Depois de ter confirmado a candidatura às presidenciais ao jornal Público, vários utilizadores das redes sociais têm feito publicações a afirmar que Ana Gomes é, ainda hoje, amiga próxima do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Há quem recupere fotografias da campanha das eleições autárquicas de 2009, quando Ana Gomes participou numa ação de rua ao lado de José Sócrates e também de Eduardo Ferro Rodrigues, mas facto é que há já vários anos que Ana Gomes tem criticado em público o ex-primeiro-ministro e antigo secretário-geral socialista.

Publicação no Facebook que aponta Ana Gomes como “amiga do peito” de José Sócrates

Exemplos de publicações no Twitter nos últimos dias

Exemplos de publicações no Twitter nos últimos dias

As publicações insinuam que Ana Gomes nunca se demarcou de José Sócrates e que, ainda hoje, mantém uma relação próxima com José Sócrates e que “sempre o defendeu”, mas tal não é verdade. Ana Gomes foi, aliás, das poucas figuras socialistas que ousou criticar Sócrates na maioria absoluta 2005-2009 e também no segundo mandato.

Logo em 2007, Ana Gomes atacou ferozmente o governo Sócrates devido aos chamados voos da CIA, acusando o governo de encobrir os voos da central de inteligência norte-americana em solo nacional. Numa conversa com os leitores do Portugal Diário, a eurodeputada chegou a dizer, em janeiro de 2007, que responsabilizava “o ministro dos Negócios Estrangeiros por não ter dado seguimento a este processo [de investigação dos voos da CIA”, mas acrescentou que também responsabilizava “o primeiro-ministro e todo o Governo”. Antes disso, já tinha feito críticas aos governos do próprio José Sócrates (e também de Durão Barroso), pela maneira como geriram o processo.

Nos últimos dias têm, no entanto, circulado declarações da eurodeputada de 2009 a dizer: “Não tenho dúvidas sobre a sua honestidade.” Trata-se de uma frase que fazia parte de uma pequena entrevista (“Discurso Direto”) publicada na edição do Correio da Manhã de 1 de março de 2009. No entanto, não era apenas uma defesa de José Sócrates (que assim pode, legitimamente, ser entendida), mas também uma forma de pressão sobre o antigo primeiro-ministro, já que Ana Gomes acrescentava: “Por isso, digo que quem for sério e honesto não terá dificuldades em fazer prova de onde veio o dinheiro com que compraram casa, carro, férias, ações ou outros bens.

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No Congresso do PS, Ana Gomes falou do caso Freeport, que era um assunto que provocava desconforto, aproveitando-o para defender a sua bandeira: o combate à corrupção. No púlpito do Congresso, parece ter-se aproximado daquilo que era a tese da direção de Sócrates, embora a mera referência ao tema no órgão máximo dos socialistas já fosse visto nas fileiras do partido como uma ousadia, tendo em conta o contexto em que ocorreu: o final da primeira maioria absoluta do PS, em que o antigo primeiro-ministro era todo-poderoso no PS e no país.

“A campanha de ataque pessoal a José Sócrates, a pretexto da investigação sobre corrupção [no negócio do Freeport], permite compreender como, enquanto não tivermos a coragem de criar meios eficazes para punir a corrupção, continuará a pairar a suspeita sobre todos”, disse Ana Gomes, embora isso não significasse necessariamente uma maior aproximação ao líder. Os críticos de Ana Gomes dizem, no entanto, que o fez para garantir um lugar nas Europeias de 2009. Uma coisa é factual: a socialista foi efetivamente candidata a eurodeputada na lista do PS que se submeteu a votos em maio de 2009. E foi eleita.

Em julho de 2009, fez um vídeo de apoio a Sócrates nas legislativas (que seriam em setembro), mas no vídeo nunca se refere ao primeiro-ministro, pedindo apenas um “governo socialista” de maioria contra a “direita neoliberal”. Mas isso não invalida que tenha ficado amarrada a José Sócrates e ao seu governo. Uma retrospetiva política permite, aliás, comprovar o contrário. Logo em setembro desse ano, quando o ministro dos Negócios Estrangeiros Luís Amado participou no aniversário da Revolução de Khadaffi, Ana Gomes disse que a atitude do ministro socialista metia “nojo”.

E foi subindo de tom, sendo das primeiras pessoas do PS a romper e a criticar em campo aberto José Sócrates. Em abril de 2010, no blogue Causa Nossa, como foi citado pelo Público, Ana Gomes fez várias críticas a José Sócrates, entre elas a maneira como reagiu em carta ao jornal Público sobre o caso em que assinou projetos na Guarda em nome de outros técnicos. O então primeiro-ministro descreveu uma carta àquela publicação a dizer que o diário tinha deixado de fazer “jornalismo de referência”. Ana Gomes reagiu com violência no blogue dizendo que a missiva “será de engenheiro técnico, não de primeiro-ministro“.

