Várias publicações partilhadas em redes sociais como o Facebook, o Instagram e o X alegam que François Faivre, um cirurgião de 58 anos residente em Paris, terá morrido no final de junho quando se preparava para revelar tudo sobre uma suposta operação de mudança de género feita pela primeira-dama de França, Brigitte Macron. É também adiantado que a morte terá ocorrido com Faivre a cair de um quarto andar de um prédio no 12.º arrondissement de Paris.
As diferentes publicações parecem todas remeter direta ou indiretamente para um artigo originalmente publicado a 1 de julho no site Enquête du jour, que citava uma suposta irmã de Faivre, Anne Dupont, e que incluía uma peça de vídeo de um minuto e meio.
No voz-off dessa peça, ouve-se que “a irmã de François Faivre, Anne Dupont, afirma que ele não era suicida e que a sua morte está provavelmente relacionada com a entrevista que ia dar. Segundo a sra. Dupont, o seu irmão era colega do famoso médico Patrick Bui. François Faivre tinha prometido aos jornalistas que iria esclarecer as polémicas intervenções cirúrgicas de Brigitte Macron”. Além disso, surgem imagens de um homem que supostamente seria Faivre a dar uma entrevista à revista Closer, dizendo ter na sua posse “muita informação sob a forma de notas e cópias de registos médicos”.
Semanas depois de a notícia se ter tornado viral, a informação parece ter surgido na sequência de uma série de campanhas de desinformação a acusar Brigitte Macron de ter nascido homem que tiveram início em 2021, mas que se agudizaram com conteúdos produzidos pela comentadora e conspiracionista conservadora norte-americana Candance Owens.
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Neste caso em concreto, a notícia parece ter sido fabricada recorrendo a um misto de pessoas e dados reais com deturpação de informação e até deepfakes gerados com recurso a inteligência artificial, sendo possível detetar uma série de incongruências ou de circunstâncias suspeitas à volta do meio de comunicação que avançou a notícia.
Entre os vários dados que apontam a falsidade destas informações, um dos mais notórios é o facto de não existir qualquer registo de um médico chamado François Faivre a exercer no Hospital Americano de Paris, como confirma uma investigação feita pela agência France-Press, que contactou esse mesmo estabelecimento de saúde — ao contrário de Patrick Bui, que surge no website desse hospital como um médico com especialidade em “cirurgia plástica, reconstrutiva e estética”.
Num outro trabalho em paralelo, a Franceinfo diz ter encontrado vários profissionais de saúde chamados François Faivre, mas nenhum deles a residir ou sequer a exercer em Paris. Existe, de facto, um cirurgião estético a operar na capital francesa com um nome semelhante, mas chama-se Jean Marie Faivre.
Outro fator altamente dúbio centra-se no site em que surgiu a notícia, o Enquête du Jour, que se auto-descrevia como “um meio de comunicação independente dedicado à atualidade em França”. Ora, não só o site já se encontra desativado — apenas é possível consultar páginas arquivadas através da Wayback Machine, inclusive a do artigo—, como, de acordo com a plataforma Who.is, o seu domínio foi registado a 25 de junho de 2025, ou seja, uma semana antes de a história ter sido publicada. Além disso, a morada de registo nem sequer se encontra em França, mas em Wilmington, cidade do estado do Delaware, nos EUA.
Mais suspeito ainda é o facto de o artigo ter sido atribuído a Audrey Parmentier, uma jornalista freelancer que colabora com o jornal Le Monde e com o StreetPress, um site de jornalismo de investigação com uma linha editorial assumidamente de esquerda. Parmentier já veio confirmar que a sua identidade foi usurpada para a publicação do artigo sobre François Favre no Enquête du Jour.
“É muito chocante. Descobri que tenho escrito para estes falsos meios de comunicação social desde março. É muito perturbador ver a nossa fotografia, nome e apelido associados a artigos de conspiração. Sou jornalista, não tenho absolutamente nada a ver com estes conteúdos”, reagiu à AFP. De resto, a mesma agência descobriu que outros cinco jornalistas também tiveram a sua identidade usurpada para a publicação de notícias no Enquête du Jour.
O vídeo de um minuto e meio — que continua a circular nas redes sociais — também contém uma série de conteúdos manipulados e/ou suspeitos. Este começa com imagens de camiões dos bombeiros e carros da polícia estacionados junto a um prédio parisiense, que teria sido o local da morte do suposto cirurgião. Estas, no entanto, foram captadas a 14 de outubro de 2022, junto à Porte de Vincennes, por ocasião da morte de uma criança de 12 anos.
No vídeo surgem então imagens de uma mulher a falar, identificada como Anne Dupont. sob um fundo preto. A sua voz não se ouve, substituída pela voz-off de um homem acima descrita. Como aponta a AFP, não é possível, através de uma procura reversa de imagens, encontrar uma pegada digital desta mulher, mas a imagem parece ter sido manipulada, com os olhos a revelar um comportamento pouco natural.
De seguida, aparece um homem identificado como François Faivre, num excerto da sua suposta entrevista à revista Closer. Não só o editor-chefe deste meio de comunicação nega que algum dos seus jornalistas tenha alguma vez entrevistado François Faivre, como as imagens deste médico também parecem ter sido concebidas com recurso a Inteligência Artificial que deram origam ao deepfake. Em causa está o facto de ao longo de toda a sequência, Faivre não piscar uma única vez os olhos, a sua pele facial surgir extremamente brilhante e artificial e os certificados que se encontram atrás de si terem frases incompletas.
Conclusão
Não existe qualquer prova de que tenha existido um cirurgião chamado François Faivre a ter conhecimento de supostas intervenções de mudança de género à Brigitte Macron. O site onde esta informação foi propagada não só recorreu à usurpação de identidade de jornalistas para publicar este tipo de artigos falsos, como foi criado uma semana antes de difundir estas informações. Tal como noutros casos que visaram a primeira-dama francesa, este conteúdo será fruto de uma campanha de desinformação.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.