Há um comércio silencioso que prospera em Portugal: o comércio do adiamento. Vende se no retalho das promessas e no atacado das desculpas. A moeda corrente é a sondagem. O produto, aquilo que se engendra no salão do poder, é justamente o oposto do que o país precisa: medidas parciais, ritualizadas, pensadas mais para não chocar do que para transformar.
Viver neste país é assistir a um teatro em que os protagonistas trocam papéis com tanta frequência que já ninguém distingue a peça do ensaio. A política reduz-se a sobrevivência: “como durar” e não “como governar”. E assim, numa coreografia bem ensaiada de prudência, adia-se tudo o que exige coragem; cortes, escolhas, confrontos, a própria reforma do Estado.
No centro dessa coreografia está Marcelo Rebelo de Sousa, alguém que domina com mestria a arte de ser amado por multidões e temido por analistas. Excelente comunicador, maestro do aplauso público, Marcelo personifica a inconstância que melhor descreve a nossa hora: um Presidente que acerta diagnósticos e, logo a seguir, sorri com indulgência pelo atraso. Não o critico pelo traço humano; critico, isto sim, a função que cumpre sem pagar o preço da clareza.
Quando Marcelo fala de acordos de regime, acerta na urgência. Mas cuidado com as palavras: “acordo” não é sinónimo de reúna-um-pouco-de-tudo-para-agradar. Um acordo verdadeiro pressupõe génios da decisão, não coreógrafos do consenso. E, se o diagnóstico do Presidente aponta para a necessidade de um pacto, então o país precisa de um pacto que saiba o que quer; e que não se contente com a maleabilidade que tem governado em círculos.
Pedro Passos Coelho deixou-nos, entre outras virtudes controversas, uma lição clara: há reformas que só se fazem em confronto. Não por arroubo autoritário, mas por simples respeito pelos factos. Reformar é escolher; e escolher incomoda. Quem tem medo de ferir aqui e ali prefere a anestesia social do “vamos ver depois”. Passos aprendeu, à sua custa, que a coragem não é sempre popular. Mas é eficaz.
Repare-se: os chamamentos à conciliação eterna funcionam como um sedativo para a vontade coletiva. A ingenuidade do consenso universal deu lugar a uma moderação que nada resolve. Portugal não necessita de acordo para consensualizar a inação. Precisa de entendimento que nos tire do impasse; e que, se for para ser ambicioso, reconheça onde hoje mora a energia reformadora.
Há uma ironia que poucos ousam dizer: se o país quer verdadeiras mudanças, talvez precise de um acordo à direita. Digo “talvez” com cautela retórica, porque não é um partidarismo; é uma constatação. Onde existe hoje mais determinação por reformas que mexam com privilégios e modernizem o Estado é, com frequência, no lado direito do espectro político. O povo, esse sujeito sedimentado por fadiga e pragmatismo, começa a perceber que a estabilidade sem ambição é a forma mais elegante de decadência. E se os líderes à direita conseguirem oferecer um projeto sério, com coragem e visão, não será estranho que o eleitorado, cansado de promessa sem eficácia, lhes dê a mão.
O que falta não é diagnóstico: os problemas saltam aos olhos; hospitais que esperam reformas, tribunais que arrastam processos, escolas que reproduzem o passado. Falta uma disposição para aceitar que governar implica o risco de perder. A virtude da prudência tornou-se, paradoxalmente, em mácula: um apelido cómodo para a covardia institucional.
Não peço paternalismo nem improviso; peço grandeza de espírito. O país precisa de estadistas que considerem legítima a perda de popularidade em nome de ganhos coletivos. A História britânica e nórdica mostra que os grandes movimentos de modernização só se conseguiram quando alguém teve a coragem de dizer “isto é necessário, venha quem vier”. Em Portugal, reclina-se o poder para o lado do cálculo; e o preço dessa inclinação é medido em décadas de oportunidades perdidas.
Se este é um apelo final, que seja audaz e claro: governantes, parem de gerir imagens e comecem a governar realidades. Não se trata de um manifesto contra a conciliação; trata se de um aviso: conciliação para não fazer tem um efeito corrosivo. O país precisa de planos com vértice e espinha: educação que prepare a próxima geração, saúde reorganizada sem medo do confronto com corporações, justiça que funcione e segurança social sustentável.
E sim: se a solução para isso passar por um entendimento sólido à direita; um pacto sério, responsável e ancorado em reformas estruturais; que ele apareça. O povo português, na sua exaustão, não é tão obtuso quanto alguns dirigentes parecem acreditar. Quer menos promessas coloridas e mais resultados. Quer menos autopromoção e mais decisões difíceis.
Não me movem rancores partidários; move-me a irritação serena de quem já viu este país prometer mais vezes do que cumpriu.
Portugal especializou-se na estética do quase: quase reformou, quase modernizou, quase acreditou. A nossa verdadeira indústria é a do adiamento; exportamos esperança e importamos frustração.
Governar, porém, não é um exercício de delicadeza; é um ato moral. E, acredite-se ou não, o tempo tem memória. Ele julgará, com uma lucidez que nenhum eleitor tem, quem governou para o amanhã e quem governou apenas para o noticiário.
Talvez um dia Portugal perceba que o verdadeiro risco não está em mudar; está em continuar assim. E nesse dia, quem tiver sido prudente demais descobrirá que até o tempo tem um limite de paciência.