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Que grupos demográficos podem decidir uma eleição? Todos, cada um à sua maneira

21 set. 2020, 21:09
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Especial Eleições Americanas

Fotografia de João de Almeida Dias
João de Almeida Dias
Jornalista de Internacional
Segunda, 21 Set 2020
Foto da Newsletter

Os grupos demográficos podem decidir uma eleição?

Pelo menos daquela vez, nem os comentadores nem o The New York Times se enganaram: aquele discurso de um desconhecido chamado Barack Obama na convenção democrata de 2004 tinha sido mesmo o início de algo. Eis o que escreveu aquele jornal a 1 de agosto de 2004: “Na terça-feira, por volta das 21h00, Barack Obama eram um congressista estadual do Illinois a concorrer para o Senado. Passada meia hora, depois de ter discursado na Convenção Nacional Democrata, era o nome mais bem cotado do partido. Os comentadores até previram que ele poderia vir a ser o primeiro Presidente negro”.

Como se sabe, acabou mesmo por sê-lo. Mas, afinal, o que houve de tão marcante naquele discurso para que uma previsão daquele género fosse sequer plausível? Resposta: a parte em que Barack Obama repetiu que, apesar de todas as suas matizes, só há os Estados Unidos da América. “Não há uma América liberal e uma América conservadora. Há os Estados Unidos da América. Não há uma América negra e uma América branca e uma América latina e uma América asiática — há os Estados Unidos da América”, disse.

Foi um sucesso imediato. Mas, também, uma ideia estatisticamente errada.

Certo, Barack Obama quis ali apelar à união de um país que comporta em si muitas diferenças. “Nós somos um só povo, cada um de nós jura a mesma bandeira com estrelas e listas, cada um de nós defende os Estados Unidos da América”, sublinhou. Mas a verdade é que os dados demonstram de forma muito clara que, no que toca à política, essas diferenças são vincadas.

Novos e velhos, homens e mulheres, brancos, negros, hispânicos, asiáticos, com e sem ensino superior, urbanos e rurais. Em todas as divisões que possa pensar numa sociedade como a dos EUA, o voto é diferente.

Uma das clivagens mais evidentes — e também persistentes — é a que divide o eleitorado mais jovem do eleitorado mais velho. Olhando para as sondagens à boca das urnas (aqui as de 1980 a 2008, aqui as de 2012 e aqui as de 2016), fica fácil perceber que a tradição é a de os mais jovens votarem no candidato democrata e os mais velhos na opção republicana. Nas dez eleições desde 1980, houve sete em que os eleitores entre os 18 e 29 anos votaram mais no candidato democrata do que o restantes eleitores — e nas restantes três (reeleição de Reagan em 1984, eleição de Clinton em 1992 e eleição de Bush em 2000) votaram em linha com o resto do eleitorado.

Nas últimas três eleições, a diferença etária tem sido particularmente alta. Em 2008, os mais jovens (18-29) deram uma vantagem de 34 pontos percentuais a Obama e os mais velhos (65 ou mais) de 7 a McCain. Em 2012, Obama teve 23 entre os mais jovens e Romney mais 12 entre os mais velhos. Em 2016, novo fosso: Clinton foi a preferida com uma diferença de 22 pontos entre os mais jovens e Trump saiu 7 pontos acima entre os mais velhos.

Que os mais novos são mais liberais e os mais velhos são mais conservadores é um facto mais ou menos universal da vida política — e que, por isso, é socialmente aceite. Mas isso não quer dizer que seja pacífico quando todas estas pessoas são da mesma família e se sentam à mesa. É precisamente isso que acontece a cada Dia de Ação de Graças, em que as famílias se juntam — e onde é raro ver como sobrinhos liberais discutem com tios conservadores, netos democratas testam a paciência aos avós republicanos e pais que veem Fox News se exasperam com os filhos que só assistem à MSNBC. Quanto a estas tensões, há diferentes escolas de pensamento: desde as que dizem que o melhor caminho é “ouvir as pessoas” e “fazer sobressair a humanidade que vos une”; até àquelas que defendem uma abordagem de “terra queimada”.

