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O grande evento do Arterial, o que debatemos e o que separa os AVC de Nuno Markl e de Celmira Macedo

26 nov. 2025, 10:09
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quarta, 26 nov. 2025
Fotografia de Cláudia Pinto
Cláudia Pinto

Antes de começar a ler esta newsletter gostaria de saber um pouco mais sobre si e do seu conhecimento acerca da saúde. Não é mera curiosidade. As suas respostas podem ajudar-nos a melhorar o ARTERIAL, o projeto do Observador dedicado exclusivamente às doenças cérebro-cardiovasculares, através de um mini-questionário, totalmente anónimo. AQUI.

Estamos há quase dois anos a alertar para a principal causa de morte em Portugal. As doenças cérebro-cardiovasculares, sobretudo o AVC e o enfarte, matam mais do que o cancro, mas nem sempre são referidas com o mesmo impacto. Foi também a pensar nisso que o Observador organizou o grande evento “Debater para avançar”, realizado no passado dia 17 de novembro, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. Foi o momento de levar o Arterial, a palco, mas chegando também a todos os que não puderam estar presentes, com transmissão em direto nas várias plataformas do jornal.

Juntámos sobreviventes, médicos, profissionais de saúde, decisores, representantes de associações de doentes e de sociedades científicas e os parceiros — desde o primeiro dia — num encontro que discutiu se os hospitais e os centros de saúde beneficiariam ao ter melhores estratégias de comunicação entre si, mas também a forma como a inovação — da ciência à prática — pode ajudar a combater os números que deveriam colocar estas doenças como uma prioridade nacional.

Fizemos contas às políticas de saúde e abordámos o impacto da longevidade. Vivemos mais, mas devíamos viver melhor. Saíram muitas conclusões deste evento, que podem ser lidas nos artigos de cobertura disponíveis na secção do Arterial e também nesta newsletter. É possível também assistir ao vídeo integral do evento aqui.

Três dias depois deste debate, ao início da noite, surgia a notícia: Nuno Markl teve um AVC. Pouco se sabia ainda, mas a onda de solidariedade foi rápida. A preocupação sobre o estado de saúde — e a gravidade do episódio — invadiu as redes sociais. Primeiro, o choque. Depois, o alívio, ao perceber-se que o humorista tinha sido rapidamente socorrido e a situação estava controlada. Nas horas seguintes, foram surgindo notícias dadas pelo próprio e pela equipa das Manhãs da Comercial. Temos insistido no Arterial com a ideia de que as doenças cérebro-cardiovasculares não atingem apenas os mais velhos, não acontece só aos outros e as primeiras horas são essenciais para o rápido tratamento e para a recuperação.

Nem todos os casos correm como seria desejável e o diagnóstico pode tardar ou ser confundido com outras doenças. Foi o caso de Celmira Macedo, professora e empreendedora social. Teve dois AVC, mas só ao final de quatro anos recebeu a confirmação do que anteriormente tinha sido identificado como depressão. Perante os primeiros sintomas e mesmo com a realização de uma ressonância magnética foi aconselhada a “esquecer” e a fazer a vida normal. Percebeu depois, num novo episódio, que “vivia numa situação de bomba-relógio”, como conta, no mais recente episódio da rubrica “Quando a minha vida mudou”, com entrevista da jornalista Sofia Teixeira, imagem de Nuno Neves e Larissa Lewandoski, e realização de Nuno Neves.

As histórias de Nuno Markl e de Celmira Macedo são distintas: no caso do primeiro, felizmente, o socorro rápido poderá ter feito a diferença na gravidade e na forma como recuperará daqui para a frente. No caso de Celmira, o mau acompanhamento inicial poderia ter corrido mal, uma vez que os fatores de risco não estavam controlados, a professora não estava a ser acompanhada e um novo episódio poderia ter sido fatal. Mas ambas têm um denominador comum: alertar consciências e sensibilizar para os mitos ligados ao AVC.

