E se agora se descobrisse que o isolamento social não serviu, afinal, para travar o novo coronavírus? É isso que garante um texto que já se tornou viral no Facebook mas as supostas conclusões atribuídas a um estudo realizado em Espanha — que de facto foi desenvolvido — são falsas. Nada do que está no post é verdadeiro-

Uma das publicações que dá eco a conclusões que não foram aquelas que o estudo efetivamente teve

“O estudo mostrou uma menor incidência de contágio pelo coronavírus entre trabalhadores ativos que estão exercendo sua atividade profissional normalmente e saindo de casa todos os dias”, diz o artigo da página brasileira “Crítica Nacional”.

“Por outro lado”, continua o texto, “esse mesmo estudo constatou que uma incidência maior de casos de covid-19 justamente entre as pessoas que estão confinadas em suas casas, seguindo as determinações de quarentena e de isolamento social”.

Estas afirmações são falsas e não fazem parte da investigação que está, efetivamente, a acontecer em Espanha. O estudo epidemiológico chama-se ENE-Covid19 e é uma parceria entre o Ministério da Saúde, o Instituto de Saúde Carlos III e o Instituto Nacional de Estatística. Está dividido em três fases e o objetivo é perceber como e a que ritmo se propaga o vírus no país. O primeiro relatório preliminar foi divulgado a 13 de maio e revelou que apenas 5% dos espanhóis têm anticorpos — para atingir a imunidade de grupo, seria necessário que cerca de 60% tivessem estado expostos à Covid-19.

Dos 60.983 mil participantes foram recolhidos dados como idade, histórico de doenças crónicas, localidade, área de trabalho, entre outros. Porém, o facto de alguém estar em isolamento em casa ou ter, por exemplo, um trabalho que exige deslocações diárias não foi tido em conta até aqui e também não faz parte das etapas seguintes do estudo.O que os responsáveis pelo ENE-Covid19 admitiram foi que “largos períodos de isolamento também impedem a imunização da sociedade”. No entanto, e tal como aconteceu em Portugal, a decisão de impor uma quarentena destinou-se a “evitar o colapso dos serviços hospitalares ao cortar as vias de transmissão do vírus de forma drástica”, pode ler-se no resumo da conferência de imprensa, onde foi divulgado o relatório preliminar, feito pelo jornal “El Mundo”.

Voltando ao artigo do “Crítica Nacional — que se descreve  como um site que “oferece ao público um conteúdo jornalístico online conservador” —, o texto afirma ainda que “medidas de quarentena e de isolamento, que não devem ser confundidas com medidas de distanciamento social e de prevenção em geral, têm efeito zero sobre a dinâmica de propagação de um vírus” e que “o estudo foi divulgado também pelo Dr. Didier Raoult, médico francês que foi um dos pioneiros no uso da hidroxicloroquina para tratamento precoce de pessoas acometidas pela covid-19”. Nada disto faz parte das conclusões do ENE-Covid19 e a insistência de Raoult em continuar a usar o medicamento tem sido colocada em causa por outros especialistas.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou na segunda-feira, 25 de maio, a suspensão temporária de ensaios clínicos com hidroxicloroquina para combater o novo coronavírus. Tudo porque há estudos que concluem que há uma maior mortalidade associada ao fármaco.

Conclusão

Estudo feito em Espanha com 60 mil pessoas não diz que há mais casos de Covid-19 em pessoas confinadas e menos contágio entre trabalhadores ativos que saem de casa. Estar ou não isolado não é um fator tido em conta em nenhuma das fases do ENE-Covid19. O relatório preliminar revelou que apenas 5% dos espanhóis estiveram expostos ao vírus e, por isso, desenvolveram anticorpos e que o isolamento social impede que se chegue rapidamente a uma imunidade de grupo. Mas também explica que esse afastamento imposto foi uma decisão consciente, tomada para evitar o colapso dos hospitais.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: Este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de factchecking com o Facebook e com base na proliferação de partilhas — associadas a reportes de abusos de vários utilizadores — nos últimos dias.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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