A 3 de maio, surgiram duas publicações no Facebook que tinham como alvo a TVI. Em causa estava uma reportagem transmitida em direto pelo canal de televisão para reportar como estava a ser vivido o primeiro dia de desconfiamento em Lisboa e no Porto. Nas duas publicações, há críticas à estação de televisão, por dar um suposto tratamento diferente à região norte do país, especificamente ao Porto, em detrimento de Lisboa. Estes dois posts alcançaram 1,7 milhões de visualizações. Mas contêm, no entanto, informação enganadora.

Uma das publicações que sugere que a TVI criticou o comportamento no Porto e não o comportamento em Lisboa

Outra apela a todos os nortenhos que deixem de ver a TVI

As duas publicações contêm dois frames (imagens de um vídeo) de duas reportagens filmadas em direto em Lisboa e no Porto. O primeiro frame (de cima), filmando no Porto, é acompanhado do seguinte oráculo: “Alguns ajuntamentos na Ribeira do Porto”, vendo-se, porém, apenas quatro pessoas na imagem. Mais abaixo, temos o frame em Lisboa, com o seguinte oráculo: “Apenas alguns lisboetas aproveitam o dia de sol para passear”, vendo-se, por outro lado, muito mais pessoas do que na imagem de cima. Ainda que à primeira vista pareça haver um tratamento desigual, é preciso olhar para toda a reportagem, e não exclusivamente para estes dois frames. É também preciso escutar o que os repórteres dizem no local, para se entender o contexto e, também, os lapsos.

Para um melhor esclarecimento do que realmente foi descrito, o Observador recorreu à ferramenta da box de televisão para ver o jornal das 13h00 do passado domingo, 3 de maio, onde foram transmitidos estes diretos — às 13h05, a partir de Lisboa, e às 13h11, a partir do Porto.

Comecemos a norte. “Por aqui passeia-se e muito, ao contrário do que percebemos que se está a passar em Lisboa, na cidade do Porto é completamente diferente”, começou por dizer a jornalista, pelas 13h09, junto à ponte D. Luís I, na ribeira. Nessa altura, é possível ler o seguinte oráculo: “Poucas pessoas nas ruas do Porto”, contrariando aquilo que a repórter estava a dizer.

No ínicio do direto, era dada a informação de que havia “poucas pessoas nas ruas do Porto”, até quando se via grupos a desrespeitar as regras de distanciamento social. O oráculo foi alterado só depois quando as imagens mostravam uma zona menos movimentada.

Mais à frente, já com a imagem ampliada, em zoom, verifica-se que existe um grupo de sete pessoas a dançar, e, vários metros atrás, outras pessoas a dar um passeio. “Como podemos ver,  são dezenas das pessoas que, durante o dia de hoje, optaram por fazer desporto ao ar livre. E há quem até meta a música mais alto, a partir de casa e venha para a rua, dançar e aproveitar o bom tempo. Há efetivamente muito mais pessoas na rua, aqui na cidade do Porto, ainda que tenhamos passado, por exemplo, pela zona da Invicta e outras zonas mais turísticas, e aí sim, não se nota tanto a presença de pessoas”, acrescentou a repórter.

Falar em “dezenas” sendo que, na imagem, só se verificam, no máximo, 13 pessoas, é excessivo. Mas durante este discurso da repórter, o oráculo muda, sendo corrigido para o que é descrito na publicação de Facebook inicial, ainda que com uma imagem diferente: “Alguns ajuntamentos junto à Ribeira do Porto”.

Quanto às imagens de Lisboa, o repórter começa por descrever a situação junto ao rio Tejo, na zona de Belém, por volta das 13h05. “Quando chegamos, há cerca de uma hora, estava muito mais gente do que agora, disfarçando um pouco, uma vez que é hora de almoço. Mas o bom tempo está a convidar muitas pessoas a estar aqui na rua, a passear, a fazer o seu passeio higiénico, e como é Dia da Mãe, é uma oportunidade de as famílias saírem. Aqui foram quebradas barreiras físicas, colocadas pela PSP, com fitas, as pessoas contornam essas barreiras”, comenta o repórter.

Na imagem é visível um número de pessoas superior ao verificado no Porto e o relato do repórter condiz com as imagens transmitidas. O mesmo não acontece com o oráculo inicial, que tem a seguinte descrição: “Ruas da capital praticamente vazias”.

Ou seja, o que está escrito não é igual ao que é dito pelo repórter nem tão pouco ao que é visível nas imagens. Entretanto, o oráculo, enquanto o repórter fala, muda para: “Apenas alguns lisboetas aproveitam o dia de sol para passear”, o que está em linha com o que é visto. Contudo, mais no fim da reportagem, o repórter acrescenta que o retrato que faz naquele momento “é bem diferente” do que foi visto de manhã. “Lisboa acordou deserta, com muito poucas pessoas, a cumprir o distanciamento social”. Já “o cenário” que víamos naquelas imagens era “bem diferente. Ou seja, o primeiro oráculo que vimos está mais relacionado com o que o repórter diz no fim da reportagem, referindo-se à parte da manhã.

Além disso, uma dos motivos da indignação é o facto do oráculo dizer “apenas algumas pessoas”, mas, dois minutos após começar o direto — para ficar conforme com o que o jornalista estava a dizer — foi retirado o “apenas” do oráculo.

Ainda durante o direto a TVI retificou o oráculo e retirou a palavra “apenas”. Mas a publicação ignora esse facto.

No fundo, ainda que existam lapsos nos oráculos, depois corrigidos, a única falha possível é a da repórter do Porto quando utiliza a expressão “ao contrário de Lisboa”, alegando que estavam mais pessoas na rua no Porto do que em Lisboa, o que não é verdade, segundo as imagens transmitidas àquela hora.

Também é importante destacar o facto de os frames utilizados nas publicações de Facebook não retratarem, de forma completa e verídica, o conteúdo das duas reportagens. Escolhem pelo contrário, aliás, os frames em que há erros no oráculo e aqueles em que há mais pessoas em Lisboa e menos pessoas no Porto.

É necessário relembrar que já não é a primeira vez que a TVI é visada em publicações nas redes sociais por causa de conflitos entre o norte e a capital do país. No passado mês de abril, a estação de Queluz fez uma reportagem onde apontava, através do oráculo, que uma das razões para existirem mais infetados por Covid-19 a norte era o facto de haver “uma população menos educada, mais pobre, envelhecida e concentrada em lares”. Tanto o diretor de informação, Sérgio Figueiredo, como o pivô José Alberto Carvalho, apresentaram um pedido de desculpas.

Conclusão

A4 de maio, duas publicações de Facebook davam conta de um suposto tratamento noticioso diferenciado, feito numa reportagem da TVI, que transmitiu imagens em direto entre Lisboa e o Porto. Ao verificar as imagens das duas reportagens, emitidas naquele que foi o primeiro dia do Estado de Calamidade, é possível perceber que ambos os oráculos foram corrigidos durante a emissão da reportagem. No entanto, a repórter do Porto alega que estavam mais pessoas na cidade Invicta “ao contrário de Lisboa”, o que não se verifica nas imagens. É ainda importante dizer que as duas publicações de Facebook utilizaram frames específicos — mais favoráveis à tese de discriminação por parte da TVI — desprezando toda a reportagem e também a descrição, em voz off, dos repórteres, o que dá aso a leituras enviesadas e enganadoras. Os oráculos não coincidiam com o que estava a ser dito e mostrado pelos jornalistas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ENGANADOR

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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