Um vídeo que circula nas redes sociais, e que tem já um grande alcance junto dos internautas, alega que a maior biofábrica de wolbachia do mundo, construída no Brasil, se destina a modificar o ambiental e criar uma “engenharia ambiental em massa”.
“A narrativa oficial diz: ‘estamos a combater a dengue, o zika e o chikungunya’. Mas o que estão mesmo a fazer é modificar geneticamente o ambiente inteiro”, defende o vídeo, publicado na rede social Instagram. Em causa está a construção de uma grande biofábrica no estado brasileiro do Paraná. A infraestrutura foi inaugurada pelo ministro brasileiro da Saúde, Alexandre Padilha, a 19 de julho, na cidade de Curitiba, a capital daquele estado.
A biofábrica serve para produzir mosquitos infetados com Wolbachia, uma bactéria que bloqueia o desenvolvimento dos vírus na espécie de mosquitos Aedes aegypti, impedindo a transmissão desses vírus. O Aedes aegypti é responsável pela transmissão de doenças infecciosas como a dengue, chikungunya e o zika. Estas doenças matam todos os anos várias centenas de pessoas no Brasil. No ano passado, só a dengue foi responsável por 504 mortes naquele país, segundo a Folha de São Paulo.
Há anos que o Brasil injeta propositadamente a bactéria wolbachia nestes mosquitos para tentar reduzir a transmissibilidade destas doenças infecciosas, mas tem-no feito numa escala insuficiente. Estes mosquitos modificados eram produzidos numa biofábrica da Fundação Oswaldo Cruz (um organismo do Ministério da Saúde do Brasil), no Rio de Janeiro. No entanto, a nova biofábrica no Paraná vai permitir ampliar muito a produção, e terá capacidade para produzir “100 milhões de ovos por semana“, segundo o Ministério da Saúde.
“O alcance, que antes era de cerca de 5 milhões de pessoas, saltará para 140 milhões em aproximadamente 40 municípios com as maiores incidências da doença nos últimos anos. Essa iniciativa posiciona o Brasil como referência global no controle das arboviroses, com a tecnologia já adotada em 14 países”, destaca o Governo brasileiro.
No entanto, no vídeo que circula no Instagram, reina o ceticismo sobre o uso da wolbachia. “Eles infetam os mosquitos com uma bactéria chamada wolbachia. Esta bactéria impede que o mosquito transmita vírus. Pelo menos é isso que dizem. Depois libertam esses mosquitos modificados para se cruzarem com os selvagens e espalharem essa alteração por toda a população. Soa bonito não soa? Mas há um problema. Primeiro, wolbachia não é algo natural, é uma tecnologia usada em contextos militares para manipular a reprodução e o comportamento de espécies. Segundo, libertar milhões de mosquitos alterados não é inocente. É engenharia ambiental em massa”, defende a publicação, que alerta que a libertação desses mosquitos no meio ambiente pode constituir uma ameaça para as populações.
“Se esses mosquitos alterados se espalharem e se cruzarem com os selvagens, crias uma nova geração que ninguém controla. O processo é irreversível e se essa alteração for maliciosa ou se for ativada no futuro, já estará espalhada por toda a cidade. Conclusão: estão a usar o mosquito como um cavalo de Troia genético”, defende o vídeo.
Alegações que o professor especialista em medicina tropical Tiago Correia considera não fazerem sentido. “A alegação de que a biofábrica tem como objetivo modificar geneticamente o ambiente ou criar uma nova geração de mosquitos incontrolável não é correta”, diz o especialista ao Observador, sublinhando que o método usado pelas autoridades brasileiras para controlar a transmissão de determinadas doenças é comprovadamente eficaz e não tem riscos. “Este é um método baseado em evidência científica, com resultados positivos na redução de doenças transmitidas por mosquitos e sem riscos conhecidos para a população ou para o ambiente”, destaca o professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.
“O método foi avaliado e aprovado por autoridades brasileiras e internacionais. Está a ser aplicado noutras cidades brasileiras sem registo de efeitos adversos. A Wolbachia não infecta seres humanos nem altera o ecossistema de forma descontrolada“, garante Tiago Correia, explicando que “o objetivo é produzir e libertar mosquitos com Wolbachia para que se propague naturalmente na população local de mosquitos, reduzindo assim a capacidade de transmissão de doenças”.
O vídeo alega ainda que a biofábrica do Paraná segue o modelo de uma fábrica da empresa Oxitec, que recebeu financiamento do empresário norte-americano Bill Gates. A associação entre Gates e projetos de modificação laboratorial de mosquitos mal sucedidos já é antiga mas nunca foi provada.
Conclusão
A maior biofábrica de wolbachia do mundo, inaugurada no Brasil, não pretende modificar geneticamente o ambiente nem representa perigo para a população, diz o professor Tiago Correia, especialista em Medicina Tropical, sublinhando que a injeção da bactéria wolbachia em mosquitos para enfraquecer a transmissibilidade de doenças “é um método baseado em evidência científica, com resultados positivos” e não representa riscos para as pessoas ou para o ambiente.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.