No passado dia 21 de novembro, a Direção-Geral da Saúde, através do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares, divulgou os dados da mortalidade por doenças do aparelho circulatório, no evento Doenças cérebro e cardiovasculares em Portugal – Progresso clínico e organizacional na última década. Em comunicado de imprensa, a DGS revela que, entre 2012 e 2023 “registou-se uma redução relevante da taxa de mortalidade por doenças do aparelho circulatório, tendo a proporção de óbitos por estas doenças atingido, em 2023, o valor mais baixo das últimas três décadas”.

O documento indica ainda que “relativamente à taxa de mortalidade padronizada por doenças cerebrovasculares e por enfarte agudo do miocárdio, assistiu-se, entre 2017 e 2023 a uma redução acentuada, bem como a uma diminuição dos internamentos por doenças do aparelho circulatório, salientando-se uma redução substancial nos internamentos por insuficiência cardíaca”.

Apesar de melhorias registadas entre 2015 e 2024, no que respeita ao aumento de doentes com pressão arterial controlada, pessoas com diabetes com níveis de colesterol LDL [mau colesterol] controlado e um aumento marcado das consultas de cessação tabágica, o que assinala uma melhoria na vigilância dos fatores de risco cardiovasculares, subsistem como desafios importantes. Por exemplo, “as desigualdades regionais no acesso a cuidados diferenciados 24/7, a elevada letalidade dos AVC hemorrágicos, o crescente número de adultos com cardiopatia congénita e a necessidade de reforço dos cuidados primários, da reabilitação cardiovascular e da integração de cuidados”.

Estes foram também alguns dos problemas identificados, não só antes do evento, com entrevistas que alguns oradores deram à Rádio Observador, como também no próprio evento organizado pelo Arterial / Observador, que notaram os atrasos na reabilitação pós-evento, na falta de comunicação em rede entre os centros de saúde e os hospitais, a necessidade de acesso ao médico de família.

Estamos precisamente a um mês do Natal e, logo a seguir, da passagem de ano. Lembro-me de um professor num ginásio dizer aos alunos, há uns anos, que o grande problema da alimentação em excesso e do maior sedentarismo por estes dias não se cinge “ao que se faz do Natal à passagem de ano, mas sim da passagem de ano ao Natal”. Era uma forma de alertar para os excessos durante vários meses, e não “apenas” nos dias em que as tradições familiares obrigam a mais doces, mais partilha, mais abundância e a menos equilíbrio.

Celebre da melhor forma, com os seus, aproveite os tempos de união e de tempos em família, mas não se esqueça que a saúde não folga, nem tira férias. Se possível, tente manter as suas rotinas de atividade física, cumpra a medicação que lhe é prescrita e não corra riscos. Os “sustos” não acontecem só aos outros.

Talvez seja cedo para lhe dizer Boas Festas, mas como só nos voltamos a encontrar por esta via, no final do ano, é mesmo esse o meu desejo. Até lá, não perca os conteúdos do Arterial. Continuaremos por aqui a trabalhar para partilhar a informação mais fidedigna possível.

É também por isto que o breve questionário do projeto ARTERIAL faz sentido. Ajude-nos a perceber se conhece os seus fatores de risco e o seu conhecimento sobre estas doenças. É rápido, não chega a 30 segundos, e as suas respostas ajudam-nos a melhorar. Pode participar AQUI. Muito obrigada!

REPORTAGENS E ENTREVISTAS

Fotografia
Arterial

Doenças cérebro-cardiovasculares: debater para avançar

No âmbito da secção Arterial, o Observador promoveu esta segunda-feira um evento sobre a principal causa de morte em Portugal. Com a participação de especialistas de várias áreas.

Fotografia
Arterial

AVC e enfarte. Como comunicar melhor para salvar vidas?

Há uma resposta rápida e eficaz quando ocorre um enfarte ou AVC, mas, antes e depois, o sistema continua a falhar. A prevenção e a comunicação ainda são o ponto fraco do sistema nacional de saúde.

Fotografia
Arterial

Quanto custam as doenças cérebro-cardiovasculares?

É preciso apostar na prevenção e no cruzamento de dados, para melhorar o custo-eficácia do tratamento das doenças cérebro-cardiovasculares. As conclusões saíram do evento "Debater para avançar".

