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Ana Martingo / Observador

Ana Martingo / Observador

Trump ou Biden: quem tem o voto (decisivo) da classe trabalhadora americana? /premium

Os brancos sem ensino superior representam 1/3 de todos os americanos elegíveis para votar. Em 2016, Trump conquistou-os — mas Biden, "homem dos sindicatos", promete-lhe dar luta por esta classe.

De Karl Marx a Donald Trump vai um universo de diferenças — e se o milionário nova-iorquino chegou à Casa Branca, não foi propriamente por ter seguido a linha do filósofo e ideólogo alemão de outras eras. Porém, a proposta que Donald Trump fez ao eleitorado branco e de classe trabalhadora não diferiu muito de uma das frases mais célebres do “Manifesto do Partido Comunista”: “Trabalhadores do mundo, uni-vos. Não tendes nada a perder a não ser os vossos grilhões!”.

À sua maneira — e não à de Karl Marx —, Donald Trump falou acima de tudo para o eleitorado branco sem ensino superior, descrevendo-o como “os homens e as mulheres que foram esquecidos na América”. E isso resultou. De acordo com a sondagem à boca da urna da CNN das eleições presidenciais de 2016, este segmento compôs 34% do eleitorado total — e, entre estes, 66% votaram em Donald Trump e apenas 34% na sua adversária, Hillary Clinton.

Em 2020, com Donald Trump a tentar a reeleição e Joe Biden a fazer os possíveis para contrariá-lo, a classe trabalhadora branca pode voltar a ser decisiva para determinar quem sairá vencedor a 3 de novembro. Para estes, “a luta continua” sempre — mas só a menos de dois meses das eleições é que ela começou em força para os dois candidatos, que disputam o estatuto de verdadeiro defensor do proletariado.

Donald Trump e os orgulhosamente “deploráveis”

Trump Country. Foi assim, nesta expressão traduzível para “Terra de Trump”, que ficaram conhecidos os territórios onde Donald Trump venceu com estrondo (e de forma imprevista, nalguns casos) nas eleições de 2016. Talvez o caso mais paradigmático dessa viragem tenha sido o estado da Pensilvânia. Apesar de ali vencer o candidato democrata desde as eleições presidenciais de 1992, Trump acabou vencedor com uma vantagem de 0,6% — que é como quem diz de 46.765 votos — sobre Hillary Clinton.

Durante décadas, o estado da Pensilvânia destacou-se pela indústria, que dava emprego ao longo de todo o estado — em Filadélfia e sobretudo em Pittsburgh, mas também em várias cidades de menor dimensão que se encontram entre aquelas duas metrópoles, cada uma situada na sua ponta da Pensilvânia. Com forte tradição sindical, a Pensilvânia passou a ser uma parte da “muralha azul” do Partido Democrata — até que Donald Trump a quebrou. Aí, em vez desse chavão, prevaleceu outra frase batida da política naquele estado: “Filadélfia a Este, Pittsburgh a Oeste, e Alabama no meio”.

Uma das promessas de Trump em 2016 foi a de incentivar a produção e uso de carvão. Quatro anos depois, o carvão continua em queda, contra outras fontes de energia menos poluentes e mais baratas

Ricky Carioti/The Washington Post via Getty Images

Não foi por acaso que essa mudança aconteceu. Além do tema da imigração, Donald Trump centrou também grande parte da sua campanha no ataque à desindustrialização dos EUA, com a produção a ser transportada para outros países com mão-de-obra mais barata, como o México ou a China. Ao mesmo tempo, Trump captou como nenhum outro candidato desde Richard Nixon o descontentamento de uma classe trabalhadora culturalmente conservadora e assustada com uma vaga de fundo progressista — nos anos 1970, motivada pelo movimento hippie e contra a guerra do Vietname; em 2016, pelo movimento Black Lives Matter e também com a conquista de direitos LGBT.

Dias depois da eleição do atual Presidente, o Observador esteve na Pensilvânia, onde ouviu algumas dessas vozes. Mary Raibeck apontava Barack Obama como um Presidente fraturante — mais do que qualquer outro. “Ele veio com aquelas coisas dos gays e dos negros… Ele dividiu este país ao meio, preto e branco de cada lado”, garante. “Antes dele nada era assim, nós não queríamos saber se uma pessoa era branca, preta, amarela, vermelha, cor-de-rosa… Não se falava disso.”

Terá sido a pensar em eleitores como Mary Raibeck que Hillary Clinton se referiu, durante a corrida de 2016, ao conjunto de pessoas junto das quais disse não valer a pena fazer campanha, por serem “racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos e islamofóbicos”, dizendo que todos faziam parte do “cesto dos deploráveis”.

