Várias publicações partilhadas no Facebook alegam que o Burkina Faso, uma antiga colónia francesa, prendeu uma espia francesa que estava no país para recolher informações militares secretas. A mulher estaria no país em trabalho, como responsável de uma Organização Não Governamental, mas o cargo não seria mais do que uma fachada para esconder o verdadeiro propósito: espiar para os países ocidentais e para a NATO.

“A espia por trás da ONG no Burkina Faso, Claire Dubois, uma mulher francesa na casa dos 30 anos, chegou ao Burkina Faso fazendo-se passar pela diretora de uma ONG ocidental chamada Hope Forward, que afirmava apoiar a educação de meninas e a saúde das mulheres”, pode ler-se numa das publicações, que acrescenta que “Dubois estava envolvida em espionagem” reunindo “informações sobre locais militares, incluindo centros de treino militar, instalações de petróleo e postos de monitorização de drones, sob o disfarce de trabalho humanitário”.

A publicação alega ainda que a mulher foi detida e os seus crimes expostos publicamente, num evento em que surgiu ao lado do presidente do Burkina Faso, Ibrahim Traoré. Numa imagem que acompanha a publicação, pode ver-se o que parece ser Claire Dubois a pedir perdão ladeada pelo atual presidente do Burkina Faso. Será tudo isto verdade?

O Burkina Faso foi uma colónia francesa durante mais de 60 anos, entre 1898 e 1960 — ano em que se tornou independente. Depois de alguma instabilidade política nos anos 80, período no qual tiveram lugar vários golpes militares, foi eleito em 1991 o presidente Blaise Compaoré que se manteve no cargo até 2014. Desde aí o Burkina Faso voltou a mergulhar no caos político, com vários golpes militares sucessivos. O último bem sucedido, no final de 2022, levou ao poder o atual presidente, Ibrahim Traoré. Desde que assumiu o cargo, assumiu uma postura autoritária, recusando-se a convocar eleições, e aproximou-se da esfera da influência da Rússia (tal como outros países da região), afastando-se do Ocidente e particularmente de França, antiga potência colonizadora.

Suspeita-se que Traoré tenha ligações profundas ao grupo paramilitar Wagner, que tem nas suas fileiras centenas de mercenários russos. A aproximação do Burkina Faso a Moscovo poderia, em teoria, justificar as alegadas atividades de espionagem de Claire Dubois.

Mas não existe qualquer evidência de que qualquer responsável de uma ONG tenha sido acusado de espiar para o Ocidente no Burkina Faso. Aliás, o vídeo original que difundia a história foi publicado no YouTube (e entretanto apagado) com a indicação de que se tratava de um conteúdo ficcionado e não real.

A imagem que surge na publicação de Facebook aqui analisada foi gerada com recurso a Inteligência Artificial (IA), como confirma o site Decopy.ai, de deteção de conteúdos gerados por IA.

É no entanto verdade que o Burkina Faso tem feito algumas detenções nos últimos anos por alegada espionagem. Quatro agentes dos serviços  franceses foram libertados em dezembro de 2024 depois de serem ficado detido durante um ano na capital burquinense, Ouagadougou, acusados de espionagem, segundo a Euronews. Outros três diplomatas franceses também foram expulsos do país em abril do ano passado, acusados dos mesmos crimes.

Conclusão

É falso que o Burkina Faso tenha exposto e detido a diretora de uma ONG humanitária francesa sob acusações de espionagem. Não há nenhuma evidência de que tal tenha acontecido, não houve nenhuma declaração oficial nesse sentido por parte do governo daquele país africano e a imagem que acompanha as publicações (com a francesa Claire Bubois a pedir perdão ao lado do presidente do Burkina Faso) não é verdadeira e foi gerada com recurso a IA.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

IFCN Badge