A esquerda em geral e alguns socialistas em particular parecem conviver bem com a miséria, sempre que alguém a quer combater. Conviveram bem com o crescimento descontrolado da imigração, com o país a oferecer a essas pessoas condições indignas. E deixando que os locais começassem a cair, perigosamente, para a rejeição de quem apenas procura encontrar uma oportunidade para viver melhor onde há empregos. Parecem, pelo menos alguns, conviver bem com o crescimento dos bairros de barracas, preferindo que nada se faça, a fazer alguma coisa. Como parecem conviver bem com a injustiça social que é apoiar quem ameaça ou faz barulho.

Mesmo a brutalidade das demolições é melhor do que ser cúmplice do crescimento de bairros sem condições que criam um problema cada vez maior e mais difícil de resolver no futuro. E não, isto não é ser desumano, é respeitar as pessoas que ali vivem, é procurar ajudá-las e garantir o cumprimento da lei. Todos sabemos que não podemos instalar uma casa num terreno qualquer.

O presidente da Câmara de Loures foi corajoso, mesmo se o que fez tenha sido ditado, como alguns acusam, pelo tempo de campanha eleitoral em que vivemos. Se merece a aprovação dos seus munícipes isso apenas significa que é um problema que os preocupa. E é para isso que servem os autarcas, para resolver os problemas que preocupam as pessoas, especialmente os mais difíceis.

Foi a indiferença de alguma classe política em relação à apreensão que o crescimento muito rápido da imigração estava a gerar em algumas comunidades que nos trouxe até ao ponto em que hoje estamos, em que o Governo até parece estar a exagerar para, esperemos, garantir que continuamos a ter os imigrantes de que precisamos sem que sejam rejeitados.

Ricardo Leão disse-nos – e não temos razões para duvidar – que todas aquelas pessoas foram contactadas pessoalmente pelos serviços da Câmara, “antes da operação, durante a operação e depois da operação”. E apenas 29 famílias recorreram “ao atendimento social e não a totalidade”. Porque é que isto aconteceu?

As políticas sociais têm de chegar a quem precisa e não, como diz o presidente da Câmara de Loures, a quem grita mais. Basta estarmos atentos ao que as pessoas comuns dizem, para percebermos que se começa a generalizar um sentimento de irritação e até de revolta em relação à forma como são dados os apoios sociais. Porque conhecem sempre alguém que recebe apoios e que consideram que não precisa nem merece, quando quem “trabalhou e descontou toda a vida”, tem uma pensão baixa e não consegue sequer ter direito a uma casa da Câmara. São estas pessoas comuns que têm de ser ouvidas e são elas que estão hoje com menos voz.

Têm razão no que dizem? Verdadeiramente não sabemos. Mas temos um problema a partir do momento em que aumentam o número de pessoas que consideram que são negativamente discriminadas, por não terem apoios sociais ou não terem acesso a uma casa ou ainda não se permitir a elas que façam uma casa em qualquer terreno quando se fecha os olhos a outros.

O que impressiona em alguma classe política que se considera de esquerda é este alheamento – ou afastamento – relativamente ao cidadão que se vê como exemplar, que trabalha, recebe salários médios e baixos, enfrenta todos os dias o trânsito ou transportes que não funcionam, e identifica ao seu lado quem recebe apoios que considera imerecidos.

Quando Ricardo Leão avança para a demolição das barracas é a essas pessoas, que se sentem injustiçadas pelo Estado Social, que se está a dirigir e que o aplaudem, lamentavelmente e por vezes com uma linguagem injusta. Não devemos, por isso, estranhar o apoio que teve. Podia e devia ter feito mais para resolver o problema daquelas pessoas? Talvez. Mas algumas delas também não fizeram tudo o que podiam para cumprirem a lei, nem com os apoios sociais.

Se não queremos que os apoios sociais comecem a ser vistos como abrigos para oportunistas, que preferem não trabalhar, temos de ser rigorosos e transparentes nos critérios e na sua atribuição. Ou estaremos a abrir mais uma autoestrada para os populistas. Aparentemente o Governo quer trabalhar essa área e esperemos que o faça rapidamente. Por vezes é preciso ser duro para ser justo e salvar o Estado Social.