O caso do desaparecimento de Madeleine McCann é um mistério que esteve e ainda está na base de muitas especulações. Especialmente em relação a terem sido os pais da criança, de alguma forma, os responsáveis pelo desaparecimento. Exemplo disso é um texto partilhado no dia 2 de janeiro pela página de Facebook do site Notícias Diárias que sugere que há novas provas contra o casal McCann — e que já originou mais de 1,2 mil partilhas.

O texto foi, na verdade, publicado nesse site em fevereiro de 2019, mas refere-se a um telegrama trocado entre os embaixadores do Reino Unido e dos Estados Unidos, em 2007, que já tinha sido noticiado pela comunicação social em 2010. No entanto, o texto do site Notícias Diárias não só não tem qualquer indicação da data em que o telegrama foi escrito, como continuou a ser partilhado nas redes sociais depois disso — gerando a ideia errada de que há nova matéria a levantar suspeitas sobre o casal McCann.

O mais recente texto partilhado pelo site Notícias Diárias na sua página do Facebook

Esse telegrama foi um dos milhares obtidos pelo Wikileaks, mas o único que existia relativo ao caso Maddie, tendo sido divulgado pelo jornal espanhol El País no final de 2010. O documento tinha sido enviado por Alexander Wykeham Ellis, embaixador inglês em Lisboa, ao seu homólogo norte-americano, Alfredo Hoffman, em setembro de 2007 — duas semanas depois de Kate e Gerry McCann terem sido constituídos arguidos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Nele, além de outros temas relacionados com a Rússia, o embaixador revelava que tinha sido a polícia inglesa que se deslocou ao Algarve a encontrar provas contra os pais de Madeleine McCann — que levaram a que fossem considerados suspeitos.

O site escreve que “a confirma-se verdade estas provas [sic], vai fazer correr muita notícia sobre o casal que é suspeito pela morte da filha”. Mas logo quando o telegrama foi divulgado, o procurador-geral da República (PGR) de então, Pinto Monteiro, desvalorizou-o e afastou a hipótese de reabrir o caso contra o casal McCann, arquivado em 2008. Numa nota enviada à imprensa, a PGR dizia que só iria considerar uma reabertura do processo caso surgissem “factos novos, relevantes e credíveis”, que “indiquem indícios criminais”.

Quando o documento foi divulgado, a criança já tinha desaparecido há três anos. Na altura, o casal McCann lamentou que o telegrama tivesse levado “à repetição de muitas alegações infundadas tanto no Reino Unido como particularmente em Portugal”.

 Conclusão

O site Notícias Diárias voltou a partilhar um texto de fevereiro de 2019 que sugere que há novas provas contra o casal McCann. Mas esse texto não é atual: refere-se a um telegrama trocado entre os embaixadores do Reino Unido e dos Estados Unidos em 2007, que foi noticiado pela comunicação social em 2010.

O facto de o texto estar descontextualizado e de continuar a ser partilhado gera a ideia errada de que há nova matéria a levantar suspeitas sobre o casal McCann — o que é errado. Aliás, as provas de que o embaixador falava teriam sido aquelas que levaram a que os pais de Madeleine McCann fossem constituídos arguidos. Essas provas também não terão sido suficientes uma vez que o casal nunca foi acusado formalmente e o caso acabou por ser arquivado pouco mais de um ano depois de a criança ter desaparecido.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: Após a publicação do fact check do Observador, o site Notícias Diárias alterou o original, assumiu o erro e modificou o conteúdo em causa de forma a que passasse a estar factualmente correto.

IFCN Badge