O ex-primeiro-ministro José Sócrates argumentou esta quarta-feira, na entrevista que deu à TVI, que não teve uma vida de luxo em Paris financiada por Carlos Santos Silva, mas que esteve apenas a estudar — e que o amigo, pelo contrário, decidiu simplesmente investir na educação do ex-governante socialista.

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O engenheiro Carlos Santos Silva decidiu ajudar-me, financiar-me. Não foi uma vida de luxo, foi um investimento em educação“, afirmou José Sócrates, na primeira entrevista depois de o juiz Ivo Rosa, do Tribunal Central de Instrução Criminal, ter decidido deixar cair 25 dos 31 crimes de que o ex-primeiro-ministro estava acusado no âmbito da “Operação Marquês”, incluindo todos os crimes de corrupção, levando-o a julgamento por branqueamento de capitais e falsificação de documentos.

No verão de 2011, quando deixou o cargo de primeiro-ministro, José Sócrates decidiu ir estudar Filosofia na conceituada universidade parisiense Sciences Po. Viveria em Paris até 2014, ano em que foi detido à chegada ao aeroporto de Lisboa. Só a partir do ano anterior teve atividade profissional conhecida — começou a trabalhar para a Octapharma em 2013 —, mas na sua conta bancária há registos de despesas na ordem de um milhão de euros. Muito desse dinheiro teria chegado ao ex-primeiro-ministro através de Carlos Santos Silva, que o Ministério Público suspeitava ser o testa-de-ferro de Sócrates — ou seja, a figura através do qual chegaria ao ex-governante o dinheiro proveniente da corrupção de outro, como Ricardo Salgado — mas em quem o juiz Ivo Rosa viu, afinal, o verdadeiro corruptor.

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Durante uma parte significativa daquele período, em 2012, José Sócrates viveu numa casa com mais de 230 metros quadrados situada na avenida Président Wilson, ao lado do Museu de Arte Moderna de Paris, no bairro de Passy — um dos lugares mais luxuosos da capital francesa. A casa foi comprada em agosto de 2012 por Carlos Santos Silva por 2,8 milhões de euros, mas foi José Sócrates quem para ali foi viver pouco depois. No verão seguinte, a casa entrou em obras, supervisionadas pelo ex-primeiro-ministro, que terão custado quase meio milhão de euros. Durante o período das obras, o ex-governante arrendou um apartamento para viver com o filho — com uma renda de 455,60 euros por noite.

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Todos estes fatores levaram o Ministério Público a concluir que, apesar de tudo ter sido pago por Carlos Santos Silva, o dinheiro na verdade era de José Sócrates. No entanto, o amigo do ex-primeiro-ministro rejeitou qualquer ligação de Sócrates ao dinheiro — simplesmente, Carlos Santos Silva estava a testar o mercado imobiliário da capital francesa e, vendo o amigo Sócrates a precisar de uma residência, deixou-o ficar ali durante alguns meses. Durante a fase de instrução, o juiz Ivo Rosa também não concordou com a ideia de que Santos Silva era um testa-de-ferro e concluiu que o empresário tinha, afinal, corrompido Sócrates, como primeiro-ministro, para manter um clima de simpatia que lhe era útil aos negócios. As entregas de dinheiro e pagamentos seriam a compensação por isso.

Independentemente das versões da história, uma coisa é certa: durante os anos de Paris, José Sócrates viveu rodeado de luxo, numa casa milionária num dos bairros mais exclusivos da cidade e com despesas quotidianas muito elevadas.

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E há nos documentos do processo “Operação Marquês” outros detalhes que corroboram a vida de luxo de Sócrates em Paris. Dados retirados das contas bancárias de Sócrates mostram um gasto de mais de 9 mil euros só em artigos para a casa na primeira semana na capital francesa, a que se somaram 2.300 euros em livros. O ex-primeiro-ministro viajava para Portugal com frequência em classe executiva, comprou um Mercedes novo e contratou um motorista em Lisboa. Além disso, passava habitualmente quantias elevadas à ex-mulher Sofia Fava (que visitava Paris com frequência) e aos dois filhos (um deles vivia com Sócrates na capital francesa).

Conclusão

Na entrevista à TVI, José Sócrates rejeitou ter tido uma vida de luxo em Paris, justificando os valores que lhe foram entregues por Carlos Santos Silva, bem como o empréstimo do imóvel de luxo, como “um investimento” do amigo na sua educação. É certo que José Sócrates foi, de facto, para Paris com o intuito de estudar. Contudo, é errado declarar que não teve uma vida de luxo. Os valores exorbitantes associados à casa onde viveu e aos gastos que Sócrates teve com a habitação e com o seu quotidiano mostram, de modo claro, que o seu nível de vida não foi o de um qualquer estudante português que segue para o estrangeiro em busca de um curso superior; foi, na realidade, uma época de estudo rodeada de luxo — independentemente das distintas versões sobre qual teria sido o papel de Carlos Santos Silva na história.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

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