de 377 mil palestinianos por causa dos ataques de Israel. De onde vem então o número?
A primeira referência que é possível encontrar a este número de 377 mil desaparecidos foi escrita no blog Medium, numa publicação que cita dados de Yaakov Garb, mas que é assinada pelo utilizador “Maximiliano”. Aqui, Maximiliano escreve que, através de uma “análise mais aprofundada” do trabalho de Garb, é possível traçar uma “história de horror demográfico: uma lacuna populacional de quase 400 mil pessoas“.
O utilizador escreve que antes do conflito, a população da Faixa de Gaza era aproximadamente 2,227 milhões, mas agora os relatórios de Yaakov Garb (que exibem estimativas das Forças de Defesa de Israel) revelavam a existência de 1,85 milhão de pessoas nas principais regiões do enclave: a cidade de Gaza (no norte, com 1 milhão de habitantes), Central (no centro, com 350 mil pessoas) e Mawasi (no sul, com cidades como Khan Yunis com 500 mil pessoas).
Ou seja, fazendo as contas: desde que a guerra começou o número de pessoas na Faixa de Gaza diminui em 377 mil.
Mapa da Faixa de Gaza do professor Yaakov Garb, corrigidos a 26 de junho de 2025
À France 24, Yaakov Garb, admite ter ficado surpreendido com a “interpretação equivocada” dos dados que constam nos seus mapas (que são criados com números fornecidos pelo exército israelita e tratam de “estimativas e não representam necessariamente a população de Gaza na sua totalidade”)
Nestas declarações, o professor israelita admite ter cometido um erro ao criar os mapas no que toca à população em Al-Mawasi. Seriam 700 e não 500 mil pessoas. O académico prometeu “corrigir o erro imediatamente” e, como foi confirmado pelo Observador, logo no início do estudo pode ler-se que o “mapa foi emendado” no dia 26 de junho de 2025.
Reagindo à polémica que se instalou nas redes sociais, Yaakov Garb classificou como “preocupante” que alguns internautas se baseiem “em erros de digitação num mapa como prova de genocídio sem antes perguntar”.
Emenda do mapa da Faixa de Gaza desenhado por Yaakov Garb, com dados do exército israelita
Os dados oficiais, conhecidos em junho de 2025 na Faixa de Gaza, apontam para mais de 55 mil vítimas mortais. São números do Ministério da Saúde do enclave, controlado pelo Hamas. O Gabinete Central de Estatísticas da Palestina, no final de 2024, assinalava que cerca de 100 mil palestinianos tinham deixado a Faixa de Gaza desde o início da agressão. E estudos, como o que foi publicado pela revista Lancet, alertam que o número de mortes em Gaza pode ser bem superior aos dados oficiais — até 40%
Conclusão
Não é verdade que um relatório da Universidade Harvard tenha revelado que 377 mil pessoas estão desaparecidas em Gaza, como alertam as redes sociais.
A conta é feita numa publicação num blog, mas parte de um erro colocado num mapa desenhado pelo académico Yaakov Garb (com recurso a dados oficiais do exército israelita). Ao enganar-se a colocar a população de Al-Mawasi como 500 e não como 700 mil pessoas, várias publicações das redes sociais fizeram as contas para alertar para o desaparecimento de 377 mil palestinianos.
Com o mapa emendado (admitido pelo próprio investigador israelita), as contas são outras: 2 milhões e 50 mil habitantes em Gaza em junho de 2025. Importa recordar que estes dados são estimativas. Já quanto aos dados oficiais, há registo de 55 mil mortes em Gaza (contas do Hamas) e 100 mil fugitivos do enclave (dados do Escritório Central de Estatísticas da Palestina), mas como vários estudos já demonstraram é impossível confirmar com exatidão se o número de vítimas e deslocados. O que podemos afirmar com exatidão é que não serão 377 mil.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.