Facto: apesar de estar em vigor um dever geral de recolhimento domiciliário, no último sábado, 28 de março, houve filas no acesso à Ponte 25 de Abril no sentido Lisboa-Sul e trânsito junto a outras zonas de praia. O comportamento abusivo de alguns portugueses levou mesmo as autoridades a aconselhar vários automobilistas a voltarem para trás e regressarem a Lisboa e a ameaçar que as medidas poderiam ser apertadas caso o incumprimento se agravasse.

Depois de esta informação se ter tornado pública, começaram a circular nas redes sociais várias fotografias de filas junto às portagens da Ponte 25 de Abril ou na auto-estrada A2, que pretendiam empolar ainda mais o que aconteceu no sábado — apresentavam imagens com filas ainda maiores do que as efetivamente registadas e até em locais onde nem sequer houve fila. É falso, no entanto, que essas fotografias sejam do último sábado e já foram, aliás, tiradas há vários anos.

Uma das publicações partilhadas sugere que os automobilistas que se se dirigiram à ponte são animais e utiliza uma fotografia para denunciar essa falta de civismo. A fotografia é, pelo menos, anterior a 2012.

Uma das publicações partilhadas no sábado utiliza uma fotografia anterior a 2012

A fotografia em causa está creditada à Global Imagens, do grupo do Jornal de Notícias e do Diário de Notícias, e a tem sido utilizada nos últimos anos para ilustrar notícias deste último jornal sobre a Ponte 25 de Abril.

A fotografia foi utilizada, por exemplo, em dezembro de 2016 para ilustrar um artigo que dava conta de que uma mulher atravessou a ponte de pijama. E, já antes disso, embora a fotografia não esteja agora disponível, já tinha sido utilizada para ilustrar uma notícia da agência Lusa, em 2012, que tinha sido publicada no Diário de Notícias para noticiar que os “gases de escape de motores a gasóleo são cancerígenos”. Isto prova que a fotografia foi tirada quase há oito anos. Ou seja: não é do último sábado.

A fotografia utilizada, neste caso, pelo Diário de Notícias a 26 de dezembro de 2016.

Uma outra publicação, também partilhada de forma viral, utiliza uma fotografia falsa de filas da autoestrada que liga Lisboa ao Algarve. A publicação em causa descreve os “anormais” que não respeitam a “quarentena em Portugal“, utilizando uma fotografia de filas na A2, como tantas vezes se vê no verão a caminho do sul. Mais uma vez, não houve filas deste género na A2, mas sim no acesso à ponte (e também aumentadas, em parte, pela própria ação das forças de segurança que fez operações de dissuasão, aconselhando automobilistas a irem para casa).

Publicação que alegadamente mostra fila na A2 durante a quarentena

A fotografia, na verdade, foi tirada no verão de 2016, quando o despiste de uma viatura ligeira provocou mais de 20 quilómetros de fila na Marateca rumo ao sul. Um artigo do site da Rádio Renascença mostra que a fotografia foi tirada (e publicada pela primeira vez) a 10 de junho de 2016, tendo sido utilizado nos anos seguintes como foto de arquivo.

Fotografia associada à quarentena foi, na verdade, tirada em junho de 2016.

Isto não significa, no entanto, que no sábado, 28 de março, não tenham existido abusos e filas de trânsito. Fotografias tiradas pelos jornalistas do Observador em várias zonas de acesso à praia mostram que o fluxo era maior do que o expectável (pelo bom senso e pelas autoridades) em período em que está decretado o estado de emergência e em que está imposto um dever geral de recolhimento.

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A fotogaleria do Observador mostra também que as filas ocorreram, acima de tudo, no acesso à ponte e foram avolumadas por operações da GNR — o que não justifica, no entanto, todo fluxo. Ainda na imagem do fotojornalista do Observador é possível ver que o trânsito na ponte foi muito mais raro do que fora do período de quarentena, como mostra a imagem do tabuleiro da ponte nessa tarde de sábado.

Fotografia do tabuleiro da ponte no sábado, 28 de março. FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Fotografia do tabuleiro da ponte no sábado, 28 de março. FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O Comando da Metropolitano da PSP de Lisboa emitiu um comunicado nesta segunda-feira a informar que  realizou mais de 89 operações policiais em todos os concelhos da área metropolitana de Lisboa. O dispositivo operacional contou com quase 500 agentes das forças de segurança. Das 29 detenções que resultaram destas operações, apenas três foram pelo crime de desobediência. Isso não significa que as pessoas não tenham tido um comportamento abusivo, já que as autoridades estão a optar por uma postura de pedagogia, antes de avançarem com medidas mais coercivas.

A prova de que a PSP está preocupada com o assunto é que promete continuar a “envidar esforços, visando sancionar os comportamentos que violem o quadro extraordinário em vigor, e, em consequência, contribuir para atenuar os efeitos potencialmente negativos e danosos para a saúde pública de todos os cidadãos”.

Voltando às fotografias utilizadas para empolar a situação, não são novidade em tempos do surto de Covid-19. Já na sexta-feira que se seguiu ao governo encerrar as escolas e restringir espaços de diversão noturna circularam fotografias do Cais do Sodré, a mostrar aquela zona da cidade de Lisboa muito mais lotada do que efetivamente tinha estado.

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Conclusão

É verdade que houve filas no acesso à Ponte 25 de Abril no último sábado, 28 de março. Isso mesmo foi reconhecido pelas autoridades. É, no entanto, falso que algumas das fotografias que se tornaram virais e que alegadamente mostravam filas nesse dia — quer junto às portagens da ponte, quer na auto-estrada A2 — correspondem a 28 de março ou sequer ao período de estado de emergência. Uma delas tem quase quatro anos e outra terá mais de oito.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

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