«Estamos a ser atacados». A frase é o início do discurso que o Pe. Patrick dirige aos cardeais no filme Anjos e Demónios. (Não li o livro. Dan Brown que me perdoe.) Assombrado com a ideia de que a Igreja está a ser perseguida pela ciência e pela modernidade, a que não tem pejo de condenar por «blasfémia» e «arrogância», Patrick envenena o Papa, arquiteta um plano que envolve a morte de quatro cardeais papabili, simula o regresso vingativo dos illuminati, e, por fim, imola-se na Basílica de S. Pedro, quando percebe que o seu envolvimento foi descoberto.

A ideia de que a Igreja está sob ataque, e de que os seus inimigos são o modernismo e o liberalismo, é uma ideia relativamente recente, mas imprecisa. A arte sacra mostra um diálogo permanente com a simbologia pagã pré-cristã, com múltiplas referências à mitologia clássica. Mas há outra razão. O modernismo e o liberalismo são conceitos demasiado amplos e contraditórios. Não é de espantar, por isso, que a reação da Igreja também o seja.

Em 1907, quando a «crise modernista» rebenta, um padre com 70 anos tinha já convivido com a queda de Roma e a perda dos estados pontifícios; com a Kulturkampf prussiana, onde bispos foram presos e exilados, seminários fechados e dioceses e paróquias esvaziadas; com a legislação laicizadora da França do final do séc. 19, o Caso Dreyfus e a anulação unilateral da concordata; com o surgimento da teoria da Evolução, da crítica histórica alemã e do socialismo. Neste contexto, a Igreja via-se como a última fortaleza num mundo em dissolução, e cataloga o modernismo como a «síntese de todas as heresias».

Mas sobre isto há três equívocos: 1.º) que a Igreja condenou o modernismo no seu todo; 2.º) que essa condenação correspondeu a um período áureo da Igreja; 3.º) que foi o Vaticano II que repensou essa condenação.

Primeiro equívoco. Em 1864, a quando da primeira reação anti-modernista, Pio IX reage contra as leis piemontesas que dissolviam mosteiros e impunham o ensino secular. A realidade é tão contextual que o Papa nunca desautorizou as intervenções fortes de um famoso Bispo da época que relativiza o alcance «dogmático» daquela querela. Pio IX não estava, de facto, preocupado com o Modernismo com letra grande. Estava preocupado com o imanentismo filosófico, o panteísmo, e o relativismo e ceticismo históricos, que certo modernismo difundia.

Segundo equívoco. A crise modernista mostra o que acontece quando o integrismo governa. Abriu-se uma caça às bruxas que fez de dois futuros Papas alvos de denúncia. Bento XV, aliás, descobriu que fora suspeito quando abriu a secretaria do antecessor no dia a seguir à própria eleição. Por outro lado, a Comissão Bíblica impunha, sob pena de excomunhão, posições já então indefensáveis: o Pentateuco escrito por Moisés, Isaías como livro de um só profeta, Mateus como primeiro evangelho, e em aramaico. Quando alguém disser que a Igreja pré-Vaticano II era um baluarte de equilíbrio, pense nisto. Mas existem outros dados. Na era de Pio X, a França perdeu 44% dos seminaristas e as ordenações caíram de 1028 para 595. Em 1943, dois padres publicaram um livro cujo título diz tudo — La France, pays de mission?. Em 1961, um ano antes do Concílio, a revista do Centro Nacional de Vocações escrevia que se vivia «a mais grave crise em 150 anos».

Terceiro equívoco. O Vaticano II não pode levar com as culpas. Se quisermos ser corretos, e só para retomar o tema da Bíblia, em 1943 o Papa Pio XII publica um documento onde pede aos exegetas que voltem às línguas originais, que falem de crítica textual e géneros literários, e que repensem a forma através da qual «o autor sagrado» foi influenciado pelas formas culturais do seu tempo. A existir coerência, temos de assumir que a rutura aconteceu antes de 1962. Se formos coerentes, somos obrigados a dizer que, nessa data, a Igreja capitulou perante o modernismo que Pio X tinha condenado. Ora, Marcel Lefebvre, fundador da Fraternidade S. Pio X, foi nomeado por Pio XII, o então Papa, Bispo de Dakar e não há sinal de que visse os então recentes pronunciamento sobre a Bíblia, que o Vaticano II consagraria, como uma traição.

Lefebvre é, na verdade, um filho deste contexto. O pai era um monárquico convicto, próximo da Action Française, que via na restauração da monarquia a salvação da grandeza francesa. Quando foi estudar para Roma, Lefebvre acabou orientado pelo Pe. Henri le Floch, apoiante do movimento e próximo de Charles Maurras, que acabaria afastado da direção do Seminário por Pio XI, em 1926. Mais tarde, diria que a Action Française era «uma reação saudável e definitiva de retorno à ordem, à disciplina e à moralidade».

É normal que Marcel Lefebvre considerasse que o mundo precisava de entrar nos eixos. Todos nós já dissemos coisas semelhantes. Alguns até têm fantasias com isso. Mas nada disso se resolve com maniqueísmos e simplificações. A história não nos permite estes caprichos infantis e inocentes. Teima não colaborar com as nossas obsessões.