Nos artigos anteriores: “Dar voz ao silêncio: viver a alienação parental como madrasta (I)” (08 de maio de 2026), “O início da relação: quando a madrasta entra numa história já marcada pela alienação (II)”, “Conflitos, medo, mentiras e lealdades divididas: testemunho de uma madrasta de um filho alienado (III) e “Rotinas e presença: a luta de uma madrasta e um pai alienado para manter o vínculo com o filho alienado (IV).

Neste texto, partilhamos o testemunho de Inês sobre um tema particularmente sensível: a forma gradual como foi conseguindo construir o seu lugar na vida de Lourenço, seu enteado, nomeadamente nas transições entre famílias, evitando a sua exclusão.

As transições entre casas são frequentemente alguns dos momentos mais difíceis para crianças que vivem em contextos de alienação parental.  Inês refletiu connosco sobre esta realidade, de forma particularmente clara: “Eu acho que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer dos verdadeiros interesses de quem está no meio destas situações, que são sempre os filhos. E acredito que, para eles, isto seja extremamente duro, porque vivem constantemente com a sensação de que estão a falhar com alguém. É quase como pensar: ‘Se eu gosto da minha avó, gosto do meu pai, gosto da minha madrasta, porque é que depois me dizem para não falar ou para não dizer determinadas coisas?’ Ao mesmo tempo, as próprias pessoas importantes da vida deles acabam por se tratar quase como estranhas. E a criança fica sem perceber: ‘Então afinal, como é que eu devo agir?’”.  As suas palavras mostram um dos aspetos mais dolorosos da alienação parental: a situação em que a criança deixa de se sentir livre para gostar de todas as pessoas importantes da sua vida. Em vez disso, passa a viver num permanente conflito de lealdades, preocupada com a possibilidade de magoar alguém. Segundo Inês, as crianças observam muito mais do que os adultos imaginam: “As crianças aprendem muito mais através do ambiente, das atitudes e da forma como os adultos se relacionam, do que propriamente através daquilo que lhes dizemos. Por isso, acredito que tudo isto seja muito confuso para uma criança que está a construir a sua ideia de família e as suas referências afetivas. No fundo, a mensagem que recebem é contraditória: é suposto respeitarem e gostarem das pessoas importantes da sua vida, mas depois assistem a críticas, tensões e distanciamentos entre esses mesmos adultos”.

A família é o primeiro espaço onde uma criança pode aprender o significado dos vínculos, da confiança e da pertença. Quando os adultos que ama não conseguem coexistir de forma respeitosa, a criança pode sentir-se perdida, sem saber como expressar os seus afetos, com o receio de desagradar a alguém.

Nesta família, ao longo de muitos anos, existiu também uma grande distância entre os diferentes lados da família. Inês nunca chegou a conhecer a avó materna de Lourenço, apesar da importância que esta figura tinha na vida da criança, agora jovem. Quando questionada sobre essa possibilidade, respondeu com serenidade: “Pode ser um dia quando o Lourenço casar. Que aconteça isso, como foi nos 18 anos. Mas dessa festa dos 18 anos, eram só as famílias. Foi o próprio Lourenço que pediu”.  Este testemunho revela que, muitas vezes, são os próprios filhos que procuram construir pontes entre pessoas que estiveram afastadas durante anos. O pedido de Lourenço para reunir as diferentes famílias no seu 18.º aniversário traduz o desejo que tantas crianças e jovens têm de não ter que escolher entre as pessoas que amam e poder manter todas na sua vida.

