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A “surpresa” de ter um enfarte aos 40 anos e a nossa secção dedicada à principal causa de morte em Portugal

18 mar. 2024, 16:06
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segunda, 18 mar. 2024
Fotografia de Cláudia Pinto
Cláudia Pinto
Foto da Newsletter

“Tenha calma, o senhor está a ter um enfarte e vai ter de ser transferido.” Foi assim que Ruben Obadia recebeu o diagnóstico de enfarte agudo do miocárdio, aos 43 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, depois de um jantar com antigos colegas de faculdade e de ter contactado o 112.

Primeiro, pensou que ia morrer. Depois, perante o choque, veio a surpresa: “Pensava que era uma coisa que nos dava, acontece e já está”, explica num testemunho em vídeo na rubrica “Quando a minha vida mudou”, que faz parte do Arterial, a nova secção do Observador totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares. “De repente, apercebi-me que ‘a coisa’ ainda não tinha terminado”.

“O corpo não se comporta da maneira que nós esperamos que se comporte. Falha-nos. Eu fui traído pelo meu corpo”, diz Ruben, nove anos depois daquele episódio. Os cigarros passaram a ser uma marca do passado (a mãe guarda ainda aquele maço de tabaco que estava quase a meio) e, apesar de não ter tido de imediato essa consciência, percebeu que deixar de fumar seria um dos principais passos para evitar um novo enfarte. Mas também a vigilância apertada da saúde, com exames regulares e consultas periódicas. E, muito importante, a “adesão à terapêutica”, ou seja, a toma contínua e correta de medicação, sem interrupções, para evitar um segundo episódio. Ruben sabe que são medicamentos que tem de tomar para o resto da vida.

O consultor de comunicação é um dos sobreviventes de enfarte em Portugal. Mas nem todos estão cá para contar a história. Só em 2021, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), morreram 3977 portugueses por enfarte agudo de miocárdio. Acima deste valor, o INE registou a morte de 9613 pessoas por Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Estas são as principais causas de morte em Portugal: as doenças cérebro-cardiovasculares, de que o AVC e o enfarte são os melhores exemplos, e que podem estar associadas a fatores de risco como a obesidade, o tabaco, o consumo excessivo de álcool, a pressão arterial elevada, os níveis de colesterol altos, o sedentarismo, a alimentação desequilibrada, a diabetes, etc. Outras há que, por serem silenciosas, nem sempre são conhecidas dos doentes ou diagnosticadas a tempo, como é o caso da insuficiência cardíaca e da aterosclerose.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, estas doenças representaram, em 2010, 36% das mortes anuais nos estados-membros da União Europeia.

Foi com esta preocupação que avançámos com o Arterial. Esta é a primeira newsletter de apresentação desta iniciativa. Mas, todos os meses, levarei até si os conteúdos mais recentes publicados na secção, mas também estudos e outros destaques que constituem novas oportunidades na prevenção, no diagnóstico, no tratamento e na gestão destas doenças.

Nas várias reuniões que tivemos com profissionais de saúde, gestores, doentes e cuidadores subsistem várias ideias. Desde logo, a de que estas não são doenças de pessoas mais velhas. Pelo contrário. Desengane-se quem pense que os jovens têm uma espécie de “imunidade” que os protege destes episódios. Veja-se o caso de Raquel Brito: um AVC aos 40 anos, em 2020, conduziu-a a uma recuperação longa que mantém até hoje. Não tinha fatores de risco nem causas conhecidas. Praticava exercício físico, não fumava, não tinha excesso de peso nem doenças prévias conhecidas.

Outra ideia que importa descodificar é esta: quem já teve um enfarte ou um AVC e sobreviveu, “safou-se”, já não terá outro. Temos percebido o contrário. Depois de um primeiro episódio, torna-se ainda mais relevante apostar nos estilos de vida saudáveis, transversais a outras doenças, como a prática de exercício físico, a alimentação saudável, evitar o tabaco e o álcool, dormir bem.

Como podemos perceber na reportagem na Unidade Local de Saúde de Matosinhos, a probabilidade de voltar a ter um enfarte é de dez por cento ao fim de três anos. Fomos conhecer os bastidores da primeira ULS do país e percebemos que muito há a melhorar no acompanhamento de doentes com alto e muito alto risco cardiovascular.

“O colesterol é responsável por cerca de 50% do risco de enfarte e por cerca de 35% do risco de AVC”, diz a cardiologista Cristina Gavina nesta reportagem. “É um dos maiores e mais perigosos fatores de risco das doenças cardiovasculares devido à acumulação de gordura nas paredes das artérias.” Seria por isso conveniente que os doentes seguidos pelo serviço de cardiologia daquela unidade reduzissem em 50% o seu colesterol para ficarem dentro dos valores recomendados pela Organização Mundial de Saúde.

No AVC, a o risco de repetição é também elevado. Preparámos um explicador dedicado exclusivamente a esta doença, onde lhe damos a conhecer uma estatística relevante: cerca de um terço dos AVC que ocorrem no espaço de um ano são recorrências, ou seja, perante um primeiro episódio, acresce o risco de voltar a ter outro.

No Arterial, temos a preocupação de chamar a atenção para os fatores de risco, para a avaliação do risco cardiovascular, para as desigualdades no acesso ao tratamento, com reportagens e peças descentralizadas ao longo do país. Damos voz a médicos, doentes, cuidadores, mas também a outros profissionais de saúde, essenciais para o acompanhamento e a recuperação das doenças cérebro-cardiovasculares.

Em alguns casos, juntamos doentes e médicos no mesmo momento, como é o caso da Consulta Informal, gravada em estúdio e disponível em formato vídeo e em podcast. No primeiro episódio falamos de insuficiência cardíaca, uma doença silenciosa e que atinge 700 mil portugueses, com o cardiologista Rui Baptista e com João Abreu, que recebeu o diagnóstico aos 45 anos.

