Ao abrir os relatórios de sustentabilidade das maiores empresas tecnológicas do mundo, encontramos por estes dias uma confissão notável pela sua franqueza. A Microsoft reconhece que o seu esforço em inteligência artificial colide com as metas climáticas que assumiu perante o público. A Google admite que as suas emissões subiram cerca de um quarto num único ano e que a construção de infraestrutura de IA acelera mais depressa do que a rede elétrica se descarboniza. A Amazon e a Meta repetem a mesma aritmética incómoda. Gastou-se, apenas neste ano e no anterior, qualquer coisa como um bilião de dólares em novos centros de dados. E a primeira coisa que esta nova inteligência nos revela, com a objetividade fria de um balanço, é que está a consumir as condições do nosso próprio futuro.

O fogo que Prometeu não previu

Há uma ironia antiga nesta história. Demos o nome de inteligência a um artefacto que, para pensar, precisa de arder. Cada salto na nossa capacidade de saber exigiu sempre mais energia, desde a fogueira que cozeu o primeiro grão até à fornalha industrial, e a inteligência artificial não é exceção; é a sua expressão mais voraz. O mito de Prometeu, que roubou o fogo aos deuses para o entregar aos homens, esqueceu-se de contar a fatura energética do progresso. As máquinas que construímos para amplificar o engenho humano são, no fundo, fornalhas elegantes, e os seus relatórios anuais medem agora, em milhões de toneladas de dióxido de carbono, o preço do que julgávamos imaterial. Chamamos-lhe nuvem, mas pesa. Chamamos-lhe pensamento, mas queima. O paradoxo é perfeito na sua crueldade: quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais quente fica o planeta que as sustenta.

O desconforto não está na tecnologia em si, que é neutra como qualquer ferramenta, mas na velocidade com que a instalamos sem termos decidido para quê. A responsável máxima pela sustentabilidade de uma dessas empresas escreveu-o sem rodeios: a expansão da infraestrutura ultrapassa a capacidade da rede para se limpar. É uma frase técnica que esconde uma questão civilizacional. Estamos a construir a catedral antes de sabermos que deus lá vamos adorar. E, ao contrário das catedrais de pedra, estas consomem enquanto esperam, porque um centro de dados não descansa: pensa de noite e de dia, e de noite e de dia pede corrente elétrica.

Onde se decide o que pensamos

A pergunta verdadeiramente séria não é quanta energia consome a inteligência artificial, mas quem decide essa afetação. A energia de baixo carbono é, hoje e por muitos anos, um recurso finito. Cada gigawatt que alimenta o treino de um modelo é um gigawatt que não aquece uma casa, não eletrifica uma indústria, não descarboniza um transporte. Ora, essa arbitragem, que é uma das mais consequentes do nosso tempo, está a ser feita nos planos de investimento de meia dúzia de empresas privadas e não nos fóruns onde as democracias deliberam. Delegámos numa contabilidade empresarial uma decisão que é de interesse geral.

É aqui que a infraestrutura computacional se torna matéria de deliberação democrática e não apenas de mercado. Quando a capacidade de calcular passa a ditar a procura de eletricidade de países inteiros, deixámos o domínio da inovação e entrámos no da soberania. Um Estado que não pergunta o que vale a pena computar, que não distingue entre a inteligência que cura doenças e a que apenas otimiza anúncios, abdica de governar a sua própria transição. O risco sistémico não é a máquina pensar de mais; é a sociedade deliberar de menos sobre aquilo que a máquina pensa e sobre o combustível que lho permite.

Vale a pena resistir tanto ao deslumbramento como ao pânico. A inteligência artificial promete ganhos reais na deteção de doenças, na gestão de redes elétricas, na modelação do próprio clima, e seria imprudente demonizar uma ferramenta que pode acelerar a transição tanto quanto a pode travar. Mas nenhuma dessas promessas dispensa a pergunta sobre a proporção. Uma coisa é queimar energia escassa para antecipar um furacão ou desenhar um novo material; outra é fazê-lo para gerar, em segundos, imagens descartáveis. Entre um extremo e outro há uma escala inteira de escolhas que estamos a deixar por fazer, e que só a deliberação pública, informada e serena, pode ordenar.

Portugal à beira do cabo submarino

Portugal não assiste a isto de fora. Em Sines, sobre o terreno de uma antiga central a carvão, ergue-se um dos maiores campus de centros de dados da Europa, planeado para chegar a 1,2 gigawatts de capacidade, arrefecido a água do mar, prometendo funcionar a cem por cento de energia renovável e ligado por cabos submarinos a três continentes. O país corteja este futuro digital como oportunidade económica, e é-o, sem dúvida: emprego qualificado, investimento, relevância geoestratégica no mapa das ligações intercontinentais. Mas é também um teste de lucidez. Cada gigawatt prometido às máquinas é um gigawatt que alguém tem de produzir, priorizar e pagar, e a pergunta que raramente fazemos é se a renovável que alimenta os servidores não é a mesma de que precisamos para arrefecer o interior envelhecido no próximo verão.

A oportunidade e a armadilha moram na mesma morada. Um país que se afirme como plataforma de computação para a Europa pode transformar sol e vento em valor acrescentado e em soberania; ou pode, se não deliberar, tornar-se apenas o corpo que sa para que outros pensem. A diferença entre os dois destinos não está na engenharia, que temos, mas na estratégia, que hesitamos em ter.

O momento de lucidez que estes relatórios nos oferecem é modesto e exigente. Não se trata de recusar a inteligência artificial, seria fútil e empobrecedor. Trata-se de decidir, com deliberação e com transparência, ao serviço de quê a queremos, e de medir a energia do pensamento com a mesma seriedade com que medimos défices e temperaturas. A verdadeira inteligência, a coletiva, não se avalia pela quantidade de dados que processa, mas pela capacidade de não sacrificar o amanhã ao brilho do imediato. Porque de nada serve construir máquinas que tudo compreendem, se a civilização que as alimenta se esquecer de compreender o planeta que a sustenta.