Está a ser amplamente partilhado no Facebook uma publicação onde se lê que Portugal está a ser utilizado como exemplo do combate ao novo coronavírus em países como a Alemanha e os EUA. Porém, esta informação é falsa.

“Estão a dizer nas notícias que Portugal é o país da Europa que está a lidar melhor e da maneira mais inteligente”, lê-se numa publicação que já foi partilhada por mais de 3.700 pessoas.

Exemplo de uma publicação com a mensagem de que Portugal é dado como exemplo

As autoridades de saúde dos EUA e da Alemanha não tem estado a referir-se a Portugal como um exemplo. Em cada um destes países, tal como acontece em Portugal, as autoridades de saúde estão a fazer briefings diários sobre o estado da pandemia de Covid-19, com a informação a manter-se, essencialmente, sobre o que se passa em cada um daqueles países.

Não faria sequer sentido que naqueles dois países Portugal fosse referido como exemplo, já que é um páis que regista números geralmente mais negativos, quando se compara aos EUA ou à Alemanha. Exemplo: Portugal está em 17º lugar na lista dos países com mais mortes por cada milhão de habitantes (os EUA estão em 20º e a Alemanha em 23º) e em 20º lugar quando as contas se fazem ao número de casos diagnosticados por cada milhão de habitantes (com a Alemanha ligeiramente acima, em 19º lugar, e os EUA em 25º).

Dessa forma, não seria de esperar que a imprensa daqueles dois países falasse de Portugal como um exemplo no combate ao novo coronavírus. De uma pesquisa no Google pela imprensa dos dois países também não resulta qualquer notícia que verse sobre isso mesmo. A título de exemplo, olhámos para três jornais em cada um destes países e fizemos uma seleção daquilo que se está a escrever neles sobre Portugal.

Imprensa dos EUA: casas, vinho e coronabonds

No The New York Times, Portugal é mencionado, mas não como aquele post de Facebook indica. A 9 de março, a The New York Times Style Magazine escreveu sobre uma casa na Comporta desenhada por um arquiteto belga; a 14 de março, Portugal era listado como um dos países a partir do qual já não se podia voar para os EUA; a 17 de março, o livro “Esse Cabelo”, da portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida, que foi recentemente traduzido para inglês e publicado nos EUA, mereceu uma recensão daquele jornal; a 27 de março publicou um texto da agência Reuters sobre os lares de terceira idade e o novo coronavírus; e 30 de março, também através da Reuters, deu conta dos dois inspetores do SEF que são suspeitos do homicídio de um ucraniano no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa.

No Washington Post, o mesmo: Portugal é notícia, mas não pela razão que consta na publicação do Facebook. A 18 de março, aquele jornal publica um artigo da agência Bloomberg que refere um estudo feito em parceria por cientistas portugueses, explicando que o vírus está “em grande parte ausente” em zonas de frio polar ou de calor tropical; a 31 de março, Portugal é referido num artigo sobre os coronabonds; e, a 3 de abril, é elogiado algo português, mas não tem nada a ver com o coronavírus — trata-se antes de um vinho rosé, o Rosé Lab 2019, escolhido como a melhor compra da semana neste segmento.

Nem no jornal LusoAmericano, que é publico nos EUA e se dirige à comunidade lusófona, há menções elogiosas ao que se faz no nosso país para combater o coronavírus. Ali, as notícias em torno do novo coronavírus em Portugal têm-se cingido aos números divulgados a cada dia pela Direção-Geral de Saúde.

Imprensa da Alemanha: caravanistas, Cristiano Ronald e Autoeuropa

No Süddeutsche Zeitung, há algumas menções a Portugal nas  notícias dos últimos dias — mas nenhuma a elogiar o caso português ou sequer a analisá-lo. Há uma notícia de 10 de março que dá conta do cancelamento da final da Algarve Cup 2020 de futebol feminino, que contaria com um jogo entre a Alemanha e Itália; uma notícia de 20 de março diz que tanto os Açores como a Madeira interromperam os voos chegados da Alemanha; a 20 de março, lê-se a história de um caravanista alemão que está em Portugal e que conta ficar no país durante os próximos tempos: “Estamos bem, vamos ver como é que isto continua”; e ainda outro de 24 de março que dá conta do donativo feito por Cristiano Ronaldo e o seu empresário, Jorge Mendes, ao Hospital de Santa Maria (Lisboa) e ao Hospital de Santo António (Porto).