Também no que toca ao género, há outra certeza: as mulheres votam mais no Partido Democrata e os homens escolhem maioritariamente o Partido Republicano. Nas seis eleições que houve desde 1996, em cinco delas ficou claro que os homens preferem os candidatos republicanos — com vantagens de 11 pontos percentuais a serem essenciais para a reeleição de Bush em 2004 e para a eleição de Trump em 2016. A exceção foi 2008, ano em que Barack Obama teve uma vantagem de 1 ponto percentual entre homens. Ainda mais estáveis são as mulheres: desde 1992 votam sempre preferencialmente no candidato democrata. A vez em que isso ficou mais claro foi em 1996, quando Bill Clinton teve uma vantagem de 17 pontos percentuais entre as mulheres.

Porém, se há divisões que estão em posição de ditar o rumo das eleições presidenciais nos EUA, são as que dizem respeito à etnia de quem vota. Aqui, as diferenças são abissais — e é dentro das suas nuances que se fazem vencedores e vencidos.

Olhemos para três eleições mais pormenorizadamente: 2008, que foi a eleição de Obama; 2012, em que Obama foi reeleito; e 2016, em que Trump saiu vencedor. Nestas, o eleitorado branco preferiu sempre o candidato republicano (55-43 em 2008; 59-39 em 2012, na reeleição; 58-37 em 2016) e o eleitorado não-branco (que é a soma de negros, latinos, asiáticos e, a partir de 2012, inclusive, a categoria de “outros”) votou sempre maioritariamente no candidato democrata: 81,75% em 2008, 80,4% em 2012 e 74% em 2016.

Só mais um pouco de números e percentagens e já chego ao ponto: neste momento, a população norte-americana divide-se em 76,3% de brancos e 23,7% que são parcial ou totalmente de uma minoria étnica. A tendência é para que estes números se aproximem um do outro, com a maioria branca a encolher e as minorias não-brancas a aumentarem. Até que, de acordo com a previsão do Census Bureau dos EUA, a soma de todas as pessoas de minorias étnicas será maior do que a do número de brancos.

Que esta dinâmica terá resultados políticos, parece inquestionável. Mas que até agora ainda não tenha tido efeitos provados e consistentes, foi uma surpresa para muitos. Falo, pois, de 2016.

Naquelas eleições, a esperança do Partido Democrata era a minoria que, à altura, crescia mais em todo o país: os latinos, que, na ciência política norte-americana, são conhecidos como o “gigante adormecido”. Perante uma campanha anti-imigração por parte de Donald Trump — que, logo no discurso em que anunciou a sua candidatura, disse que do México chegavam drogas, crime e violadores —, a campanha de Hillary Clinton esperou que a demografia fizesse o seu trabalho e lhe permitisse ser a primeira mulher a chegar à Casa Branca pela porta grande.

Não foi assim.

Porquê? As respostas são múltiplas, mas duas imperam sobre praticamente todas. Primeiro, a participação eleitoral das minorias não-brancas não foi tão alta quanto Clinton precisava e o eleitorado branco saiu de casa de maneira crucial para Trump. Segundo, as minorias não votaram tanto em Clinton quanto ela esperava — em particular os latinos, que votaram nela 65-69, abaixo dos 71-27 que Obama conseguira quatro anos antes. Pelos vistos, o “gigante adormecido” não ouviu o despertador de Hillary.

Por tudo isto, não é por acaso que o tópico do voto branco e das minorias é um dos grandes temas desta campanha.

Do lado de Trump, a estratégia ficou clara logo na Convenção do Partido Republicano: em equipa vencedora não se mexe. Como tal, o maior apelo será para o eleitorado branco: com grande destaque para aquele que não tem estudos superiores, que votou massiva e crucialmente no republicano em 2016; e também nos evangélicos, o grupo que mais votou em Trump há quatro anos e que agora exige ao Presidente que preencha a vaga da juíza liberal Ruth Bader Ginsburg (que morreu no sexta-feira) no Tribunal Supremo com um juiz conservador.

