“Diz uma parábola que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.
A mentira disse para a verdade:
– Bom dia, dona Verdade.
E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, várias pássaros cantavam e assim, vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:
– Bom dia dona mentira.
– Está muito calor hoje, disse a mentira.
E a verdade, vendo que a mentira falava verdade, relaxou. A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:
– Venha, dona Verdade, a água está uma delícia.
E assim que a verdade, sem duvidar da mentira, tirou as suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água, vestiu-se com as roupas da verdade e foi-se embora.
A verdade, por sua vez, recusou vestir-se com as vestes da mentira e, por não ter do que se envergonhar, saiu nua, a caminhar na rua. Mas viu que, aos olhos das pessoas, era muito mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua.”

Como seguramente já poucos se recordam – dado que a velocidade em que se vive mancomunada com os dilúvios de notícias, informação e porcaria, com que os órgãos de comunicação social nos brindam diariamente – o “Expresso” de 3 de Fevereiro, escreveu em parangonas de primeira página, que “os chefes militares unem-se contra o Governo”, com que intitulava o conteúdo da notícia, não da informação, que a seguir desenvolvia.

A notícia englobava já (tenham isso em conta) uma reacção à própria notícia por parte do MDN, ao contrário dos gabinetes do Exército, Armada e Força Aérea, que se recusaram a comentar.

No mesmo dia saíu um comunicado do Gabinete do Chefe de Estado-Maior General das FA (e é lícito ponderar se o comunicado foi apenas uma iniciativa dos chefes militares ou se teve algum “empurrão” do senhor ministro), assinado por um coronel, intitulado “porta-voz” das Forças Armadas – função que, confesso, desconhecia existir.

A notícia (do Expresso), que na linguagem do âmbito das informações militares, poderia ser qualificada entre A a F e de 1 a 6, quanto ao grau de credibilidade da fonte e verosimilhança, tentava um “furo” jornalístico tornando público um documento oficial com origem no Conselho de Chefes de Estado-Maior (CCEM) [1], dirigido ao Sr. Ministro da Defesa Nacional (MDN) – o qual na realidade não existe, e devia chamar-se Ministro para, ou, das Forças Armadas [2] o qual mostrava o “incómodo” e a “crítica” dos Chefes Militares relativamente a decisões governamentais que afectam a Instituição Militar.

Nomeadamente e transcreve-se:

“Poder por em causa (a falta de efectivos) algumas missões e configurar um tratamento de iniquidade das FA em relação às Forças de Segurança”; “configura um acréscimo ao nível de risco”; “a redução ou cancelamento de missões, além de assumir riscos não negligenciáveis em termos de segurança do pessoal, coletiva e de instalações”; “o presente ajustamento condicionará igualmente a qualidade e quantidade desse reforço; impossibilitará a adequação de necessidades emergentes em áreas específicas…”;

“Impossibilitará a adequação dos efectivos militares dos quadros permanentes na situação de activo, a desempenhar funções fora da estrutura orgânica das FA”; “representa um afastamento progressivo aos objectivos estabelecidos no âmbito da Reforma Defesa 2020” (que tinha estabelecido um tecto em pessoal para as FA, de 32.000 militares, dos quais apenas existem actualmente 28.000”.

Ora aquilo que é transcrito é a mais pura das verdades e só peca por estar a anos-luz dos “alertas” e “críticas” que os Chefes Militares têm para tecer ao Poder Político que os tutela – melhor dizendo, os tem pela trela – já que as FA se encontram em modo de pura sobrevivência, após terem sido sujeitas à maior redução, desarticulação e desconsideração que há memória no País, nos últimos 30 anos e que nenhum Corpo do Estado ou grande empresa civil, teria capacidade para funcionar e sobreviver caso fosse sujeita a um décimo de tal.

E o que é dito não configura nenhuma conduta incorrecta ou condenável, “contestação”, “subida de tom”, “tilintar de espadas”, “ser inédita”, “insólita”, “desafiante” e outros disparates que vi escritos, mas tão só “correcção, respeito, frontalidade e lealdade”, como vem escrito no comunicado do EMGFA.

Sem que tal envolva qualquer crítica ao conteúdo do documento é mister tecer dois ou três comentários.

A preocupação refletida no memorando é a falta de pessoal – que é gritante, desmesurada e vai piorar – tanto em quantidade como em qualidade [3]. E a “iniquidade” tem a ver com o favorecimento que tem sido feito relativamente às Forças de Segurança (nomeadamente a GNR), o qual já vem muito de trás e tem razões específicas e profundas. O mesmo já tinha acontecido, aliás, nos tempos funestos da I República.

Uma outra preocupação que ressalta é o cuidado em que os chefes militares tentam pôr as suas barbas de molho, precavendo-se de mais alguma bronca tipo assalto aos paióis de Tancos, que apesar de tudo o que já foi dito e escrito, ninguém sabe o que se passou, como o último relatório vindo a público comprova.

O derradeiro comentário tem a ver com a justificação do ridículo aumento de pessoal concedido, de 200 homens (no fim do ano haverá muitos menos!), que se justificam por causa dos incêndios.

Ora isto é, além de ridículo, cretino e demagógico. A missão primária das Forças Armadas não tem nada a ver com incêndios, e quem se alista no Exército, na FA e na Marinha, não é seguramente para ser bombeiro. Porque é que não arrebanham os advogados, os enfermeiros ou os professores de liceu (por ex.), para irem ajudar a combater incêndios ou limpar matas? A única coisa que se justifica poder fazer-se tem a ver com a operação de meios aéreos por parte da FA neste âmbito, por razões ponderosas de economia de meios, comando e controlo, de manutenção e de prevenção de eventuais fraudes no negócio existente. Sem embargo o estado muito degradado da actual situação e o modo como estão a tentar passar responsabilidades para a Força Aérea (depois de se andar a fazer asneiras durante 20 anos), vai ser um autêntico “presente envenenado”!

