A farmacêutica AstraZeneca tem sido alvo de inúmeras notícias falsas, em parte devido ao desenvolvimento da vacina contra a Covid-19. Este mês, começou a circular nas redes sociais a teoria de que “AstraZeneca”, quando escrito como “A stra ze neca”, significava “um caminho para a morte” em latim. A tese foi partilhada em várias redes sociais, somando gostos e partilhas.
De facto, o Observador testou o Google Tradutor e este oferece como resultado “um caminho para a morte” ao pedir para traduzir “A stra ze neca”, na opção de língua “latim” para português.
No entanto, trata-se de uma falha do tradutor do motor de busca. Algo que, de resto, não é incomum no Google Translate. A própria Google avisa os utilizadores de que a aplicação não deve ser considerada um substituto dos tradutores humanos. A empresa disponibiliza até uma declaração em que “renuncia a todas as garantias expressas ou implícitas relacionadas às traduções, incluindo quaisquer garantias de correção, confiabilidade e quaisquer garantias implícitas de comercialidade, adequação a uma finalidade específica e legalidade”.
Isto porque “A stra ze neca” não é sequer uma expressão em latim. Ao Observador, Marco Neves, professor na NOVA FCSH e investigador no CETAPS na área das línguas e tradução, explica que “a expressão não faz sentido nenhum em latim”. O autor do programa Português Suave, na Rádio Observador, explica: “Nem ‘stra’ nem ‘ze’ são palavras latinas, tanto quanto sei. É, para usar uma expressão inglesa, gibberish“.
Além disso, é conhecida a origem do nome AstraZeneca. Resultou da fusão, em 1999, de duas empresas, a Astra AB e o Zeneca Group. A informação consta na página oficial da empresa. Aliás, em outubro de 2019, a AstraZeneca publicou um post sobre as origens do nome na rede social X, referindo que enquanto “Astra” significava “estrela”, “Zeneca” era um nome inventado.
"Zeneca" is an invented name, created by an agency instructed to find a name which began with a letter from either the top or bottom of the alphabet and was phonetically memorable, of no more than three syllables and did not have an offensive meaning in any language.
— AstraZeneca (@AstraZeneca) October 17, 2019
Por fim, a tese que prolifera nas redes e fóruns online tem como ideia subjacente a de que as vacinas — e a da AstraZeneca, em particular — matam. No entanto, não há nenhum estudo que o mostre, como, de resto, o Observador já desmontou em diversos artigos de verificação de factos: aqui e aqui, por exemplo.
É verdade que em fevereiro de 2021 Portugal desaconselhou a administração da vacina da AstraZeneca a maiores de 65 anos e, em abril, a Direcção-Geral da Saúde viria a recomendá-la só a maiores de 60 anos — uma decisão que surgiu depois de a Agência Europeia de Medicamentos ter admitido a existência de uma ligação entre esta vacina e casos raros de tromboembolismo associado a baixa acentuada de plaquetas. Foi pelo “princípio da precaução” que as autoridades de saúde portuguesas decidiram fazê-lo, suspendendo assim a imunização da população mais jovem com esta vacina. Ainda assim, nenhum estudo relacionou a vacina com mortes e a Organização Mundial de Saúde chegou mesmo a pronunciar-se, em abril de 2021, dizendo que os benefícios da vacina da AstraZeneca superam os riscos.
Conclusão
Tanto especialistas em linguística como a própria empresa desmentem a informação que está a ser veiculada nas redes sociais. Estudos científicos não apontam relação entre toma da vacina e mortes.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ENGANADOR
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.