"Trump tem de reconhecer as suas próprias falhas e o facto de que a sua abordagem impetuosa de Nova Iorque às vezes parece mal às pessoas. A mensagem dele tem de ser esta: apesar das minhas imperfeições, estou a lutar por vocês. Com esta abordagem, ele pode manter a sua base eleitoral motivada e, ao mesmo tempo, expandi-la."
Marc Thiessen, membro do think-tank conservador American Enterprise Institute

Donald Trump não tardou a aproveitar a gaffe da democrata — e pondo de parte o debate sobre costumes e igualdade social que Hillary Clinton procurou abrir, puxou a discussão para o campo do patriotismo, sim, mas também do trabalho. “Enquanto a minha adversária vos insulta e chama de deploráveis e irredimíveis, eu chamo-vos patriotas americanos que trabalham no duro e que amam o vosso país”. Em tempos, Karl Marx disse que “as ideias da classe dominante são as ideias dominantes de cada época”. Os apoiantes de Trump, longe de serem marxistas, assinariam por baixo — e também por isso votaram e fizeram dele o 45.º Presidente dos EUA em busca de mudar as ideias dominantes da época.

Quatro anos depois, não têm faltado os relatos de pessoas que, depois de terem votado em Donald Trump em 2016, após uma vida inteira a votar em democratas, estão dispostas a reelegê-lo.

É o caso de Justin Taylor, que não só está registado no Partido Democrata como foi por aquelas cores que foi eleito e reeleito autarca ao longo dos último 25 anos em Carbondale, na Pensilvânia. Pelo que contou ao Philadelphia Inquirer, numa reportagem no final de julho, já só é mesmo democrata no cartão de militante — uma história que não será invulgar naquele estado onde, de acordo com o mesmo jornal, há mais 780 mil eleitores registados no Partido Democrata do que no Partido Republicano.

"Já não entendo o Partido Democrata. Foram tanto para a esquerda que parece que o objetivo é simplesmente ter a maior quantidade de votos possível e não o de ser o partido da classe trabalhadora."
Justin Taylor, autarca em Carbondale (Pensilvânia) eleito pelo Partido Democrata mas apoiante de Donald Trump

“Sinceramente, estou espantado comigo próprio por ainda não ter mudado”, disse Justin Taylor. “Já não entendo o Partido Democrata. Foram tanto para a esquerda que parece que o objetivo é simplesmente ter a maior quantidade de votos possível e não o de ser o partido da classe trabalhadora.”

O discurso deste mayor em pouco difere daquilo que se ouvia já em 2016 da boca dos apoiantes do então candidato republicano. “Têm chamado aos apoiantes de Trump lixo branco, labregos e campónios. E agora eles respondem: ‘Sim, tudo bem, somos. E sabem que mais? Agora estamos registados no Partido Republicano e vamos votar'”, disse Justin Taylor.

É o caso Mike Mazza Jr., carpinteiro de 55 anos que, assim que começou a trabalhar, se sindicalizou e registou no Partido Democrata a pedido do pai — ele próprio sindicalizado e democrata. Mas isso foi há mais de três décadas. Agora, a história seria diferente, garante o filho. “Se o meu pai fosse vivo, acredito verdadeiramente que seria capaz de convencê-lo a votar no partido Republicano”, disse. Pelo menos ele próprio já decidiu que caminho vai tomar em 2020, depois de em 2016 ter hesitado. Na altura, engrossou os números da abstenção. Agora, contribuirá para os de Donald Trump. “Só tenho é pena de não ter acordado mais cedo em Trump à primeira”, disse ao Philadelphia Inquirer.

Ao final de quatro anos na Casa Branca, a lista de medidas que Trump tem a mostrar ao eleitorado branco e de classe trabalhadora conta com algumas promessas cumpridas, mas também algumas por concretizar — e ainda outras que, mesmo cumpridas, não tiveram o resultado que desejado.

Em 2016, Donald Trump conseguiu 66% do eleitorado branco sem ensino superior. Para 2020, as sondagens não lhe são tão otimistas, mas continua a estar em vantagem neste segmento

