Em Portugal, todos juram aceitar a liberdade individual… até ao momento em que esta lhes  pisa um calo. O liberalismo é uma palavra bonita para meter num discurso e parecer  moderno, mas na prática é tratado como um prato exótico no menu: muita gente aponta, elogia, mas no fim pede o bitoque. Fala-se de liberdade com a mesma convicção com que  se fala de dieta na noite da passagem de ano.

No mapa político há três partidos que se dizem liberais, mas não se podem pôr no mesmo  saco. A Iniciativa Liberal é o único com representação no Parlamento nacional, no europeu  e em dezenas de autarquias. É a marca mais visível e, por isso mesmo, a mais exposta a  aplausos e tropeções. O Partido Liberal Social tenta manter-se fiel ao liberalismo clássico,  mas continua quase invisível fora de círculos muito restritos. Já o Partido Libertário prefere  a pureza doutrinária do Estado mínimo absoluto, o que o condena a falar para meia dúzia  que já concorda com eles desde o primeiro minuto.

Depois há as alas liberais do PSD e do CDS, que vivem entre pequenos avanços e muitas  cedências. Querem, mas não podem. Ou podem, mas não lhes deixam. E quando  conseguem, a coragem dura até à primeira reunião da comissão política.

O problema é que, por cá, muita gente acha que liberalismo é só defender direitos civis. É  verdade que o BE e o LIVRE assumem posições liberais na esfera social, mas fecham a  porta a qualquer liberdade económica. Direitos civis sem liberdade económica são meia  liberdade. E meia liberdade não é liberalismo.

Lá fora, os republicanos moderados alinham-se mais com a vertente económica e os  democratas moderados com a social. Aqui, a mistura é tão confusa que ninguém percebe  bem o que está no copo. A Iniciativa Liberal, exemplo claro dessa mistura mal feita, ora quer  ser referência económica, ora se perde em guerras culturais importadas, ora se rende a  compromissos que lhe desfazem a espinha dorsal. É, muitas vezes, o partido do NIM: na  dúvida, nem não nem sim, e se for polémico, nem não nem sim outra vez. Coligações fazem  parte do jogo político, mas coligações que no dia seguinte deixam o partido irreconhecível  são o caminho mais rápido para a irrelevância.

Se quer crescer, o liberalismo tem de sair da bolha. Falar como as pessoas falam, sem  jargões nem powerpoints. Não é “reforma estrutural da tributação”, não é só “menos IRS  no final do mês”, é acima de tudo mais dinheiro disponível na conta de cada um de nós.  Tem de abraçar causas que toda a gente perceba e que não mexam na espinha dorsal,  como segurança, mobilidade, habitação acessível (não a promessa vaga de casa para  todos, mas condições económicas para que todos possam ter casa), e saúde que funcione,  seja pública ou privada, desde que decente. O mesmo vale para a educação, que deve ser  de qualidade e livre de agendas ideológicas, independentemente do setor do prestador.

O liberalismo não é um clube privado nem um passatempo para elites urbanas que  discutem qual o autor mais puro da escola austríaca. É um projeto para o país inteiro. Só  sobrevive se for explicado ao eleitor do café, do mercado e do autocarro das sete da manhã.  E só vale a pena se for defendido mesmo quando é politicamente incómodo. No fim,  promover o liberalismo não é proclamar mais liberdade nas redes sociais. É vivê-la, praticá la e aguentar as consequências sem pestanejar. E se algum partido que se diz liberal não  estiver preparado para isso, então que assuma de vez: o objetivo não é mudar o país, é só  arranjar forma de caber na fotografia certa.