As férias eram momentos particularmente delicados. As transições entre famílias tornavam-se inevitáveis e o Lourenço parecia sentir profundamente o desconforto desses momentos. A este propósito, Inês contou-nos: “E eu lembro-me de perceber que, muitas vezes, ele se sentia constrangido nestes momentos de transição. Por exemplo, nas férias, houve situações em que a mãe estava no Algarve — porque, na altura, o marido dela vivia lá — e nós também íamos passar um fim de semana com amigos naquela zona. Nessas ocasiões, já era permitido que o Lourenço estivesse connosco durante algum tempo”. E acrescenta: “Então, íamos buscá-lo e, depois, voltávamos a entregá-lo para continuar as férias com a mãe. Mas aquele momento da troca era claramente desconfortável para ele. Talvez também pelo facto de eu estar presente e, por vezes, também o padrasto. Via-se que ele não se sentia verdadeiramente à vontade naquela situação. E não deveria ser assim. Não deveria haver aquele ambiente pesado, porque, no fundo, não havia nada de errado em ele estar com ambas as famílias. Mas acabava por existir aquele mal-estar, quase como se estivéssemos a ‘trocar mercadorias’, e isso tornava tudo muito frio e desconfortável para uma criança”. Inês acredita que Lourenço vivia estes momentos com muitas dúvidas internas: “E acredito que, para ele, também existisse muito esta dúvida interna de: ‘O que é que eu posso dizer? Como é que me devo comportar? Despeço-me ou não? Dou um abraço ou não?’ São coisas aparentemente simples, mas que, nestes contextos, acabam por ganhar um peso enorme. Na verdade, ele também estava poucas vezes presente nesses momentos de transição entre famílias, porque nós tentávamos evitar ao máximo essas situações. Sabíamos que acabavam por gerar mal-estar e tensão e, sinceramente, não havia necessidade de o expor a isso”.  Por essa razão, sempre que possível, procuravam evitar estarem todos presentes nessas situações: “Mas houve situações, sobretudo nas férias no Algarve, em que isso acontecia inevitavelmente. Lembro-me de várias vezes virmos de Faro e deixarmos o Lourenço perto de Portimão para ele continuar as férias com a mãe. Nessa altura já vínhamos todos no carro,  eu, o meu marido e as minhas filhas, e era impossível evitar aquele momento de passagem. Quando as trocas aconteciam cá, no dia a dia, normalmente era só o meu marido que ia buscá-lo ou levá-lo, precisamente para tentar evitar mais tensão e mais situações desconfortáveis”. Assim, durante muitos anos, a presença de Inês parecia também dificultar os momentos de relação entre pai e filho: “Era sempre mais fácil se fosse só com o pai. Era uma autorização desde que fosse só o pai”.

Mas essa foi sempre uma dificuldade incerta, as transições familiares eram marcadas pela imprevisibilidade constante: “Assim, era muito dito dia a dia, uma coisa um bocadinho sem saber muito bem o que é que ia acontecer. (…) Eu acho que isso foi o mais desgastante, foi nunca sabermos muito bem o que é que poderia sair dali, o que é que hoje vai acontecer. E portanto, isso foi bastante difícil”.  Quando Lourenço era mais pequeno, as limitações eram ainda mais evidentes: “Quando ele era mais pequeno, sim, era bastante mais difícil (…) Lá está, porque se por acaso era permitido que ele já ficasse em casa do pai, por exemplo uma noite, quando ele era mais pequenino, ou passar a tarde, por exemplo, não era suposto eu estar (…)Só podia ficar se fosse só com o pai, sim”.

Sobre o impacto pessoal desta exclusão, Inês admitiu que: “É difícil, é muito difícil, porque lá está, uma pessoa sente que não faz parte e quer fazer parte”.  Apesar disso, procurou sempre respeitar os tempos da criança: “E se calhar isso tem muito a ver também com o meu feitio, não é? De ter sempre este cuidado de também não ser intrometida, ou não estar a forçar algo que também não saia naturalmente”.

O maior receio de Inês não era a rejeição por parte da mãe de Lourenço. Era algo muito mais simples e humano: “Depois, ao mesmo tempo, há estas inseguranças de ‘mas será que a própria criança me vai aceitar?’ Mais do que a mãe, sinceramente, aquilo que me importava era: ‘então será que ele me aceita?’ Porque eu estou a começar uma relação que é uma relação com o pai e o filho, não é só com o pai”

A mudança só aconteceu quando Inês e o pai do Lourenço decidiram casar e viver juntos. “Foi quando eu e aquele que é hoje o meu marido casámos e passámos finalmente a viver juntos que a situação acabou por mudar. A partir desse momento, deixou de existir outra alternativa possível. Houve quase esta ideia de: ‘Agora tem mesmo de ser assim’, porque já não fazia sentido continuarmos a organizar tudo como se fôssemos vidas completamente separadas”. E acrescenta: “Até então, existiam muitos cuidados, muitas adaptações e muitos receios em relação à minha presença enquanto madrasta. Mas, quando passámos a viver juntos, tornou-se inevitável assumir que éramos uma família e que o Lourenço faria parte dessa dinâmica. A partir daí, já não houve mais impedimentos relativamente à minha presença. Depois desse momento, nunca mais fui impedida de estar com ele”.

