O Chega é um partido que veio para ficar. Quem quis comparar este fenómeno político com a meteórica ascensão e queda do Partido Renovador Democrático (PRD), durante a década de 1980, desprezou a variável da conjuntura internacional e da onda populista. O Chega beneficia dos ventos europeus que correm a favor do seu crescimento. O discurso simples, direto, pouco contextualizado, revoltado e inconformado ganhou força e conquistou o apoio dos mais descontentes e desfavorecidos por identificação e semelhança.
O Partido Chega começou por ser, e ainda é, o partido de André Ventura, dos dissidentes do PSD e dos que lutam pelo reconhecimento pessoal. O culto da personalidade assenta nas inquestionáveis e ímpares qualidades de performance e oratória de Ventura e o discurso incorpora a defesa dos valores morais que perigam atraindo, assim, o medo e a revolta popular.
Ventura não ficará por aqui e o Partido Chega não desaparecerá tão cedo. Depois de, em apenas seis anos, passar de um deputado para sessenta e de se tornar líder da oposição, o Chega rasga o sistema de bipartidarismo que dominava no nosso país e conquista poder e visibilidade.
Aqui chegado, o partido de Ventura começa agora o seu processo de “gentrificação” [1] dando início ao influxo de quadros e poderosos com a natural e a progressiva substituição dos seus membros mais simples e comuns para filiados e simpatizantes mais poderosos e burgueses. O partido passará de um partido “agarra tudo” para um partido a que todos se agarram sem pruridos nem constrangimentos.
Este processo de “gentrificação” do partido Chega será um dos grandes desafios que se coloca a André Ventura. Por um lado, tem de apetrechar o partido com quadros qualificados, nomes e sobrenomes poderosos que respaldem qualidade, financiamento e visibilidade, por outro lado quando mais espaço abrir às elites, mais afastará os primeiros “inquilinos” do Chega que gravitam contra o poder, os poderosos e os privilegiados. Desta forma, o Chega corre o risco de perder a identificação dos seus seguidores, simpatizantes e militantes e de perder o fundamento e o propósito.
[1] O termo gentrificação surgiu na década de sessenta do seculo XX pelas mãos da socióloga britânica Ruth Glass que o aplicou para descrever as mudanças observadas na população residente em diversos bairros operários em Londres. As especulações imobiliárias das grandes capitais conduziram à transformação dos bairros tradicionais através do influxo de residentes e de empresas com mais capacidade económica tornando a permanência nos bairros do centro das cidades uma capacidade quase exclusiva das classes mais favorecidas.