Desde que foi reeleito Presidente dos EUA, Donald Trump não tem escondido que um dos seus maiores desejos enquanto incumbente na Casa Branca é ser laureado com o Prémio Nobel da Paz, igualando assim os feitos dos seus antecessores Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson, Jimmy Carter e Barack Obama. Para tal, tem feito uso da sua posição privilegiada como líder de uma superpotência para tentar pôr fim a vários conflitos armados, entre os quais a guerra entre a Ucrânia e a Rússia e o conflito na Faixa de Gaza.

Seria então, à partida, um gigantesco balde de água fria para as aspirações de Trump um anúncio de que o Comité do Nobel teria removido o seu nome para consideração a vencer o prémio, como vários utilizadores partilharam em diversas redes sociais ao longo do mês de agosto.

Várias das publicações apresentam ora um cartoon satírico de Trump com a bandeira russa atrás (enquanto os supostos membros do Comité do Nobel se riem), ora uma imagem de grafismo mais sóbrio, onde até surge o endereço oficial dos prémios — nobelprize.org — a parecer conferir alguma legitimidade. Em todas as publicações parece surgir a mesma frase em inglês: “O Comité do Nobel retira discretamente Trump da lista de candidatos ao Prémio Nobel da Paz.”

Nalgumas publicações, é inclusive explicado o porquê da alegada decisão: “Citando violações das normas internacionais e processos criminais em andamento, o Comité retirou a nomeação”, lê-se. Esta decisão, contudo, nunca existiu, sendo estas publicações um exemplo de informação falsa.

Consultando o regulamento disponível no site oficial dos Prémios Nobel, é possível verificar que qualquer pessoa ou organização pode ser nomeada para o Prémio Nobel da Paz, mas apenas um grupo seleto de pessoas pode propôr nomeações, tendo de cumprir critérios específicos como ser um chefe de Estado em funções ou fazer parte do Tribunal Internacional de Justiça. Este ano, por exemplo, soube-se publicamente que Trump foi nomeado a esta distinção por Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, e Hun Manet, primeiro-ministro do Camboja.

A grande “obsessão” de Trump? Ganhar o Prémio Nobel da Paz. De Gaza à Ucrânia, tenta mediar conflitos para impressionar o Comité

No entanto, não só uma nomeação não obriga a que o Comité do Nobel a leve a sério, como não se sabe quem faz parte da lista de nomes a considerar porque esta é mantida sob estrito sigilo. Como é possível ler na secção sobre confidencialidade, “o Comité Nobel não divulga os nomes dos nomeados, nem à imprensa nem aos próprios candidatos. Em certos casos, os nomes dos candidatos aparecem na imprensa.

É ainda explicitado que “essas suposições antecipadas são fruto de pura especulação ou de informações divulgadas pela pessoa ou pessoas por trás da nomeação” — como foi o caso das nomeações de Trump por parte de Netanyahu e Manet. Conforme é explicado nos seus estatutos, o Comité do Nobel apenas levanta o sigilo quanto aos nomeados de determinado ano ao fim de 50 anos após essa decisão — e ainda assim, é apenas em casos excecionais: “O organismo responsável pela atribuição de prémios pode, após devida consideração em cada caso individual, permitir o acesso ao material que serviu de base para a avaliação e decisão relativa a um prémio, para fins de investigação histórica.”

Mesmo que, em teoria, houvesse um intuito de retirar o nome de Donald Trump da lista de nomeados a vencer, isso iria contra as regras da organização, sendo mencionado que:

Não há uma pré-seleção das nomeações antes do prazo final para as nomeações, pelo que o Comité Norueguês do Nobel não tem influência sobre a qualidade das candidaturas. A tarefa do Comité limita-se estritamente a selecionar o melhor candidato (ou candidatos) entre toda a lista de candidaturas. O simples facto de ser nomeado não constitui, portanto, um apoio oficial ou uma honra concedida pelo Comité do Nobel, e não pode ser utilizado para sugerir qualquer afiliação com o Prémio Nobel da Paz ou com as instituições com ele relacionadas.”

Nos últimos meses, somaram-se alguns episódios e intervenções de Trump em relação a este tema. Em junho, desabafou publicamente na sua rede social Truth Social: “Nunca irei conseguir um Prémio Nobel da Paz, faça o que fizer.” Já em agosto, terá feito uma chamada ao ministro das finanças norueguês — a Noruega é onde está instalado o Comité para o Nobel da Paz — para confrontá-lo diretamente com o seu desejo de receber tal distinção, cujo laureado de 2025 será conhecido a 10 de outubro.

Donald Trump lamenta: “Nunca irei conseguir um Prémio Nobel da Paz, faça o que fizer”

Não obstante a pressão exercida pelo Presidente dos EUA, o Comité do Nobel continua a reforçar que não se deixa influenciar, como o secretário do Comité afirmou numa entrevista à Agence France-Presse, a 12 de setembro. “É claro que notamos que há muita atenção dos media em relação a determinados candidatos, mas isso realmente não tem impacto nas discussões que estão a ocorrer junto do comité”, ressalvou Kristian Berg Harpviken.

Conclusão

As publicações que dão conta de que Donald Trump deixou de ser considerado pelo Comité do Nobel para o Prémio Nobel da Paz apresentam informação falsa. Segundo é possível ler nos regulamentos e nos estatutos desta distinção, o Comité do Nobel não veta candidaturas que cumpram os requisitos nem revela publicamente quem são os nomeados, pelo que qualquer informação pública nesse sentido deve ser encarada como fabricada.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook.

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