Erros ortográficos, informações médicas sem fundamento, afirmações sem citar qualquer organismo. Esta publicação que anda há meses a percorrer o Facebook tem todas estas características. Um texto longo acompanha uma imagem de Michael Jackson em tronco nu, com a pele cheia de manchas provocadas pelo vitiligo. A fotografia não é a original e foi alterada digitalmente.

“Já parou pra pensar em quantas pessoas você julgou mesmo sem saber oque elas passam ou o porque elas fazem aquilo?” A frase é mesmo esta, com erros e ausência de espaçamento, e dá início a uma explicação sobre a imagem em causa.

“Apôs muitos anos anos de sucesso, Michael Jackson começou a sofrer de uma doença que afeta duramente a pele, doença essa chamada Vitiligo.” Esta parte é a única verdade da publicação. De facto, o cantor pop revelou numa entrevista a Oprah Winfrey em 1993 que sofria da doença e que começou a notar alterações pouco depois de “Thriller”, de 1982. O vitiligo causa despigmentação. Vão aparecendo manchas claras devido à perda de melanócitos da pele.

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Michael Jackson morreu a 25 de junho de 2009 após uma paragem cardio-respiratória e a autópsia confirmou o diagnóstico, constando no relatório a observação de “manchas de áreas de pigmentações clara e escura”.

No entanto, isso não comprova que Jackson “decidiu abandonar o grupo [The Jackson 5, onde atuava com os irmãos] e dar espaço ao tratamento de pele”. O cantor deixou a banda em 1984 para se dedicar à carreira a solo. Por essa altura, já era um fenómeno mundial. Além de “Thriller”, já tinha editado temas como “Billie Jean” e “Beat It”. Não abrandou o ritmo, como parece sugerir a partilha viral.

A única opção, continua o texto, era “usar produtos que fizessem com que as manchas brancas se espalhassem pelo corpo todo uma vez que a pele não voltava à cor normal”. É verdade que existem terapias que permitem suavizar as diferenças de tonalidade da pele — um artigo publicado na revista científica The Lancet chama a atenção para a importância de um tratamento precoce e para o impacto psico-social da doença. Mas chegar à tonalidade branca imaculada que o artista apresentava nos últimos anos não é credível.

Há ainda outra forma de desmontar esta publicação. A foto em causa não é a versão original, foi alterada digitalmente. A verdadeira imagem foi registada pela fotógrafa Lynn Goldsmith em 1981 e pode ser consultada no seu portfólio. No site da “San Francisco Art Exchange”, onde é possível comprar uma impressão, há mais pormenores sobre a sessão fotográfica. Aconteceu “num rooftop, ao pôr do sol, durante uma visita a Boston, no Massachussetts”. Michael Jackson tinha então 23 anos e só no ano seguinte detetaria os primeiros sintomas de vitiligo.

Conclusão

A imagem é falsa, foi alterada digitalmente. É verdade que Michael Jackson sofria de vitiligo, que provoca a despigmentação da pele, mas a versão original foi fotografada em 1981, um ano antes de detetar os primeiros sintomas da doença. A própria descrição da foto, com referências ao percurso de Michael Jackson, contém várias imprecisões e erros.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook

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