É verdade que ao longo de muitos anos já me chamaram de tudo. Fascista, direita fofinha, direita de que a esquerda gosta, woke, esquerdalho, até André Ventura para aí há uns anos achou por bem anunciar ao mundo que eu era um daqueles que está sempre do lado dos bandidos. Sinto-me, portanto, apto a lidar com rotulagem, até porque tenho uma grande dificuldade em colocar um rótulo a mim próprio. Talvez por isso, e a propósito do que está em jogo no próximo domingo, sinta que é mais fácil elencar uma boa dose de princípios e valores que me conduziram a uma determinada opção num acto da natureza da eleição para a presidência da República.

Valorizo o Estado como continuidade histórica, como símbolo de unidade e estrutura institucional que está acima das estruturas partidárias. Procuro, por isso, um presidente com cultura de Estado, que não pretende instrumentalizar a presidência nem servir interesses partidários ou ideológicos. Desprezo quaisquer formas de estatismo e colectivismo, sei que somos o produto das nossas escolhas, mas também sei que não somos só o que escolhemos. Valorizo a moderação como virtude cívica aliada à firmeza de princípios. Gosto de líderes determinados, e não de líderes que, falando alto e esbracejando, hesitam constantemente e mudam de ideias a cada sensação. Aprecio líderes políticos que sabem que a autoridade decorre do exemplo e da responsabilidade e não do ruído. Valorizo o amor ao país como um dever discreto e constante, não como um slogan ou um trunfo. Tenho reservas sobre engenharias sociais e ideologias moralizantes. Dou mais valor à prudência do que ao entusiasmo pelas modas políticas. Sei que a honra e a dignidade têm peso público, e que saber perder, saber sair e saber ganhar dizem mais da dignidade de um líder político do que a sua jovialidade. Vejo com desconfiança a política convertida em espectáculo. Valorizo a memória colectiva, as raízes, a continuidade institucional e cultural de um povo. Prezo quem respeita os limites do cargo que ocupa, as funções que tem e a ordem institucional. Prefiro políticos que falam pouco, e que não confundem o cargo com um palco, nem uma campanha forte com um circo. Aprecio a previsibilidade como pilar de confiança. Sei que é mais importante saber o que esperar de alguém do que entusiasmar-me com ele. Desconfio de salvadores, homens providenciais e daqueles que se julgam acima de todos os outros. Defendo uma presidência que modera, vela, cuida e não interfere activamente na governação, dando antes espaço a que todas as políticas sejam implementadas dentro dos limites da ordem institucional. Prezo o dever acima do desejo e a contenção acima do exibicionismo. Prefiro a discrição firme à vaidade periclitante. Valorizo a coesão nacional, a pertença, o enraizamento numa comunidade nacional. Rejeito a hegemonia cultural do progressismo infinito, como se ele fosse uma possibilidade. Não vejo a liberdade como ausência de limites, mas como exercício de responsabilidade pessoal. Gosto de quem, optando por uma vida na política, não é refém do seu partido, do seu ego ou dos seus clientes. Respeito quem não se envergonha do seu passado, preferindo-o a quem pretende ser o que nunca foi. Valorizo a despartidarização do Estado e a redução da lógica de favores e retribuições políticas. Desconfio de rupturas revolucionárias e prefiro a mudança por via lenta, progressiva e cautelosa. Admiro a ética do comportamento individual, da palavra dada, da compostura no recuo, de quem não nomeia herdeiros nem faz sombra a vencedores. Prefiro servidores perenes a estrelas cadentes do mediatismo. Sei que as instituições servem de travão aos abusos de poder. Não gosto de culturas de vitimização e de identidades ressentidas. Prefiro representantes do todo nacional a porta-vozes de sectores partidários ou ideológicos. Gosto de quem não tem medo de ser impopular, na medida em que me dá maiores garantias de rejeitar o facilitismo. Não gosto da degradação do espaço público, da tabloidização da política e de uma sociedade não hierarquizada nas suas competências e no seu mérito, mesmo que o seja na dignidade que é conferida a todos. Quero um presidente mais árbitro do que combatente, mais integrador do que agitador, mais motor de soluções do que de conflitos e intriga. Acredito mais numa via presidencial conservadora do que no revolucionarismo de um líder de facção. Gosto que, ainda assim, um presidente da República tenha coragem de ir contra consensos instalados, e gosto mais ainda que tenha provas dessa coragem. Gosto de políticos que se estão nas tintas para agradar a comentadores, jornalistas e faixas bem-pensantes do espaço público. Não quero um presidente que use Belém como trampolim para si mesmo ou para uma versão ideológica do Estado, nem como palco da sua própria vaidade. Estou muito farto de gente que quer parecer ser isto ou aquilo, sobretudo que queira parecer ser jovem ou, pior, «refrescante».

Sem vergonhas ou hesitações, optei por tornar público o meu apoio a António José Seguro – a primeira vez que o fiz, ainda ele não era candidato, foi nos idos de Novembro de 2024, num dos episódios do Linhas Direitas, e não mudei de ideias com esta campanha. Seguro é tudo o que a direita costumava admirar numa figura de Estado. E, quando estamos a um passo do fim da campanha da primeira volta, parece-me evidente que, dos cinco candidatos capazes de passar à segunda, foi ele o único que demonstrou que, não tendo passado uma década a trabalhar para alcançar o cargo, também foi aquele que não precisou do cargo ou da campanha para se mostrar numa determinada versão revisitada de si próprio. Não são poucas as razões pelas quais a direita portuguesa pode, perante o elenco do boletim eleitoral, olhar para ele e ver ali a ausência de messianismo, de histrionismo e de farsa mediática. Alguém que preze, simultaneamente, os valores da liberdade, da prudência, da unidade nacional, não tem muito por onde escolher. Há quem ache que isto é pouco. Eu acho que tudo isto é raro. Não é uma traição de identidade, mas um acto de clarividência. O melhor que nos calhou foi um homem de esquerda. O que diz muito da direita, mas talvez essa conversa tenha de ficar para depois.