Uma publicação no Facebook alega que uma famosa imagem de Jesus Cristo, que mostra um homem jovem de longos cabelos loiros e olhos verdes, será, na verdade, um retrato de Tommaso dei Cavalieri, da autoria de Miguel Ângelo Buonarroti. Segundo o post, Cavalieri seria discípulo de Miguel Ângelo e seu amante. Por essa razão, o artista decidiu “imortalizá-lo através do retrato que hoje conhecemos. Desde então os católicos vêm adorando a imagem de um homossexual”. Será que esta história tem algum fundamento? Será Cavalieri o rosto de Jesus Cristo? Primeiro é preciso perceber quem foi Tommaso dei Cavalieri e se, de facto, tinha alguma relação com o célebre artista renascentista.

Tommaso dei Cavalieri era um nobre italiano que Miguel Ângelo conheceu no verão de 1532. De acordo com a investigadora Maria Ruvolt, autora de um artigo sobre ele, Cavalieri foi uma importante figura na sociedade de Roma, de onde era originário. Colecionador de antiguidades, desenhos e outros trabalhos artísticos, por volta de 1540 tinha já ocupado vários cargos públicos importantes, tendo servido como conselheiro de papas e cardeais em questões artísticas. Após ter travado conhecimento com o pintor da Capela Sistina, tornou-se num dos seus amigos mais próximos. Miguel Ângelo teria por ele uma paixão desmedida, tendo-lhe dedicado uma série de desenhos entre 1532 e 1533, e poemas.

A publicação que está a ser partilhada nas redes sociais

Os desenhos, que incluem, por exemplo, Cleópatra e O Castigo de Tício, tratam temas mitológicos, uma escolha que Mary D. Garrard considerou dever-se ao facto de, na altura, Cavalieri ser um aspirante a artista e também um “admirador e colecionador de arte antiga”. Nenhuma das obras que se sabe terem sido oferecidas, ou que se especula terem sido oferecidas por Miguel Ângelo ao jovem romano, inclui um retrato de Jesus Cristo.

Apesar de ser mais ou menos ponto assente que o artista tinha uma paixão por Cavalieri, 30 anos mais novo do que ele, não existe nenhum indício de que os dois terão sido amantes. Não existe, aliás, qualquer indício de que Cavalieri fosse homossexual. O nobre casou-se em 1544 com Lavinia della Vale, com quem teve dois filhos: Emilio, que viria a ser um músico e compositor famoso no seu tempo, e Mario. Miguel Ângelo, que seria homossexual, nunca casou e não deixou descendência.

Em relação à imagem que está a ser partilhada nas redes sociais, além de ser óbvio pelas suas características formais que não se trata de uma obra renascentista, ou seja, contemporânea de Miguel Ângelo e de Tommaso dei Cavalieri, esta é uma de muitas versões do “Jesus da Divina Misericórdia”, uma representação de Jesus Cristo que só surgiu no século XX, ou seja, quatro séculos depois de os dois italianos terem vivido. Considera-se que a primeira versão desta representação de Jesus foi pintada em 1934, pelo artista polaco Eugeniusz Kazimirowski. Kazimirowski executou a pintura a pedido do padre Michael Sopoćko com base nas visões de Faustina Kowalska, uma freira originária de Varsóvia, que foi canonizada em 2000.

A obra retrata Cristo como um homem branco de longos cabelos louros, barba e olhos claros — tal como a imagem da publicação no Facebook — mas Kazimirowski não terá sido o primeiro a fazê-lo. Segundo o site de fact check E-farsas, que dá conta da partilha de um conteúdo semelhante nas redes sociais brasileiras pelo menos desde 2018, esta tradição pictórica remontará ao século XV, embora possam ser encontrados alguns exemplos anteriores que, como vários estudos científicos procuraram demonstrar, não corresponderão àquela que terá sido a verdadeira aparência de Jesus. Em 2001, o antropólogo forense Richard Neave, especialista em reconstrução facial, criou um modelo de galileu do tempo de Jesus, com base num crânio encontrado na região, que mostra bem como seriam os homens daquele tempo.

Conclusão

Não existe nenhuma ligação entre a imagem partilhada no Facebook e as obras de Miguel Ângelo. Não existe também qualquer evidência de que o artista tenha desenhado Jesus Cristo com o rosto de Tommaso dei Cavalieri, figura importante da sociedade romana por quem tinha, de facto, uma grande paixão.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

De acordo com o sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact-checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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