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O meu pai tem 83 anos. É galerista. A galeria é a sua principal fonte de rendimento. Até treze de Março ia trabalhar todos os dias — com excepção da segunda-feira. A excepção é relativa, aparecem com frequência, e quase todas as segundas-feiras, situações inadiáveis: ver se o desumidificador está cheio ou se não terá entrado um gato pela fresta da porta do pátio, ou qualquer outra inevitabilidade que o obriga a fazer os quarenta quilómetros de casa à galeria. Os imperativos de segunda-feira têm vindo a aumentar na directa proporção do tempo de viuvez.

O meu pai, desde o início da pandemia, já aprendeu a lavar as mãos durante o tempo suficiente para cantar os parabéns a você; aprendeu a pôr e a tirar a máscara; a desinfectar os sapatos; a mudar de roupa à entrada de casa e a fazer rolo de carne no forno. Espera pacientemente na fila para o supermercado por não querer passar à frente de ninguém – e sobretudo, digo eu, por acreditar que ninguém lhe dá mais de setenta anos… Às vezes, os setenta anos correm mal: o segurança vai buscá-lo para entrar. O meu pai aprendeu a utilizar um tablet para nos poder ver. A nós, vê-nos. Nós a ele é mais a testa, a orelha, um olho.

É ao meu pai, e a quem a idade constitui como grupo de risco, que estamos a pedir que abdiquem de trabalhar. De sair. De estar com os filhos e netos. Pede-se que fiquem em casa, protegidos, que abdiquem de ir comprar o jornal, das idas à mercearia, de atravessar a estrada, da conversa ao almoço à mesa do restaurante onde constroem o quotidiano. E a vida é feita disto. De risos e de riscos.

Estamos a exigir-lhes que se fechem, que encerrem a vida. Não por nós. Não pelo fragilizado SNS. Por eles. Pedimos-lhes que esperem. O que são mais dois meses, ou um ano? Podem ser tudo: em nenhuma altura desta pandemia nos foi concedido decidir a vida de quem está capacitado para o fazer.

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Não nos cabe escolher a forma como as gerações mais velhas viverão estes tempos. Cabe-nos, individual e colectivamente, o dever de as proteger, informando-as. Cabe-nos explicar os riscos da contaminação e da doença; falar sobre o risco de morte; desenhar a relação entre as partículas e o contágio; mostrar por onde circulam os vírus depois de um cumprimento. E também, exemplificar como se usa uma máscara, que critérios valorizar na escolha de um supermercado; que medidas de segurança exigir e cumprir na presença de outras pessoas; como evitar que os óculos embaciem com a máscara; como desinfectar assim que se chega a casa. E repetir tudo. E mais uma vez.

É por isto que somos inteiramente responsáveis – pela forma como adaptamos esta informação a gerações que cresceram a andar na rua, que utilizam lápis e esferográficas, que revelam fotografias, que fazem cálculos de cabeça, que pagam em dinheiro, que têm redes sociais que não se contabilizam por gostos, e para quem o cheiro da tinta é tão importante como as palavras que compõem o jornal.

A maior parte das ferramentas que utilizamos no combate a esta pandemia, sobretudo as que se actualizam constantemente, vêm dos circuitos digitais. É online que seguimos números, aprendemos técnicas, deciframos gráficos, debatemos e reformulamos ideias, corrigimos estratégias. Habituámo-nos a fazê-lo de forma rápida, à medida da velocidade da fibra nos traz a internet a casa. Entre nós e a geração a quem exigimos que se feche em casa, criámos um fosso de acesso ao conhecimento. É da nossa responsabilidade que essa informação clara seja reforçada todos os dias, que possa ser traduzida em comportamentos de segurança e que nos consigamos proteger, em liberdade.

Decidirmos por essa geração é assumirmos que sabemos mais do que ela. Não sabemos. Nem vivemos ainda o suficiente para decidir que riscos correr, qual a hierarquia das necessidades quando a certeza da proximidade da morte já faz parte do dia-a-dia.