As redes sociais são o lugar onde qualquer pessoa pode partilhar o que quiser, tal como alegadas citações de figuras históricas. No passado dia 8 de março surgiu uma publicação de Facebook que citava Marco Túlio Cícero, senador romano: “O orçamento deve ser equilibrado, o tesouro público deve ser reposto, a dívida pública deve ser reduzida, a arrogância dos funcionários públicos deve ser moderada e controlada, a ajuda a outros países deve ser eliminada, para que Roma não vá à falência. As pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver às custas do Estado.” Trata-se, no entanto, de uma publicação errada.

Frase erradamente atribuída ao político e filósofo romano Cícero.

O texto foi supostamente escrito no ano 55 a.C e é atribuído ao filósofo e político Marco Túlio Cícero (106 a 43 a.C). Não há mais nenhuma informação adicional que permita perceber se estamos perante uma afirmação verdadeira, nem tão pouco que já tenha “2067 anos”. E, de facto, a frase existe, mas não foi dita por Cícero, tal como explica o fact-checker espanhol Maldita.

Pode, sim, ser encontrada no livro de ficção de Taylor Caldwell (“O Pilar de Ferro” de 1965), onde se refere que não foi o antigo senador romano a proferi-la. “A citação não pode ser encontrada nos trabalhos de Cícero e parece surgir nesta publicação baseada na sua vida”, garante o motor de busca de citações da Oxford, que partilhou a frase mencionada.

Por outro lado, esta frase também foi proferida em 1968, pela mão de Otto Passman, congressista norte-americano, pelo estado de Louisiana, que a citou num discurso, atribuindo-a a Cícero (58 a.C, ligeiramente antes da data anunciada pela publicação). Esse discurso ficou registado e está disponível na internet, sendo possível comprovar a sua veracidade.

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Quanto ao Quote Investigator, um arquivo virtual que permite identificar determinadas citações, também não encontra resultados que comprovem que a citação pertence a Cícero. Além disso, O Maldita.es escutou o historiador André Nadal, que afirmou que o político romano “nunca disse aquela frase”. Não surge, portanto, na sua obra.

Já o fact-checker norte-americano Snopes refere, num artigo de 2013, que apesar de esta citação já ter sido usada diversas vezes por políticos para defender políticas fiscais conservadoras no último meio século, como o caso de Otto Passman, ela não pertence ao filósofo romano. Estas palavras, que têm percorrido as redes sociais, também já surgiram numa carta de um leitor ao jornal Chicago Tribune, como refere o Snopes.

Também é importante destacar outro aspeto, tal como descrito pelo Snopes: no próprio livro de Caldwell, a frase não surge atribuída diretamente a Cícero. Surge, em jeito de resumo da visão política do filósofo romano, num diálogo imaginado entre Cícero e  Gaius Antonius Hybrida.

E algumas palavras foram alteradas ao longo do tempo noutras publicações: “mobs” (multidão”) para “people” (“pessoas”) ou  “lest Rome become bankrupt” (“para que Roma não se torne corrupta”) para “lest Rome fall”  (“para que Roma não caia”), entre outras.

Segundo um artigo do Canal História sobre a “decapitação brutal” de Cícero, o filósofo romano terá morrido a 7 de dezembro de 43 a.C. Uma data bastante diferente da que é anunciada pela publicação original. Mais um dado que acaba por induzir os utilizadores em erro.

Conclusão

Não é verdade que Marco Túlio Cícero tenha dito que “as pessoas devem novamente aprender a trabalhar em vez de viver às custas do Estado”. Essa frase pode ser encontrada num livro de ficção de Taylor Cadwell ( “O Pilar de Ferro” de 1965). O motor de busca da Oxford, que refere o livro, garante que esta frase não foi proferida pelo político e filósofo romano. Outro motor, o Quote Investigator, também confirma que não há registo que Cícero tenha, de facto, proferido aquelas palavras. Vários fact-checkers internacionais, como o Maldita.es ou o Snopes, desmentiram esta publicação, que já circula nas redes sociais pelo menos desde 2013.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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