Num tempo em que a guerra na Ucrânia deixou de ser manchete e passou a ser rotina, há um  risco grave: a normalização do anormal. Não nos podemos iludir — a paz na Europa é cada vez  mais frágil. A possibilidade de uma escalada militar não é ficção. E Portugal, embora afastado  geograficamente, não está imune.

Os sinais estão por todo o lado. No leste europeu, o conflito persiste com um eco cada vez mais  surdo, mas não menos ameaçador. No Mar Negro, os corredores de exportação tremem. No  Báltico, as fronteiras reforçam-se. Do outro lado do Atlântico, Donald Trump volta a soprar ventos  de fragmentação global — tarifas, isolacionismo, a ameaça de uma nova guerra comercial entre  gigantes. E em Bruxelas, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propõe uma  estratégia industrial de defesa em modo “economia de guerra”, sinalizando que a Europa já  deixou de viver em tempos normais.

A ordem internacional que sustentou a economia europeia nas últimas décadas está sob teste.  E com ela, testam-se também os alicerces de países que, como Portugal, vivem da sua  capacidade de atrair investimento, garantir estabilidade e manter em funcionamento a base  produtiva.

É nesse contexto que devemos olhar com atenção para três setores-chave: a habitação, a  alimentação e a energia. São eles que definem como habitamos o território, como produzimos  riqueza e como alimentamos a infraestrutura invisível que sustenta toda a nossa economia.  Quando o mundo se torna instável — e quando o país vive ciclos políticos curtos e disfuncionais  — é aqui que o impacto se sente primeiro: nos custos invisíveis de construir, produzir e investir.

A crise da habitação é hoje visível nas notícias, nas ruas, nas conversas de café. Mas o que  permanece invisível é o que trava quem quer construir: o custo dos materiais, a escassez de mão  de obra, o ambiente de incerteza. É verdade que as taxas de juro têm vindo a descer. Mas  continuam elevadas em termos históricos, sobretudo para quem precisa de capital intensivo e  financiamento prolongado. E o risco político continua alto. Promotores e construtores enfrentam  processos lentos, pareceres imprevisíveis, programas que nascem com o ciclo político e morrem  com ele. Não é só caro construir — é arriscado. E o risco, quando não é bem compensado, gera  inação. Se quisermos mesmo desbloquear a habitação, temos de fazer o contrário do que temos  feito: dar segurança, consistência, tempo. Simplificar licenças, industrializar processos  construtivos, garantir que as regras não mudam consoante o ministro do momento. A confiança  não se legisla — constrói-se com coerência e persistência.

Na agricultura e na alimentação, o discurso também já mudou. Já não se fala em produzir mais  — fala-se em resistir. Fertilizantes mais caros, combustíveis voláteis, dificuldade de acesso a  crédito, excesso de burocracia nos apoios. E sobre tudo isto, a sensação de que a política muda  mais depressa do que as estações do ano. Portugal tem terra, clima, saber e tradição. Mas falta lhe aquilo que um agricultor mais precisa para investir: horizonte. Sem escala, sem rede logística eficiente, sem regras claras, o setor rural é empurrado para a sobrevivência, não para o  crescimento. A autossuficiência alimentar não é um objetivo romântico — é uma necessidade estratégica. E começa na confiança de quem está no terreno. Modernizar não é importar mais  tecnologia. É organizar melhor o território, ligar quem produz a quem consome, e criar condições  para que o investimento floresça mesmo com as raízes no solo.

A energia é talvez o espelho mais gritante das oportunidades que deixamos escapar. Temos sol,  temos vento, temos mar — e, ainda assim, ficamos atrás. Projetos travados em pareceres  intermináveis, redes que não absorvem a nova geração distribuída, estratégias que recomeçam  a cada legislatura. Num mundo onde a energia será o fator decisivo de competitividade industrial  e geopolítica, Portugal continua a ser uma promessa por cumprir. E a culpa não é dos recursos  — é da hesitação. Da lentidão. Do excesso de zelo e da falta de visão a longo prazo. Podíamos  ser um produtor confiável. Uma peça-chave na nova rede energética europeia. Um hub de  inovação verde. Mas para isso é preciso desbloquear, confiar, avançar. Acelerar o licenciamento,  empoderar comunidades energéticas, garantir regras estáveis que atraiam quem quer investir  com seriedade.

Num tempo em que o mundo treme, Portugal não pode ser mais um ponto de instabilidade. O  país precisa de ser, dentro das suas fronteiras, um lugar de coerência, continuidade e confiança.  Porque a instabilidade política não é apenas um dado do sistema — é um custo estrutural. Retira  confiança, paralisa decisões, afasta talento e capital. Um país que está sempre à espera do  próximo governo não consegue executar uma visão — quanto mais atrair investimento de longo  prazo.

Não se trata de pedir mais Estado. Trata-se de pedir melhor governação. Um país não precisa de  mais planos — precisa de tempo, disciplina e estabilidade para os executar. A resiliência de uma  nação não se vê no tamanho do orçamento nem no número de leis aprovadas. Vê-se na  capacidade de continuar a construir, mesmo quando o mundo treme. E, sobretudo, na  capacidade de o fazer sem perder o rumo ao primeiro abalo.