Em abril de 2011, houve novo Congresso do PS a poucos meses das legislativas, que foram em junho de 2011. Dias depois da reunião magna, houve eleições para a Comissão Nacional — o órgão máximo entre congressos dos socialistas — e Ana Gomes foi eleita na lista do candidato adversário de José Sócrates (Fonseca Ferreira). Nesse mesmo mês, já tinha dado uma entrevista ao programa Gente que Conta da TSF, a sugerir que, caso perdesse as eleições, José Sócrates saberia retirar as devidas consequências. Ou seja: sair do partido. José Sócrates acabaria por perder as eleições e demitir-se de secretário-geral do PS.

Anos depois, no dia em que José Sócrates ficou pela primeira vez em prisão preventiva, em novembro 2014, Ana Gomes dizia na crónica “Conselho Superior” da Antena 1 que não tinha pertencido ao “círculo de amigos ou colaboradores próximos de José Sócrates”, ainda que admitisse que fazia uma “apreciação genericamente positiva” do primeiro mandato do ex-primeiro-ministro.

“Não pertenci ao círculo de amigos ou colaboradores próximos de José Sócrates, tendo dele ou da ação do seu governo publicamente dissentido em várias oportunidades e circunstâncias. Embora tenha feito – e mantenho – uma apreciação genericamente positiva da sua governação, nomeadamente a desenvolvida no primeiro mandato”, podia ler-se na crónica transcrita por Ana Gomes para o blogue que co-assina, “Causa Nossa”.

Nos anos seguintes, várias foram as entrevistas ou ocasiões em que Ana Gomes foi confrontada com a questão José Sócrates e as acusações que lhe estavam a ser feitas, levando-a a afirmar mesmo, em entrevista ao Jornal i, que a preocupação de Sócrates não era “o PS, mas ele próprio”.

Ana Gomes foi, na altura, das primeiras socialistas a admitir o impacto que as declarações — e cartas que escrevia a partir da prisão e que foram publicadas no Jornal de Notícias — de José Sócrates tinham na campanha às legislativas, conforme deu nota o comentador Marques Mendes, a 24 de agosto de 2015, no espaço de comentário da SIC Notícias.

Noutra ocasião, já em 2016, Ana Gomes acusou a direção do PS de deixar Sócrates manipular o partido, depois de o ex-primeiro-ministro ter participado em alguns eventos do partido e de ter sido homenageado num jantar no Parque das Nações, em Lisboa. À data, Ana Gomes mantinha as críticas aos dirigentes do PS por não levantarem a voz contra o facto de José Sócrates estar a “manipular” o partido e a tentar reabilitar a sua imagem política. Na altura, antes de sair do partido, José Sócrates ainda respondeu a Ana Gomes, considerando “repugnantes” as críticas de Ana Gomes sobre a sua presença num evento partidário, acusando-a ainda de fazer o “jogo da direita, que pretende uma condenação sem julgamento”.

Eurodeputada Ana Gomes critica presença de Sócrates em evento institucional do PS

Quando, em maio de 2018, José Sócrates entregou o cartão de militante do PS e se desfiliou do partido, em entrevista ao Diário de Notícias e à agência Lusa, Ana Gomes dizia-se surpreendida com a atitude do ex-primeiro-ministro, considerando-a “parte da estratégia de vitimização”, mas “uma boa notícia para o PS”.

Da “vida de fausto” à “vitimização”. As reações à saída de Sócrates do PS

Conclusão

Ao longo dos últimos anos, em várias ocasiões, Ana Gomes criticou publicamente o ex-primeiro-ministro José Sócrates. Em 2007, quando ninguém desalinhava do partido, criticou o governo — e o primeiro-ministro Sócrates, em particular — a propósito dos voos da CIA. Em 2009, é verdade que diz que não duvida da honestidade do então chefe de governo e que este está a ser alvo de ataque, mas consegue a proeza de falar do caso Freeport no púlpito do congresso do PS. Um retrospetiva da história do PS nos últimos anos permite ver que Ana Gomes foi sempre, dos destacados militantes socialistas, a primeira a romper com José Sócrates. Além disso, como a própria escreveu em 2014, nem mesmo durante o tempo de governação do socialista fez parte “do círculo de amigos ou colaboradores próximos” de Sócrates, tendo deixado também críticas a algumas opções governativas do socialista. É, portanto, falso que Ana Gomes seja ainda hoje — ou que alguma vez tenha sido — “amiga do peito” e “próxima” de José Sócrates, como sugerem várias publicações nas redes sociais. Foi, pelo contrário, sempre das socialistas mais desalinhas com o antigo primeiro-ministro durante o socratismo.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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