Desde há muito que a União Europeia (EU), e a própria Europa como um todo, estão dependentes de terceiros nas mais variadas áreas: energia, defesa, recursos minerais, alimentar, tecnologia, manufatura, entre outros. Pouco ou nada foi feito para contrariar essa dependência, muito embora estivesse abundantemente identificada e sinalizada junto dos decisores políticos.

A pandemia e a guerra na Ucrânia vieram dar o sinal de alerta despertando atenções junto da opinião publica, o que forçou finalmente a tomada de algumas ações. Por sua vez o famoso relatório Draghi, bem como o relatório Letta, vieram pôr o dedo na ferida, identificando fraquezas e apontando caminhos, mas como sempre, os diferentes lobbies e interesses nacionais vieram colocar em causa o(s) relatório(s) nas áreas que os afetavam negativamente.

Assim, foi o Furacão Trump, que com as suas medidas oportunistas e mercantilistas, veio agitar as águas e soar todos os alarmes. O choque de ver os Estados Unidos da América (EUA), guardiões da liberdade e maior aliado da Europa há décadas, passarem de protetor e parceiro confiável para um concorrente temível é um terramoto que obriga a Europa a agir destemida e urgentemente.

Muito embora as mais diversas áreas de dependência da Europa tenham interligações entre si foquemo-nos na componente tecnológica, onde a dominância americana é quase absoluta, com a rara exceção da súbita e brutal emergência tecnológica chinesa.

Assim, o que pode a Europa fazer para reduzir a dependência tecnológica de terceiros?

Aumentar o financiamento em investigação e desenvolvimento (I&D) especialmente em áreas como a Inteligência Artificial (IA), semicondutores, cibersegurança e computação quântica.

Desenvolver a indústria dos semicondutores, suportando iniciativas como o European Chips Act (2022), que ambiciona desenvolver o financiamento, investigação e produção locais, bem como apostar na regulação.

Fortalecer serviços locais de computação na cloud que reduzam a dependência das big-tech americanas que dominam o mercado global.

Reforçar a legislação relativa à segurança da proteção de dados e reduzir a dependência dos EUA, bem como expandir o Gaia-X, uma iniciativa europeia de criação de uma Infraestrutura digital federada para promover a soberania dos dados e a colaboração dentro da União Europeia.

Acelerar os sectores da defesa e aeroespacial apostando em tecnologia europeia e reforçando a Agência Espacial Europeia bem como expandindo sistemas como o Galileu (alternativa ao GPS) ou o IRIS2 e o Eutelsat, ambos alternativos ao Starlink de Elon Musk.

Estimular e acelerar a criação de Startups e BigTechs inovadoras através da regulação e financiamento.

Procurar parcerias estratégicas com outros territórios que não os EUA. Japão, Coreia do Sul, Índia entre outros, são parceiros com capacidades relevantes e que, em função das políticas de Trump, estarão seguramente interessados em reforçar os laços com outros países/blocos que não os EUA.

Claro que entre a lista de boas intenções e programas comunitários (e não só) acima mencionados e a sua exitosa implementação vai uma grande distância. Tal como aponta o relatório Draghi é preciso (muito) mais financiamento, menos (ou melhor) regulamentação, incentivos à criação de grandes “campeões europeus”, bem como uma cultura que propicie a inovação, a ambição de crescimento e o risco, criando adicionalmente proteções para que as empresas europeias não sejam adquiridas e desmembradas ou diluídas pelas suas concorrentes americanas ou chinesas que assim perpetuam a incapacidade de a Europa lutar de igual para igual.

Dinheiro é coisa que não falta na Europa e o papel da Comissária Maria Luís Albuquerque, responsável pelos Serviços Financeiros e União da Poupança e dos Investimentos, passa também por garantir que as poupanças (estimadas em 10 biliões de euros – os trillions americanos) no bloco comunitário passem a ser aplicadas na melhoria das condições de financiamento, apoiando o investimento e a competitividade da economia e agentes económicos da UE.