Fotografia
Arterial

Que plano estratégico existe para a prevenção?

É preciso trabalhar mais em conjunto e a aposta efetiva na prevenção de doenças cérebro-cardiovasculares. As conclusões saíram do evento do Observador “Debater para avançar”, realizado esta semana.

Fotografia
Arterial

Longevidade. Vivemos mais, devíamos viver melhor?

As dificuldades no acesso à reabilitação após um AVC ou um enfarte, as claras assimetrias regionais no tratamento e também na recuperação tornam a longevidade, em Portugal, um desafio ainda maior.

Fotografia
Arterial

“Estava numa situação de bomba-relógio”

Celmira Macedo tinha sintomas que ninguém valorizou. Sobreviveu a dois AVC até ter um diagnóstico e um tratamento adequado. Hoje vive com sintomas difíceis, mas invisíveis aos olhos dos outros.

Fotografia
Rádio Observador

80% das mortes provocadas pela aterosclerose são preveníveis

Muitos dos estilos de vida que contribuem para a aterosclerose podem ser evitados. Devia atuar-se "o mais cedo possível e em força", defende Henrique Lopes, diretor do NOVA Center for Global Health.

Fotografia
Arterial

Reorganizar o circuito do doente cardíaco nos hospitais

Cristina Gavina, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, defende reorganização do circuito do doente cardiovascular nos hospitais. É preciso investir na prevenção e diagnóstico precoce.

Fotografia
Arterial

O médico de família é crucial na gestão da doença cardíaca

A falta de ligação entre hospitais e centros de saúde não depende dos profissionais, mas das limitações dos sistemas, diz Nuno Jacinto, presidente da associação que representa os médicos de família.

Fotografia
Rádio Observador

Uma melhor alocação de recursos pode beneficiar o SNS

Um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública alerta para o encargo no tratamento das doenças cardiovasculares num total de 1.8 mil milhões de euros, alerta o investigador Francisco Madeira.

Fotografia
Rádio Observador

Nada pode falhar nos primeiros 90 dias depois de um AVC

"O doente tem de manter o plano de recuperação sem interrupções", diz Vítor Tedim Cruz, presidente da Sociedade Portuguesa do AVC, e alerta para o maior número de pessoas a precisar de reabilitação. 

Fotografia
Rádio Observador

A investigação reduz as desigualdades em saúde

Seja em medicamentos, tecnologias ou programas de prevenção, a inovação procura chegar a mais pessoas, diz Sónia Dias, diretora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA.

OPINIÃO

Fotografia do Colunista
Henrique Lopes

Mais de 30 mil mortos por ano não são razão para agir?

Cerca de 85% de todas as mortes por doença cardíaca devem-se à aterosclerose. A pergunta impõe-se: deve investir-se em prevenção e salvar milhares de vidas, ou continuar a pagar o preço da inação?

Fotografia do Colunista
José Roquette

O setor privado na gestão das doenças cerebrovasculares

Seria benéfico que os privados passassem a ter um papel mais interventivo em episódios agudos de doenças cerebrovasculares, por exemplo, na integração da Via Verde AVC e Via Verde Coronária.

AGENDA

Novembro e dezembro

Almada | Programa Viva Saudável

29 novembro

São Miguel, Açores | Sessões de literacia em saúde

1 dezembro

Cascais | Corrida de Natal 2025

13 de dezembro

Torres Vedras | Caminhada Rota da Água: percurso pedestre

De 7 a 28 de dezembro

Porto | Domingos em forma

O QUE SE ESCREVE LÁ FORA

Projeto utiliza jogos online para ajudar na recuperação de AVC
BBC
Mesmo os baixos níveis de tabagismo estão associados à doença cardíaca
European Medical Journal
Estes dois números podem predizer o seu risco cardiovascular
BBC Science Focus Magazine
O rapper e ator Donald Glover revela ter tido um AVC no ano passado
New York Times
Os níveis de colesterol pioram se não se toma o pequeno-almoço ou se janta tarde
Everyday Health
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