Quem será o nosso futuro Chefe de Estado? O resultado apurado após terem sido contados os votos relativos aos múltiplos candidatos à Presidência da República no passado dia 18 de Janeiro oferece-nos uma resposta inconclusiva, pelo que se terá de ir a prolongamento: nas nossas mãos fica assim a responsabilidade de replicar definitivamente àquela interrogação que, para já, só foi respondida de pernas-para-o-ar. Com efeito, apenas excluímos todos os aspirantes que não achámos suficientemente competentes para virem a habitar, nos próximos 5 anos, o bonito e rosado palácio estrategicamente situado em frente da imponente e brasonada Praça do Império.

Falta agora completar esta história ainda sem fim, o mesmo é dizer-se, escrever o seu último capítulo. Como muitas vezes sucede quando se pega numa folha branca e se tem tão somente uma vaga ideia sobre a forma como se virá a desenrolar a prosa, também neste caso a narrativa foi surgindo por ela mesma, até nos depararmos com uma situação que já anuncia o termo da experimentada aventura das precedentes páginas: é isso que neste momento se passa, com apenas dois contendores ainda em liça , sabendo ambos que a meta da  chamada ´Corrida a Belém` está quase a ser atingida.

Crescentemente envolvidos na trama, entretanto criada e recriada, que por vezes se ia desenvolvendo à nossa revelia- surpreendendo-nos nessa sua vibrante dinâmica -, quase que não nos demos conta do caminho já percorrido e do tempo já passado. Urge agora e sem demora, encontrar uma sequência capaz e credível  a tudo o que, sobre os heroicos candidatos, foi sendo conhecido ao longo da sua peregrinação físico-política por cidades, aldeias, vales e montanhas, deste País que disseram repetidamente amar, sem ´mas` nem ´ses`: à primeira vista parece tarefa fácil, bastará instruir o chat gpt e serenamente aguardar que , com tantos dados recebidos desde o primeiro dia do período pré-eleitoral, apresente uma prosa final consentânea com o trajeto, por vezes duro e ingrato, calcorreado com sucesso pelos dois valorosos rivais.

Mas será assim mesmo, tão simples e automático? Se sim, porque razão não se encurta esta derradeira etapa, poupando toda a gente do esforço requerido pela repetição dos seus respetivos argumentos até se chegar ao dia 8 de Fevereiro?

Será efetivamente indispensável esperar até lá?

As três semanas de intervalo complementares entre as duas Voltas eleitorais, após um estendido período de demonstração, pelos dois concorrentes, das suas capacidades, não poderiam ser encurtadas? O que é que os cidadãos-eleitores ainda não sabem sobre os dois sobreviventes desta prova atlético-política onde se declinou com tanta abundância o universo pessoal de todos e cada um? Terão ainda, os dois interlocutores em questão, ideias e propostas fundamentais suplementares, inexplicavelmente esquecidas nos muitos dias já passados?

A quem serve, para além dos meios de comunicação em geral – cujo fond de commerce se consubstancia no acolhimento e disponibilização pública de informações suscetíveis de interesse para os seus destinatários – este prolongamento de 21 dias? Obviamente, não é coisa pouca o facto de se vir a verificar uma migração de milhares, senão milhões, de cruzinhas , antes inscritas no correspondente espaço no boletim eleitoral de outros concorrentes, que nesta específica situação irão ser transferidos para outras moradas. E isto suscita a cobiça tanto de Seguro como de Ventura, que procurarão seduzir esses migrantes-paraquedistas a decidirem a seu favor, e esse processo de conquista de gentes, em princípio com o coração e a vontade dirigidos para outras opções, exige normalmente um delicado – e relativamente moroso- tempo de preparação. É certo e sabido. Nem sequer é discutível.

E, não menos relevante – como pudemos verificar em determinadas ocasiões desta comprida aventura -, também não é mentira que, entretanto, possa acontecer, p.e., um novo escândalo protagonizado por um dos finalistas, como nomeadamente, afirmar, condescendente e humoristicamente, que uma mulher-presidente será sempre uma hipótese de futuro em Portugal. Imagina-se então que, até ao último instante, o disruptivo cisne negro possa surgir.

Isto tudo dito, 3 semanas de intervalo entre as duas votações afigura-se, insisto, um dispensável tributo ao desperdício de tempo assim materializado, que igualmente sucede no respeitante à posterior distância temporal entre a eleição e a data fixada para a efetiva tomada de posse do novo incumbente. Se a perspetiva dos candidatos justifica um tempo-extra que permita ser posta em prática a sua citada estratégia de sedução, os cidadãos-eleitores também mereceriam ser ouvidos.

Fica-se com a impressão de que, em vez de se acelerar a prevista mudança de inquilino no Palácio, se arrasta o status quo até que todos esqueçamos que é realmente relevante e urgente, para a nossa vida política, a concretização da entrada em funções da pessoa em quem maioritariamente votámos para assumir aquela alta distinção. Não será possível evitar-se este atraso-de-vida?

Começou em Dezembro, e acabará em Março: não seria possível, no futuro, uma cura de emagrecimento do processo eleitoral em geral? Muitos portugueses ficariam agradecidos.