Se não tivermos como objectivo o absoluto rigor, então há acontecimentos passados que se transmitem e conhecem melhor, mais profunda e intensamente, através da literatura — e tão bem ou ainda melhor através do teatro ou do cinema — do que por intermédio de um livro de História. Porquê? Sobretudo porque, ao contrário do que sucede com a História, na literatura — e no teatro e no cinema — podemos apelar às emoções. O bom romance histórico, tal como a peça teatral ou o grande filme, transmite ao leitor o sentimento, a raiva, o amor, a crueldade, o medo, a alegria, que estão ausentes dos factos narrados numa obra historiográfica.

Em 1987 a escritora afro-americana Toni Morrison publicou Beloved, um grande romance histórico sobre a condição dos negros no Kentucky e no Ohio de meados do século XIX. O romance viria a vencer o Pulitzer, no ano seguinte, e terá contribuído substancialmente para justificar o Nobel da Literatura que Toni Morrison ganhou em 1993. Como seria inevitável pelos espaço geográfico e período cronológico em que a narrativa decorre, a escravatura está muito presente em Beloved e quem ler o livro ficará com uma ideia muito realista dos horrores físicos e psicológicos vividos e sentidos pelo escravo a quem puseram um freio na boca, como forma de punição; ou por Sethe, a escrava fugitiva, que mataria uma filha bebé para que ela não fosse recapturada; ou pela mãe de Sethe que, na travessia do Atlântico, foi muitas vezes usada pela tripulação do navio negreiro e que, já no Kentucky, acabaria por ser enforcada; ou, ainda, pela sogra de Sethe que nem tivera tempo para se despedir das suas duas filhas, que ainda tinham dentes de leite quando foram vendidas.

Na África subsariana teria sido muito diferente? Os detalhes, claro, difeririam, por vezes de forma acentuada, mas o desenlace podia ser idêntico, até mesmo para os escravos geralmente bem tratados, e a literatura transmite-nos isso mesmo, como pode constatar-se, por exemplo, no romance Quando Tudo Se Desmorona, que o escritor nigeriano Chinua Achebe publicou em 1958. No início dessa obra, passada na viragem do século XIX para o XX no que é a actual região meridional da Nigéria, uma mulher de Umuofia foi morta na povoação vizinha de Mbaino. Para evitar a guerra entre as duas povoações a gente de Mbaino ofereceu um rapaz e uma rapariga como forma de compensação aos vizinhos de Umuofia, tendo ficado ambos a ser propriedade dessa povoação. O rapaz ficou assustadíssimo quando, indiferentes às lágrimas da sua mãe, os homens de Umuofia o foram buscar a casa e o entregaram a um estranho, com o qual viveu durante três anos integrado na família. Todavia, passados esses três anos, a aldeia de Umuofia decidiu matá-lo. Disseram-lhe que o iriam levar de regresso a Mbaino, à sua casa e à sua mãe, mas, no caminho até lá, foi o próprio homem em casa de quem vivera e a quem se habituara a chamar pai que lhe deu a facada final.

A escravatura era — e onde existe de forma ilegal ainda é — uma abominação, mas essa abominação não tocou nem toca unicamente, nem sequer particularmente, a gente africana. Foi um horror universal. É um erro pensar que apenas os negros passaram por estas ou ainda piores violências. Os tormentos da escravatura marcaram a história da humanidade durante milénios — convém não esquecer que em termos históricos a proibição da escravatura é relativamente recente — tanto no Velho como no Novo Mundo. E porque assim foi encontram-se naturalmente os ecos desses tormentos na literatura que tem por objecto acontecimentos da história de todo e qualquer tempo e das gentes de toda e qualquer cor de pele.

Um exemplo entre muitos. Em 1862, cinco anos após o seu Madame Bovary ter visto a luz do dia, Gustave Flaubert publicou Salambô, um romance histórico passado no Norte de África, na actual Tunísia, no século III a. C. A trama gira em torno de uma grande revolta de mercenários contra Cartago e da paixão de Mathô, o líder dessa revolta, por Salambô, a filha de Amílcar Barca e irmã mais velha de Aníbal, então ainda uma criança. Num dos momentos de maior aperto militar para os cartagineses, com a sua cidade cercada e sem água devido à destruição do aqueduto, as autoridades de Cartago decidiram-se por um enorme sacrifício humano. Exigiam que cada cidadão cartaginês entregasse os filhos ainda crianças para serem atirados para uma fornalha na esperança de que assim se aplacasse a cólera do deus Moloch e se salvasse a cidade. Apesar dos gritos e prantos das mulheres, os homens de Cartago resignaram-se ao cumprimento da ordem e o poderoso Amílcar Barca foi, também ele, chamado a entregar o seu filho, que não era conhecido pois não crescera nem fora educado na cidade. Quando os sacerdotes vieram buscá-lo, Amílcar amarrou-o, amordaçou-o, escondeu-o debaixo de uma cama e ordenou que procurassem entre os escravos de sua casa uma criança de oito ou nove anos, de pele branca e cabelo preto. Quando lha trouxeram, vestiu-lhe roupas luxuosas, calçou-lhe boas sandálias, perfumou-a e levou-a aos sacerdotes, apesar das súplicas e dos lamentos do escravo pai da criança, que em vão se arrojou aos seus pés a implorar clemência. Seria esse menino escravo a ser atirado às chamas, em vez de Aníbal.

Está aqui neste episódio de Salambô, tal como nos de Beloved e de Quando Tudo Se Desmorona, a essência da escravidão, isto é, a dependência extrema, a ausência de direitos, a total vulnerabilidade, a insegurança e a incerteza quanto ao futuro. Desde o escravo agrícola de pele negra, que cortava cana numa plantação das Caraíbas, até à escrava loura e de pele branquíssima, favorita no harém de um poderoso sultão, todos podiam ser vendidos, oferecidos ou mortos, pois eram uma forma de propriedade. Os destinos de um escravo e da sua prole estavam sempre na mão do seu senhor, e era essa vulnerabilidade essencial que melhor o distinguia do homem livre e que mais o aproximava da condição de animal doméstico.

Essa condição atingiu negros, brancos, amarelos, gentes de todas as cores de pele porque a escravatura não tem cor. É verdade que, entre os séculos XV e XIX, na bacia do Atlântico, os escravos foram sobretudo negros. E porquê? Pela convergência de várias  razões entre as quais destaco duas. Desde logo porque havia, entre os cristãos, a proibição de escravizar outros cristãos ou, pelo menos, uma recomendação nesse sentido. Procurava-se por isso, para esse efeito, gente de outras crenças ou proveniências. Depois  porque se encontrou, em África, a disponibilidade para vender gente — os africanos, no seu conjunto, não possuíam, ao contrário dos europeus, uma religião ou outro factor que lhes desse um sentimento de irmandade ou comunidade. Mas não foi por causa da cor da pele que começou a fazer-se tráfico transatlântico de escravos africanos. Ao contrário do que muitas vezes se diz por ignorância, militância e desconhecimento da documentação, não foram motivações racistas que começaram a levar os negros ao bojo dos navios negreiros. Foi a necessidade de mão-de-obra, sobretudo nas Américas, e a disponibilidade dos africanos para a disponibilizar a troco de produtos europeus ou americanos.

O tráfico transatlântico e a sua mono-especialização em gente vinda de África acabaria por contibuir para a emergência de preconceitos anti-negro e do racismo nas sociedades ocidentais, mas não devemos tomar a excepção pela regra. Esse tráfico foi apenas uma pequena parcela no contexto da história milenar da escravatura e essa escravatura não tinha nem tem cor.