Isso tudo e mais uns pozinhos entre as minorias — em particular, os latinos com aversão a políticas mais esquerdistas, como são, destacadamente, os cubanos no sul da Flórida. Por isso mesmo, um dos vídeos de campanha de Trump naquele estado é a conversa de duas mulheres cubanas que se mostram escandalizadas com os democratas que querem “tirar fundos à polícia” e que andam a “marchar com bandeiras do Che Guevara”.

Quanto a Biden, a estratégia parece mais difusa. O candidato democrata tem apelado a diferentes grupos consoante as suas paragens para campanha — mantendo o discurso anti-Trump perante todos eles e, depois, acrescentando algumas nuances que lhe parecem adequadas junto de cada grupo. Junto do eleitorado branco sem ensino superior, faz o apelo aos sindicatos. Com o eleitorado negro, repete várias vezes o mantra Black Lives Matter — e uma vez gracejou a um apresentador de rádio afro-americano: “Se não consegues perceber se és por mim ou por Trump, então não és negro”. Junto do eleitorado latino, apresenta-se ao lado de cantores reggaeton e põe o Despacito a tocar no telemóvel.

Para alguns, a estratégia de Biden pode parecer errada, mas o que o ex-vice-Presidente parece estar a tentar fazer é a repetição de um feito pouco comum: a “Coligação Obama” de 2008. É certo que nem no ano da sua eleição Obama foi consensual, mas os resultados de então demonstraram que várias pessoas de diferentes lados das clivagens acima referidas votaram nele.

No que toca a idades, só os eleitores com mais de 65 anos não votaram maioritariamente nele: de resto, teve grande vantagem entre 18-29 e 30-44, e um empate entre os 45-49. Quanto ao género, tanto homens como mulheres preferiram-no a John McCain. Nos graus de escolaridade, Obama saiu à frente em todos. Quanto ao rendimento anual, só quem ganhava então entre 50 mil e 75 mil dólares é que votou no republicano — e o resto, desde os mais pobres aos mais ricos, deram prioridade a Obama.

Sobre as capacidades de Biden para repetir o feito de Obama (que, em parte, também foi um feito dele próprio, na qualidade de número 2), a conversa é outra — e longa. Mas, quanto ao tema que aqui nos trouxe esta semana, impera dizer isto: em 2004, Obama foi catapultado para a linha da frente da política norte-americana com aquele discurso assente numa ideia estatisticamente errada; mas, em 2008, ao traçar a quadratura deste círculo, confirmou que toda a regra tem uma exceção.

O que aconteceu esta semana

  • Morreu a juíza Ruth Bader Ginsburg (e a batalha pelo Supremo recomeçou)

A juíza do Tribunal Supremo Ruth Bader Ginsburg morreu esta sexta-feira, aos 87 anos, vítima de cancro no fígado. A possibilidade de a juíza conhecida pelas suas iniciais — RBG — morrer ainda durante este mandato era antecipada pelos dois lados da política norte-americana, já que que esta foi a quinta vez que enfrentou um cancro. Conhecida por ser a decana entre os magistrados de tendência liberal e reformista dentro do Tribunal Supremo, Ruth Bader Ginsburg, que foi nomeada para o cargo por Bill Clinton em 1993, era uma defensora do direito ao aborto e também dos direitos das minorias LGBT.

Agora, Donald Trump prepara-se para substituí-la já esta semana. Embora ainda não se conheça o nome de quem preencherá essa vaga, o Presidente já deixou duas certezas quanto à sua proposta: será uma mulher e será conservadora. Desta forma, o Tribunal Supremo passará do que era há dias uma maioria mínima de 5 juízes conservadores e 4 juízes liberais para uma maioria sólida de 6-3. Cabe agora a Donald Trump anunciar a sua escolha e, depois, esperar que ela passe no Senado — uma tarefa fácil, mas não totalmente.

Fácil, porque o Senado tem maioria republicana. Não totalmente, porque há pelo menos duas senadoras republicanas (Susan Collins, do Maine, e Liza Murkowski, do Alasca) que já disseram que não vão aprovar nenhuma nomeação para a vaga de Ruth Bader Ginsburg até à tomada de posse resultante destas eleições — ou seja, até 20 de janeiro de 2021.