SAUL LOEB/AFP via Getty Images

No tema da imigração, levou para a frente a construção do muro ao longo da fronteira do México, embora esteja ainda longe de completá-lo, além de ter limitado a concessão de vistos a trabalhadores sem qualificações. Já nos costumes, Trump gaba-se frequentemente de ter nomeado dois juízes conservadores para o Tribunal Supremo, o que levou a várias decisões favoráveis ao Presidente e à sua agenda anti-liberal — mas também a alguns reveses. Quanto à China, iniciou uma guerra de tarifas que acabou por desembocar num acordo comercial que o gigante asiático não está a cumprir — desfecho para o qual a pandemia terá ajudado. No tema do carvão, caro ao eleitorado da Pensilvânia e outros onde ainda resistem algumas minas, Donald Trump cumpriu a promessa de retirar os EUA do Tratado de Paris — mas o facto é que a produção de carvão continua em queda, alinhando com os anos anteriores, por terem vingado outras formas de energia mais baratas e menos poluentes, como o gás natural. Em relação ao emprego, a sua administração foi do melhor ao pior: entre setembro de 2019 e fevereiro deste ano, os EUA chegaram a ter apenas 3,5% de taxa de desemprego, o valor mais baixo dos últimos 50 anos; mas no pico da pandemia chegou a bater nos dois dígitos, tendo em agosto estabilizado nos 8,4%.

Quatro anos depois, Trump pode não ter um relatório de contas perfeito a apresentar ao eleitorado branco de classe trabalhadora — e Marc Thiessen, membro do think-tank conservador American Enterprise Institute, acredita que esta importante fatia do eleitorado voltará a votar no republicano caso ele assuma os seus feitos e aponte para onde ainda pode melhorar, caso fique mais quatro anos na Casa Branca.

“Ele tem de reconhecer as suas próprias falhas e o facto de que a sua abordagem impetuosa de Nova Iorque às vezes parece mal às pessoas. A mensagem dele tem de ser esta: apesar das minhas imperfeições, estou a lutar por vocês. Com esta abordagem, ele pode manter a sua base eleitoral motivada e, ao mesmo tempo, expandi-la”, escreveu Marc Thiessen, antigo speechwriter da Casa Branca de George W. Bush.

"Ao longo de 47 anos, Joe Biden aceitou os donativos de trabalhadores de colarinho azul, deu-lhes abraços, até beijos, e disse-lhes que sentia a dor deles. E, depois, voou outra vez para Washington e votou a favor de mandar os nossos empregos para a China e para outras terras distantes."
Donald Trump, Presidente dos EUA

A estratégia, porém, tem sido outra: a de atacar Joe Biden e os pergaminhos pró-sindicatos e pró-trabalhadores que o seu adversário democrata diz ter. Essa estratégia ficou muito clara quando, no discurso de encerramento da Convenção do Partido Republicano, Donald Trump disse: “Joe Biden não é o salvador da alma da América, ele é o destruidor de empregos americanos e, se puder, será o destruidor da grandeza americana”.

E, depois, falou exatamente para quem queria: “Ao longo de 47 anos, Joe Biden aceitou os donativos de trabalhadores de colarinho azul, deu-lhes abraços, até beijos, e disse-lhes que sentia a dor deles. E, depois, voou outra vez para Washington e votou a favor de mandar os nossos empregos para a China e para outras terras distantes”. No fundo, para longe da Terra de Trump — e só lhe faltou dizer que “o capital não conhece fronteiras”, mas isso nem Karl Marx disse, apesar de muitos marxistas o terem escrito em seu nome.

Joe Biden, o “homem dos sindicatos”, quer o regresso a “casa” dos trabalhadores 

Este dia 7 de setembro, como em qualquer primeira segunda-feira de setembro, os EUA assinalaram o Dia do Trabalho (Labor Day). Finalmente desconfinado, Joe Biden passou grande parte do dia reunido com sindicatos, entre Lancaster e Harriburg, ambas cidades na Pensilvânia.

“Vocês vão ter o melhor amigo do trabalho que alguma vez esteve na Casa Branca”, garantiu, perante membros da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (ALF-CIO, na sigla inglesa). “Vamos garantir que as pessoas recebem o que elas merecem. Não basta elogiar os trabalhadores essenciais, está na altura de vos começarmos a pagar”, disse Joe Biden, que tem como uma das suas principais promessas o aumento do salário mínimo federal para os 15 dólares (12,70 euros) à hora — sendo, porém, omisso na calendarização dessa subida prometida. Atualmente, está nos 7,25 dólares (6,14 euros) — embora alguns estados tenham tomado a iniciativa individual de aumentar esse valor.

Joe Biden tem estado reunido com sindicatos. Depois de ter passado o Labor Day (7 de setembro) na Pensilvânia, no dia 9 de setembro foi ao Michigan para falar com trabalhadores da indústria do aço

Chip Somodevilla/Getty Images

Para Joe Biden, tão ou mais desafiante do que aumentar para pouco mais do dobro o salário mínimo federal, será convencer o eleitorado branco e sem estudos superiores a voltar ao Partido Democrata e renegar Donald Trump. Karl Marx disse que “a história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa” e Joe Biden, que no discurso de lançamento da sua campanha se definiu como um “homem dos sindicatos”, está disposto a tentar que o cenário atual se repita.