Além de jornalistas, fotojornalistas, editores, responsáveis de redes sociais, designers, realizadores e sonoplastas, muitas pessoas contribuem para este novo projeto do Observador. Tal como acontece na área da saúde, em que as equipas multidisciplinares – compostas por profissionais de várias especialidades e áreas – são essenciais para o sucesso do tratamento, também no jornalismo nada se faz sem o contributo de muitas pessoas.

Dias antes da comemoração do Dia Nacional do Doente com AVC, a 31 de março, e do Dia Mundial da Saúde, a 7 de abril, estamos convictos de que este trabalho servirá de alerta para os sinais que não devemos ignorar, para a procura mais adequada de cuidados médicos, para o papel de cada um e para o combate a mitos que importa descodificar. Por isso, sempre que temos questões que necessitam de uma resposta científica, contamos com a nossa rede de parceiros, com médicos e outros profissionais de saúde que nos ajudam a clarificar as dúvidas que vão surgindo.

O projeto Arterial é uma parceria do Observador com a Novartis e tem a colaboração da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, da Portugal AVC, da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose e da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.

Temos noção da responsabilidade do trabalho que decidimos abraçar. Da diferença que este projeto pode fazer na consciencialização para a prevenção e o impacto das doenças cérebro-cardiovasculares. Afinal, cada minuto conta. Cada segundo conta. E o tempo, esse, pode mesmo ser o nosso maior aliado.

Reportagens

Fotografia
Arterial

"Nunca se espera que o corpo falhe aos 40 anos"

Aos 43 anos, o coração de Ruben Obadia falhou. Depois do enfarte, tudo mudou para sempre — da medicação que nunca pode deixar aos novos hábitos e à maneira de pensar.

Fotografia
Arterial

A rede de apoio de Raquel depois do AVC

Os pais mudaram-se para casa dela, o irmão está noutro país mas segue a situação, a vizinha está atenta, os amigos por perto. Os fisioterapeutas e o neurologista acompanham a reabilitação.

Fotografia
Arterial

Insuficiência cardíaca, a doença silenciosa

O que é a insuficiência cardíaca? Como se trata? Que doença é esta que afeta 700 mil portugueses? As respostas de João Abreu, que recebeu o diagnóstico em 2008, e do cardiologista Rui Baptista.

Fotografia
Arterial

Quando o coração não faz o que devia fazer

O diagnóstico chegou há 15 anos. João Abreu nunca tinha ouvido falar de insuficiência cardíaca. Tal como 90% dos portugueses que não sabem que têm a doença, diz o cardiologista Rui Baptista.

Fotografia
Arterial

Aprender para reorganizar acompanhamento cardíaco

Em Matosinhos, após estudar 20 anos de registos médicos de 80 mil pessoas, a cardiologista Cristina Gavina começou o que poderá ser a reorganização do acompanhamento de doentes cardíacos em Portugal.

Fotografia
Arterial

O que é um Acidente Vascular Cerebral (AVC)?

Dois milhões de neurónios destruídos por minuto. É esse o resultado de um AVC. Se não matar, pode mudar a vida para sempre, por isso é preciso agir depressa. “Tempo é cérebro”, dizem os especialistas.

Fotografia
Arterial

AVC e enfartes: Observador lança novo projeto

A partir de 18 de março, o Observador terá uma secção totalmente dedicada às doenças cérebro-cardiovasculares. Com entrevistas, reportagens, explicadores, podcasts, vídeos, opinião e muito mais.

Opinião

Fotografia do Colunista
Célio Ramos

O dia em que passei a ser cuidador da minha mulher

Tudo mudou a partir do momento em que a minha mulher teve um AVC. Era marido e pai, passei a ser cuidador a tempo inteiro. Tive de tomar decisões, gerir a vida dos nossos filhos e enfrentar o medo.

Fotografia do Colunista
Sofia Monteiro

Ter um enfarte no interior do país

Tive um enfarte agudo do miocárdio e sinto diariamente a falta de acesso e de igualdade nos cuidados de saúde. A diferença entre ter uma doença cardíaca crónica no interior ou no litoral é enorme.

Fotografia do Colunista
Manuel Oliveira Carrageta

O principal aliado do ataque cardíaco

As doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de um terço da mortalidade total em Portugal. O colesterol é um “inimigo” silencioso que deve ser prevenido e/ou controlado.

Fotografia do Colunista
Luís Filipe Pereira

A doença desconhecida de 90% de portugueses

A insuficiência cardíaca vai ter um papel cada vez mais generalizado e expressivo na sociedade portuguesa. O país precisa de uma estratégia global de prevenção e de combate à doença.

agenda

21 de março

Resende, Viseu: Feira da Saúde

30 de março

Terceira, Açores: Caminhada pela saúde

31 de março a 4 de abril

Algarve: Comemorações do Dia Nacional do Doente com AVC

6 de abril

Cascais, Oeiras e Lisboa: Dia Mundial da Atividade Física

8 a 17 de abril

Coimbra: Comemorações Dia Mundial da Atividade Física

O que se escreve lá fora

Novos tratamentos para evitar recorrência de AVC
Le Monde
Médicos investigam teste genético para prevenir enfartes
New York Times
Estimulação cerebral profunda ajuda sobrevivente de AVC a recuperar a sua vida
CNN
Mulheres com depressão têm risco cardiovascular aumentado face aos homens
Medical News Today
Prevenir o colesterol
Nem York Times
Plásticos microscópicos podem aumentar risco de AVC e enfarte
The Guardian
Recommendation Partner Recommendation Partner

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