  • Trump e Biden aqueceram motores para o primeiro debate com formato town hall

Com o primeiro de três debates entre Donald Trump e Joe Biden a pouco mais de uma semana de distância (está agendado para a madrugada de 29 de setembro), os dois candidatos estiveram à vez em programas televisivos para responder a perguntas do público — formato conhecido por town hall.

O primeiro a ir para o ar foi Donald Trump, na terça-feira (dia 15), na ABC News, com moderação do jornalista George Stephanopoulos. A jogar fora de casa (embora neutra por vocação, a ABC News é uma televisão tendencialmente mais liberal, além de que George Stephanopoulos trabalhou na Casa Branca de Bill Clinton), o Presidente dos EUA foi chamado à pedra várias vezes.

Foi isso que aconteceu sobretudo com o tema da pandemia, com Donald Trump a negar a ideia por ele dita no livro de Bob Woodward, de que tinha “minimizado” a pandemia para não “criar pânico” (“Na verdade, de muitas maneiras, maximizei-a, em termos de ação”, disse no town hall). Houve ainda um bate-boca com uma cidadã que lhe colocou uma pergunta sobre o direito a acesso igual a seguro de saúde para quem tem doenças prévias. “Por favor, deixe-me terminar a minha questão, senhor”, disse-lhe aquela cidadã. Depois, na resposta, George Stephanopoulos fez um fact-check em direto à resposta de Donald Trump.

Na sexta-feira (dia 18), foi a vez de Joe Biden ir a um town hall na CNN. A jogar em terreno amigável, o candidato democrata teve, ainda assim, de responder a perguntas sobre como pretende acomodar na sua campanha a ala progressista do Partido Democrata, encabeçada por Bernie Sanders. Quando questionado sobre o Green New Deal (Novo Pacto Verde), Biden respondeu: “Eu tenho o meu próprio deal“. De acordo com o FactCheck.Org, Joe Biden fez sete afirmações falsas ou parcialmente erradas.

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O erro de Biden ao ir "despacito" com os latinos /premium

Em 2016, Hillary achou que o voto latino chegaria para vencer Trump. Falhou. Em 2020, Biden demorou a procurá-lo. Na sua ausência, Trump preencheu o vácuo e pintou o adversário de vermelho-comunista.

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Israel

Trump juntou árabes a Israel. E encurralou o Irão /premium

Explicador. Os acordos de paz dos EAU e do Bahrain com Israel têm um objetivo principal: isolar o Irão. Além disso, Trump pode moldar o futuro da Palestina e vender armas (americanas) no Golfo.

o que se escreve lá fora

Trump’s Supreme Court Pick: How President Plans to Fill Ginsburg’s Seat
The Wall Street Journal
Trump and Democrats Brace for Showdown Over Supreme Court Seat
The New York Times
How Democrats Could Pack the Supreme Court in 2021
Politico
How Biden Will Handle the Supreme Court Vacancy
The Bulwark
If You Care About the Court, Don’t Talk About It
Anne Applebaum
Confessions of the secret suburban Trump moms: Pennsylvania
The Spectator US
‘It’s a big, big swing’: Trump loses ground with white voters
Politico
How the Black Vote Became a Monolith
The New York Times Magazine
Nancy Pelosi's Reign of Error
Washington Examiner
Trump Convinced Iran to Build an Advanced Nuclear Program Before Negotiating
Foreign Policy

agenda para a semana

21 de setembro

Comício de Donald Trump em Vandalia (Ohio)
Joe Biden viaja até Manitowoc (Wisconsin)

22 de setembro

Comício de Donald Trump em Swanton (Ohio)
Comício de Mike Pence em Gilford (New Hampshire)
Kamala Harris viaja até a Flint e Detroit (Michigan)

23 de setembro

Comício de Donald Trump em Moon Township (Pensilvânia)
Joe Biden viaja até a Charlotte (Carolina do Norte)

25 de setembro

Comício de Donald Trump em Jacksonville (Flórida)

27 de setembro

Comício de Donald Trump em Middletown (Pensilvânia)

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