1 Além dos abusos de poder e do síndrome Luís XIV (“a lei sou eu”) que obrigaram Richard Nixon a abandonar a Presidência dos Estados Unidos, o caso Watergate tem um lado pouco conhecido relacionado com as campanhas sujas levadas a cabo por mais de 50 operacionais contra candidatos democratas um pouco por todo o país.

Financiados com donativos para a campanha de 1972 que culminou com a reeleição de Nixon, esses operacionais tinham o nickname de “plumber’s” (canalizadores) e faziam trabalhos tão extraordinários como vigiar através de meios intrusivos os candidatos democratas e as suas famílias, investigar e elaborar dossiês sobre as suas vidas familiares e sexuais, falsificar cartas envidas para jornais, passar informação falsa e manipulada à imprensa, etc, etc.

Como sempre aconteceu desde que surgiu o conceito de campanhas sujas, o objetivo era só um: aniquilar o adversário. No caso, sempre sob supervisão e orientação dos assessores mais próximos de Nixon na Casa Branca.

2 As campanhas sujas não são muito comuns em Portugal. Àparte do relacionamento de Francisco Sá Carneiro com Snu Abecasis (explorado pelo PS de Mário Soares sem apelo nem agravo) em 1980, dos boatos sobre a homossexualidade de José Sócrates na campanha de 2005 e de outros casos, os escândalos (nomeadamente sexuais) não são o forte da política nacional, felizmente.

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Não deixa por isso de ser extraordinário que a possível candidatura de Paulo Rangel à liderança do PSD tenha levado a uma campanha suja que começou em julho com um vídeo nas redes sociais que mostrava o eurodeputado embriagado nas ruas de Bruxelas após um jantar com amigos. A ideia era simples: apresentar Rangel como alguém incapaz de se controlar para o descredibilizar.

Infelizmente para os autores da dia campanha, a ideia não pegou porque a reação geral foi igualmente simples: quem nunca jantou com os amigos e bebeu um copo a mais? Até os contabilistas espartanos com camisinhas Triple Marfel já terão feito o mesmo.

Dias depois, novo episódio, desta vez relacionado com a homossexualidade de Paulo Rangel na capa do ressuscitado “Tal e Qual”. Uma capa cínica, claro, em que a suposta notícia do orientação sexual é enquadrada como “campanha negra” que, pasme-se!, é denunciada pelo suposto jornal. Só alguém muito tacanho e provinciano pode pensar que o Portugal de 2021 dá importância à orientação sexual um político para avaliar a mais valia das suas propostas.

A entrevista corajosa que Paulo Rangel deu ao programa “Alta Definição” (SIC) foi a melhor resposta a toda a campanha negra organizada contra si. De forma natural e eficiente, assumiu o que entendeu que devia ser assumido, explicou a circunstância familiar e falou de forma muito aberta (coisa rara em Portugal) sobre a sua vida.

O facto de Rangel necessitar de dar esta entrevista para calar os ‘canalizadores’ nacionais não deixa de uma prova do autêntico submundo e esgoto em que uma parte dos bastidores do PSD está mergulhada. Há alguns setores social-democratas que não têm pejo em recorrer a campanhas sujas para tentar diminuir os seus adversários políticos.

3 Do ponto de vista meramente político, a entrevista de Paulo Rangel a Daniel Oliveira não deixa margem para dúvidas de que é candidato à liderança do PSD. Rangel não se exporia da forma como se expôs, se não tivesse a intenção clara de tentar conquistar o poder interno social-democrata. Isso é claro.

Obviamente que o resultado catastrófico do PSD que se adivinha nas autárquicas de 26 de setembro e o péssimo trabalho de Rui Rio como líder da oposição serão as razões imediatas para uma candidatura. Depois virão as questões estruturais:

  • qual o posicionamento ideológico de Rangel? É um verdadeiro social-democrata como Rui Rio ou acredita num PSD que seja uma síntese de ideias reformistas social-democratas e liberais, sem desprezar totalmente um lado conservador que sempre marcou o eleitorado do PSD?
  • Rangel quer continuar a entregar o eleitorado do centro-direita de mão beijada ao Chega e à Iniciativa Liberal? Também defende o cordão sanitário em redor do Chega e nunca se coligará com André Ventura depois de António Costa se ter aliado à extrema-esquerda?
  • Vai continuar a dar mão ao PS de António Costa sempre que este precisar? Qual o seu posicionamento face ao Governo socialista?
  • e o mais importante de tudo: que reformas prioritárias defende para Portugal voltar a crescer acima da média europeia de forma estrutural? Como poderemos recuperar poder de compra para nos aproximarmos da média europeia? O que Portugal deve fazer com os milhares de milhões de euros europeus do Programa de Recuperação Económica?

Apesar de estar a posicionar-se há mais tempo — e de ser o candidato que, fora Passos Coelho, mais receio motiva nas hostes de Rui Rio —, Rangel não é o único nome na oposição que poderá disputar o poder nas eleições internas do PSD em 2022. Jorge Moreira da Silva, Miguel Poiares Maduro ou até mesmo Carlos Moedas (se conseguir um milagre muito pouco provável de ganhar as eleições em Lisboa) são nomes a ter em conta.

O que nos leva à questão estratégica essencial: se Rui Rio apresentar a sua recandidatura, o que fará a oposição interna? Une-se em redor de uma candidatura ou divide-se em várias candidaturas? Não tenho qualquer dúvida que a única resposta possível é a primeira opção. Só uma oposição unida em redor de um candidato (seja Paulo Rangel, seja outro) tem hipóteses de ganhar as eleições internas.

Como Pedro Santos Guerreiro escreveu, Paulo Rangel colocou os seus “inimigos no armário”. Resta saber se terá capacidade para unir a oposição interna para tirar o PSD das catacumbas da obscuridade em que aquele que foi o maior partido português durante largos anos está envolvido.

Texto alterado às 12h29 com clarificação do lead