No tabloide Bild, as referências a Portugal ou a portugueses também não incluem elogios ao combate ao coronavírus no país. A 26 de março, o Bild publicou um artigo sobre as críticas do ex-presidente da Juventus Giovanni Cobolli Gigli ao português, por este ter saído de Itália durante a crise; a 29 de março, Cristiano Ronaldo voltou a ser notícia, desta vez pelo passeio que deu com dois filhos e a mulher, quebrando o confinamento; também a 29 de março, escreveu sobre a morte de um menor de 14 anos que estava infetado com coronavírus mas que, soube-se mais tarde, não morreu de Covid-19; e a 2 de abril, o Bild deu conta do incidente entre um navio de bandeira portuguesa (mas operado por uma empresa alemã) e uma lancha militar na Venezuela, em águas internacionais ao largo da Ilha de Tortuga.

Nem na imprensa anglófona da Alemanha há menção de um suposto bom exemplo português. Na versão em inglês da Deutsche Welle (DW), estas são algumas das notícias recentemente publicadas sobre o nosso país: uma entrada num liveblog de 28 de março sobre a concessão do estatuto de residentes permanentes até 1 de julho aos migrantes que tivessem pedido até aqui visto; também a 28 de março se escreveu na DW que António Costa disse que os comentário de primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, sobre o coronavírus e alguns países do Sul da Europa eram “completamente ignorantes” — quando, na verdade, os comentários pertenceram ao ministro das Finanças holandês, Wopke Hoekstra; e ainda outro artigo de 1 de abril onde são listadas as várias medidas decretadas pelos países da UE, onde Portugal surge, mas sem destaque.

Além disso, na generalidade da imprensa germânica foi noticiada a interrupção da produção nas fábricas da Volskswagen — sendo, por essa razão, mencionada a fábrica que aquela produtora automóvel tem em Palmela, a Autoeuropa.

Em França houve elogios — mas não só

Porém, em abono da verdade, há um país onde Portugal tem sido referido: França.

Tudo começou a 30 de março, com o jornalista Anthony Bellanger, que assina uma rubrica na rádio France Inter. Ali, referiu-se a Portugal como um “mistério”. Isto porque, apesar de partilhar uma fronteira com Espanha, Portugal tinha, à data, 11 vezes menos mortos em proporção da sua população. O jornalista aventou duas ordens de explicação para o tal “mistério”: a sua localização geográfica e o facto de o surto ter surgido fora da época alta de turismo. Além disso, é referida a “disciplina” dos portugueses e uma “saída” da austeridade “antes de Espanha”, o que o autor diz ter levado a “menos cortes na saúde pública” no nosso país.

Em suma, o autor fala de “um país mais bem preparado”, fazendo-o ainda assim de forma pouco aprofundada. À laia de exemplo, um estudo realizado entre julho de 2010 e julho de 2011 (isto é, as vésperas da chegada da troika, marcados por austeridade também na saúde) chegou à conclusão que já na altura Portugal era o país com menos camas de cuidados intensivos em toda a UE: 4,2 por cada 100 mil habitantes.

Porém, aquela crónica da rádio France Inter levou a que dois outros jornais franceses olhassem para o tema. Foi o caso do Le Parisien e do Le Figaro que, ao contrário do cronista daquela rádio, citam conhecedores da realidade portuguesa nos seus artigos. Ambos os artigos deixaram claro que Portugal não é uma exceção nem um exemplo — e que as autoridades portuguesas esperam um pico de casos entre abril e maio.

Conclusão

É falso que, nos EUA e na Alemanha, Portugal esteja a ser referido como um exemplo ao combate contra o novo coronavírus, seja pelas autoridades de saúde (já que os números em Portugal são relativamente mais negativos do que os que se registam naqueles países) ou pelos media. Isso chegou a acontecer numa rádio francesa mas, decorrente da crónica em que Portugal foi elogiado neste capítulo, dois jornais publicaram artigos em que desmontaram a ideia do “mistério” português.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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