A relação entre a Inês e o Lourenço foi construída devagar, através de pequenas experiências partilhadas. “Lá está, nós também não o queríamos colocar numa posição em que tivesse de mentir ou esconder coisas. Acho que isso não fazia sentido. E existia sempre aquele receio de o perdermos, não é? Porque esse também era um medo muito presente. Por isso, aquilo que fomos fazendo foi uma aproximação muito gradual. Íamos, por exemplo, ao Jardim Zoológico e eu também ia estando presente nesses programas de forma natural. Tentávamos criar momentos simples — passeios, saídas, atividades em conjunto, onde eu pudesse estar com ele e ir construindo também a minha própria relação com o Lourenço”.

Mas sempre com cautela para respeitar o seu ritmo de adaptação à relação, apesar da sua idade: “Mas havia sempre o cuidado de não ultrapassar determinados limites para que isso não acabasse por lhe provocar desconforto. Talvez ele ainda fosse muito pequeno para compreender totalmente o que se passava, mas eu acredito que as crianças percebem muito mais do que os adultos imaginam. Captam a energia, a tensão e o mal-estar entre os adultos, mesmo quando ninguém lhes explica diretamente o que está a acontecer. E também existia o receio de que, se sentissem que tínhamos ido contra aquilo que era permitido, isso pudesse depois trazer consequências, como ouvirmos: ‘Agora fizeram contra o combinado e, por isso, deixa de ser possível’”.

Sobre Lourenço, Inês recorda que não era uma criança que verbalizasse facilmente aquilo que sentia, mas isso não significava ausência de bem-estar ou de relação. Pelo contrário, a madrasta acredita que Lourenço encontrava segurança precisamente na possibilidade de estar com o pai e com ela sem sentir a obrigação de justificar os seus sentimentos ou explicar as suas experiências a ninguém. Como partilha Inês: “Ele era ainda muito pequenino e nunca foi uma criança de falar muito sobre aquilo que sentia. Mas, sinceramente, acredito que sempre se sentiu confortável connosco, sem precisar de verbalizar isso. No fundo, parecia existir nele esta necessidade de simplesmente poder viver aqueles momentos sem depois ter de os justificar ou explicar a alguém. Como se pudesse aproveitar o tempo connosco sem ter de dizer se esteve bem, se gostou ou se não gostou. E nós também nunca o colocámos nessa posição. Nunca lhe perguntávamos ‘o que é que fizeste?’, ‘o que é que não fizeste?’ ou tentávamos obter informações sobre o outro lado”. Este testemunho evidencia uma estratégia frequentemente associada à proteção emocional da criança em contextos de conflito parental, permitir que a criança viva os seus afetos livremente, sem interrogatórios, sem necessidade de prestar contas e sem a pressão de escolher lados. Ao evitar colocar Lourenço numa posição de mensageiro ou de observador da vida do outro progenitor, Inês e o marido procuravam criar um espaço seguro, onde pudesse simplesmente ser criança e desfrutar dos momentos partilhados sem medo de desiludir ninguém. Trata-se de uma atitude que favorece a construção de vínculos seguros, reduzindo o peso dos conflitos de lealdade tão comuns em situações de alienação parental. E concluiu: “Não era esse o caminho. Aquilo que procurávamos transmitir-lhe era: ‘Estás à vontade, não tens de esconder nada, nem tens de escolher lados.’ O importante era que ele pudesse sentir-se tranquilo e viver aqueles momentos de forma leve, sem pressão e sem sentir que precisava de responder às expectativas dos adultos”.

Este testemunho de Inês mostra-nos que a alienação parental não afeta apenas a relação entre pais e filhos. Afeta madrastas, padrastos, avós, irmãos e todos aqueles que procuram construir um vínculo saudável com a criança. Revela-nos também que, muitas vezes, a maior necessidade de uma criança não é a de escolher entre as pessoas que ama, mas sentir-se livre para amar todas elas. E recorda-nos que os vínculos mais seguros não se constroem através da imposição, mas através da presença, da paciência, do respeito, com tempo.