As eleições presidenciais decorreram no passado mês de janeiro e, mesmo depois de Ana Gomes ter saído da agenda mediática, após ter ficado em segundo lugar, as redes sociais continuam a espalhar informações falsas sobre a embaixadora. No passado dia 28 de fevereiro, surgiu uma publicação de Facebook onde se dizia o seguinte: “Interpol disponível para averiguar os rendimentos de Ana Gomes para saber com que dinheiro fez um palácio em zona protegida.” Atingiu as 418 partilhas e foi vista quase 55 mil vezes. Trata-se, no entanto, de uma publicação falsa.

Publicação viral com alegações falsas contra Ana Gomes.

Comecemos por analisar a publicação em si, que contém uma imagem de Ana Gomes a pintar os lábios, com uma legenda associada muito pouco credível. Depois, o autor não apresenta qualquer fonte oficial, notícias ou factos que sustentem a sua afirmação. Ao fazer uma pesquisa na internet, percebe-se que, na verdade, esta publicação tem um título semelhante ao de uma notícia verdadeira, que surgiu depois da revelação da ex-candidata presidencial à RTP: “Europol disponível para investigar Chega após participação de Ana Gomes”. Ainda assim, há ligeiras diferenças, como a confusão entre a Europol — um organismo de investigação criminal que atua na União Europeia — e a Interpol, com sede em Lyon, mas que atua no mundo inteiro. Essa definição consta inclusivamente no site oficial de uma das instituições.

Também é importante esclarecer que, lendo a acusação que é feita na publicação, o caso em questão, que decorre em território português, só poderia ser investigado pelas autoridades portuguesas, como a Polícia Judiciária, sob tutela do Ministério Público.

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A Procuradoria-Geral da República confirmou ao Observador que, depois de “realizadas pesquisas no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, não foi localizado qualquer inquérito”. Ou seja, não há qualquer indício de que Ana Gomes esteja a ser investigada pelos seus rendimentos que lhe terão permitido adquirir um “palácio em zona protegida”. Por outro lado, não existem notícias que coincidam com aquilo que é disseminado nas redes sociais.

Sobre esta propriedade, Ana Gomes esclareceu ao Observador que está “perfeitamente legal”. “Tenho uma casa à venda situada num terreno de 3 mil metros quadrados, uma propriedade destacada numa quinta, com outras casas, que se situa no Parque Natural de Sintra. Comprei com o meu marido e outros amigos em 1994. Perfeitamente legais nessa altura e ainda hoje”, confirmou a antiga eurodeputada.

Essa casa, recuperada entretanto com um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos, foi paga com o que “honestamente” a embaixadora e o seu marido ganharam, ao longo da vida, “como funcionários do Ministério dos Negócios Estrangeiros”. Entretanto, com a morte do marido em julho de 2020, Ana Gomes saiu dessa propriedade, tendo o imóvel ficado à venda por 2 milhões de euros.

Conclusão

Não é verdade que a Interpol se tenha mostrado disponível para investigar Ana Gomes. Consultando as notícias desta semana, percebe-se que o autor decidiu manipular o título de outra notícia: “Europol disponível para investigar Chega após participação de Ana Gomes”.

A publicação confunde as duas instituições: a Europol atua na União Europeia e a Interpol atua no mundo inteiro. Mesmo assim, caso a embaixadora fosse alvo de uma investigação, teria de ser feita pelas autoridades portuguesas. Nesse sentido, o Observador contactou o Ministério Público que negou a existência de qualquer inquérito relacionado com esta matéria.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com a classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

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