No que se refere a regulamentação começa a haver movimentos para garantir condições de maior competitividade das empresas europeias, estabelecendo um level playing field com empresas de outros blocos, ainda que a custo, quer do ambiente (ao reduzir as exigências ambientais das entidades que aqui estão estabelecidas e/ou tem atividade económica), quer de um orientação concorrencial mais protetora dos consumidores (ao permitir e estimular a consolidação de entidades para formar campeões europeus corre-se o sério risco de diminuir a concorrência nos diferentes mercados locais prejudicando os consumidores).

É preciso também uma mudança de mentalidades que fomente essa cultura de inovação e risco que, por sua vez propiciam crescimento e liderança. Saliento nesta área a inestimável oportunidade de atrair para a Europa milhões de trabalhadores altamente qualificados (cidadãos americanos ou não) que trabalham no sector tecnológico nos EUA e que, desiludidos e/ou envergonhados com as políticas da administração Trump e do alinhamento com as mesmas por parte de vários colossos empresariais norte-americanos, estarão disponíveis para virem trabalhar na Europa, trazendo conhecimento e dinâmica às nossas empresas e universidades, bem como ambição e ideias frescas, caso lhes sejam dadas condições minimamente comparáveis a nível profissional e económico.

O mesmo se aplica aos muitos investidores presentes no mercado americano.  É um modo eficaz, inteligente e humano que a Europa tem de rapidamente criar/atrair conhecimento e capital, reforçando a sua diversidade, exatamente o contrário do que os EUA estão a fazer, e aculturando as pessoas que para cá decidirem vir.

Como tal, existe dinheiro, capacidade, intenção e aparentemente ação para a Europa reduzir a dependência na área tecnológica, mas aqui chegados surgem as questões mais interessantes: 1) Podemos alcançar uma autonomia tecnológica no curto-médio prazo e 2) Queremos ser tecnologicamente autónomos dos EUA?

É impossível alcançar essa autonomia tecnológica no curto ou médio prazo. Tendo em conta o avanço dos EUA na área tecnológica, é inconcebível pensar que a Europa (ou qualquer outro território, exceto a China) consiga tornar-se autónoma dos EUA, em menos de 15 a 20 anos. Para mais, o caminho para a autonomia implicaria o recurso a soluções e tecnologias europeias que seriam numa primeira fase, menos eficientes que as americanas (que também continuarão no seu processo de evolução) e sobretudo, que não beneficiariam do efeito de escala e rede que as americanas têm atualmente por estarem implementadas em todo o planeta.

Mas mais importante, parece-me errado querer atingir essa autonomia em relação aos EUA. O que a Europa deve procurar é atingir a complementaridade e integração tecnológica com os EUA. No fundo, uma estratégia de coopetição, ou seja, de competição e cooperação simultâneas. Todos as medidas anteriormente mencionadas são importantes para reduzir a dependência tecnológica dos EUA, mas não no intuito de nos tornarmos autónomos, e sim no de criarmos uma tal interligação que nenhum dos blocos (Europa e EUA) alcance a supremacia ou autonomia tecnológica.

A Europa deve colocar-se numa posição em que, continuando a utilizar tecnologia americana (até para a compreender e poder assim tirar o maior partido dela), consegue criar alternativas que, em vez de a substituírem (com exceção das redes sociais, tema a desenvolver noutro artigo), a possa complementar e fortalecer.

Só assim se conseguirá manter a colaboração internacional, que é em benefício de todos, garantir que todos os players são “obrigados” a cumprir com as regras europeias (seja ao nível da proteção de dados, princípios éticos da IA, etc.) e assegurar que os EUA, ou qualquer outro país, sintam que têm mais a perder com uma estratégia de imposição e ameaça do que com uma estratégia de coopetição.

A ascensão de Trump e as suas políticas são absolutamente assustadoras, mas há males que vêm por bem e este pode ser a oportunidade de Make Europe Great Again.