De entre os discursos no púlpito no Congresso esta tarde, Catarina Cardoso da célula dos Ferroviários da Organização Regional de Lisboa destacou-se uma acusação ao primeiro-ministro. Disse Catarina Cardoso que “todos” recordam António Costa como o homem que “em 2001 ordenou uma carga policial sobre os operários que defendiam a Sorefame”.

Em 2001 António Costa era ministro no governo de António Guterres, mas tutelava a pasta da Justiça. Seria, à partida, impossível que pudesse ordenar qualquer carga policial, já que as forças policiais portuguesas estão sob a tutela do ministério da Administração Interna. Não sendo verdadeira a afirmação de Catarina Cardoso perante os delegados, pode resultar de algumas confusões de datas, personagens, mas não de localidade.

De facto, os comunistas até questionaram publicamente António Costa a propósito de uma carga policial, mas seis anos depois, em 2007. Em 2001, os comunistas mobilizaram-se para procurar salvaguardar os direitos dos trabalhadores da empresa Sorefame que em maio desse ano foi vendida à canadiana Bombardier Transportation. Ainda que a luta desses trabalhadores tenha sido estendida no tempo, já que a fábrica só encerrou definitivamente em 2004, no ano em que se deu uma carga policial junto a uma das fábricas na Venda Nova, Amadora, já não existia a Sorefame/Bombardier.

Na página da Organização Regional de Lisboa do PCP ainda é possível encontrar as perguntas que então foram enviadas a António Costa, já na condição de ministro da Administração Interna. Em 2005, no primeiro governo de José Sócrates, António Costa assumiu a pasta da Administração Interna e, aí sim, coincidiu no tempo com uma carga policial numa empresa da Amadora e a tutela das forças policiais.

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E com a Sorefame/Bombardier já extinta na Venda Nova, Amadora, onde aconteceu a carga policial mencionada erradamente no discurso? Na construtora Pereira da Costa, também na Venda Nova. Vários órgãos de comunicação social noticiavam, em março de 2007, que os trabalhadores da empresa Pereira da Costa acusavam a polícia de terem carregado “à bastonada” sobre eles junto ao portão da empresa.

Os trabalhadores tinham nas semanas anteriores ocupado as instalações para impedir que fosse retirada maquinaria do seu interior e, a 13 de março os ânimos exaltaram-se. A polícia negou que tivesse havido qualquer carga policial. Hipólito Cunha porta-voz da Direção Nacional da PSP em declarações, à data, ao Correio da Manhã acrescentou que “não foram usados bastões nem os elementos do Corpo de Intervenção que ali estavam tiveram de intervir”.

Dois dias depois do incidente, António Costa na condição de ministro da Administração Interna recusou que tivesse existido no dia 13 de março uma carga policial e, em resposta, o PCP, através da Organização Regional de Lisboa, “enviou ao ministro da Administração Interna uma reportagem fotográfica que ilustra – de forma inequívoca – a utilização da força por parte do Corpo Policial presente”, pode ler-se na página.

Também a CGTP tinha repudiado no próprio dia a “carga policial” e exigido a retirada imediata da polícia do local ao ministro da Administração Interna. Recorde-se que a vigília dos trabalhadores à porta da empresa Pereira da Costa durou cerca de dois anos, terminando em 2008, quando decidiram desmobilizar depois de ter sido decretada a falência da empresa.

Conclusão

É falso que António Costa tenha ordenado, em 2001, uma carga policial sobre os trabalhadores na Sorefame, na Venda Nova, Amadora. Nessa data, António Costa tutelava a pasta da Justiça e não teria qualquer influência sobre a administração interna. O cargo de ministro da Administração Interna haveria de ser ocupado pelo atual primeiro-ministro em 2005, já no governo de José Sócrates e, dois anos mais tarde, viu-se envolvido na polémica relativa a uma carga policial também numa empresa da Amadora, mas na construtora Pereira da Costa.

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