Por isso, tem feito também ele vários ataques ao seu adversário. Disse que Donald Trump “se esqueceu dos homens e mulheres esquecidos da América” e virou o slogan do republicano de pernas para o ar e atirou que a economia “só foi grande para os amigos ricos dele”.

Mas, além de atirar contra Donald Trump, Biden também tem puxado pela própria imagem. Nascido na proletária Scranton, cidade na Pensilvânia, o antigo vice-presidente e a sua equipa de campanha têm dado destaque às dificuldades financeiras vividas pela sua família quando o agora candidato presidencial era criança — motivadas, em grande parte, pelo desemprego do pai. De Scranton a família acabou por se mudar para outra zona de colarinho azul, no estado vizinho do Delaware.

"Vocês vão ter o melhor amigo do trabalho que alguma vez esteve na Casa Branca. Vamos garantir que as pessoas recebem o que elas merecem. Não basta elogiar os trabalhadores essenciais, está na altura de vos começarmos a pagar."
Joe Biden, candidato do Partido Democrata nas eleições presidenciais dos EUA, numa reunião com sindicatos

“É daí que eu venho”, disse, referindo-se a esse ambiente proletário. “É isso que eu sou. Estas são as pessoas com quem eu cresci. E por isso, até agora, graças a Deus, as sondagens têm demonstrado que muitas delas estão a voltar para casa.”

Para já, é assim que tem sido. Quando a pandemia atingiu os EUA e a campanha ganhou velocidade, Joe Biden ganhou distância em relação ao seu adversário em estados fulcrais (os swing-states) e onde o voto proletário tem grande importância, como a Pensilvânia ou o Michigan. Porém, tanto nesses estados como a nível nacional, a vantagem do democrata está a diminuir — e tudo isto sem que alguma vez tenha conseguido estar à frente de Donald Trump entre o eleitorado branco sem ensino superior.

Essa foi a experiência de um focus group inquirido por Stan Greenberg, estratega político com fortes vínculos ao Partido Democrata e ex-conselheiro de Bill Clinton e Al Gore. Num texto para a revista progressista The American Prospect, escreveu como aqueles eleitores brancos da classe trabalhadora tinham em grande parte abandonado Donald Trump primeiro pelo custo da saúde e depois por causa da pandemia, que Stan Greenberg diz ter sido “a tempestade perfeita”. “Nunca tinha visto uma discussão tão pungente sobre os problemas de saúde que as famílias e os seus filhos têm de enfrentar, os riscos que têm no trabalho e a perspetiva de os preços da saúde e dos medicamente ficarem ainda mais caros”, escreveu Stan Greenberg. “A gota de água foi um Presidente que lutou não pelos ‘americanos esquecidos’ mas por ele próprio, pelo 1% de cima e pelas empresas maiores e mais gananciosas.”

“Os mesmos eleitores ainda demonstraram estar muito cautelosas em relação a Joe Biden, que passa por velho e não muito forte, mas que acima de tudo apenas oferece a perspetiva de mudanças mínimas no sistema de saúde e que não parece estar pronto para desafiar o poder do 1% que está no topo."
Stan Greenberg, especialista em opinião pública

Nada disto, porém, quer dizer que Joe Biden seja uma alternativa clara para este eleitorado — antes pelo contrário, como notou Stan Greenberg: “Os mesmos eleitores ainda demonstraram estar muito cautelosas em relação a Joe Biden, que passa por velho e não muito forte, mas que acima de tudo apenas oferece a perspetiva de mudanças mínimas no sistema de saúde e que não parece estar pronto para desafiar o poder do 1% que está no topo. Como muitas outras pessoas da classe trabalhadora, estão à procura de um líder que faça grandes mudanças no sistema de saúde, que lute pelos trabalhadores contra as grandes empresas e que una o país para derrotar a atual crise económica e de saúde pública”.

Assim, tanto as sondagens como os focus groups indicam que, se Joe Biden é atualmente favorito para vencer as eleições com a ajuda de estados onde a classe trabalhadora é uma parte considerável do eleitorado, isso acontece não por causa dela mas apesar dela.

Porém, tanto nesses estados como a nível nacional, a vantagem do democrata está a diminuir — e tudo isto sem que alguma vez Joe Biden tenha conseguido estar à frente de Donald Trump entre o eleitorado branco sem ensino superior. Joe Biden estará convencido de que estes se terão perdido no caminho para “casa”, como o candidato chama ao Partido Democrata para a classe trabalhadora. Karl Marx talvez lhe respondesse que é tudo uma questão de “consciência de classe”.

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