Finalmente as considerações feitas ao Expresso pelo gabinete do Sr. Ministro são despropositadas e não têm ponta por onde se lhe peguem. E tudo o que tentam escovar do capote cai-lhes em responsabilidade e culpas, maioritariamente, em cima.

Com o cobarde à vontade e displicência, de saberem que os chefes militares não lhes podem responder. Isto é, podem, mas no dia seguinte seriam demitidos, sendo o seu carácter possivelmente assassinado na praça pública por alguns jornaleiros de serviço.

O que é dito na notícia – e que ninguém oficialmente desmentiu – o que a classifica como “A1” – e que é mais grave, é que a actual situação nas FA configura um risco exponencial para a Segurança e Defesa Nacional, tudo correndo nas barbas da população e de todas as instituições nacionais, sem que qualquer sinal de preocupação seja evidenciado.

As razões porque as coisas se passam assim deviam, indubitavelmente, preocupar-nos mais do que a “táctica” dos treinadores das equipas de futebol para o jogo seguinte…

A imbecilidade está, de resto, instalada. E é incentivada.

*****

Vamos reproduzir o comunicado do EMGFA, intitulado “Esclarecimentos sobre Efetivos Militares”, pois vale a pena:

“Tendo surgido na comunicação social notícias relativas a um memorando do CCEM, os quatro chefes militares reafirmam que o relacionamento institucional com o Governo e designadamente com Sua Excelência o MDN tem sido, e continuará a ser, caracterizado pela correção, respeito, frontalidade e lealdade. Lamenta-se que partes do citado memorando tenham sido objeto de divulgação pública nos órgãos de comunicação social. Mais se esclarece que, independentemente do diálogo institucional estabelecido no quadro dos processos relativos aos efectivos militares, não esteve, não está, nem estará em causa o cumprimento das missões das FA”.

Ora perante o que se passou – e que, repito, já quase ninguém se lembra – perpassam várias perplexidades.

A primeira prende-se com o facto de ninguém de direito, vir afirmar que o documento é verdadeiro ou falso. Aliás, se fosse afirmado que era falso, nada mais haveria a dizer… A não ser colocar o jornal em tribunal.

A segunda tem a ver com o comunicado do CEMGFA (melhor dizendo ex-CEMGFA) que referia (sem desmentir a notícia, antes confirmando-a, apesar de dizer que apenas partes do memorando terem sido expostas) que “o cumprimento das missões das FA não estava em causa”. O silêncio teria sido aqui de ouro (caso o MDN nada tivesse dito) e a palavra de prata se tivesse sido outro o discurso. Ora também não se entende como se pode comentar o documento já que no mínimo, se trataria de matéria classificada como “reservada”…

A terceira, lida com o facto de se saber como é que o documento foi tornado público.

Já a questão do comunicado do CEMGFA parece perfeitamente dispensável, até porque o que transparece é que se está a dar uma sabujadela ao Governo; dar o dito por não dito e de falta de coragem em assumir seja o que for, neste caso o estado lastimável em que a Instituição Militar se encontra (e toda a gente sabe que o cumprimento das missões não só está em causa, como está completamente em causa!) [4]. O que levou o agora comentador Marques Mendes a dizer com um sorrisinho nos lábios, na “SIC”, que “em matéria de chefes militares isto já não é o que era…”.

As coisas a que estes meus camaradas se sujeitam…

E aquele “pormenor” referido (na tal notícia do Expresso), de que o CEMA não assinou o documento sendo o seu vice a fazê-lo, (não passa na cabeça de ninguém que o mesmo o tenha feito à revelia daquele) está hoje ultrapassado pois o primeiro passou a CEMGFA e o segundo substituiu-o no anterior cargo.

A última perplexidade é o facto de não haver fugas de informação apenas no âmbito do Segredo de Justiça… Ou seja, como é que o órgão de informação “Expresso” teve conhecimento do documento?

Pois parece apenas haver cinco hipóteses, a saber: ou houve fuga de informação nos gabinetes do CEMGFA, do CEMA, do CEME, do CEMFA ou do Ministro, ou o jornal possui um ou mais “espiões” nalgum destes locais. Dificilmente se saberá.

Descartando esta última hipótese (por mero exercício académico), resta uma pergunta: a quem interessava fazer esta fuga de informação?

Eis mais uma prova provada (se ainda fosse necessário apresentar alguma), que o bom do Padre Américo, se foi deste mundo sem ter acabado com os malandros todos.

Oficial Piloto Aviador

[1] Para quem não é conhecedor de tais siglas esclareço que este conselho reúne o Chefe de Estado – Maior General das FA e os três chefes dos Ramos (Exército, Força Aérea e Marinha).
[2] Durante mais de 30 anos condenei o uso do termo “ibéricas” para qualificar as cimeiras com esse nome que se realizam a cada semestre, e que se deviam chamar luso – espanholas. Há cerca de três ou quatro anos, o Governo lá mudou o nome conforme sempre defendi. Também tenho esperança que, um dia, mudem a designação de MDN para MFA (Ministério das Forças Armadas) ou então, o que seria melhor, assumissem a Defesa como tal.
[3] A gravidade do assunto é já de tal ordem que a própria Assembleia da República vai realizar um debate, fora do hemiciclo, no dia 28 do corrente, sobre o assunto, nomeadamente sobre a falta de candidatos para o regime de voluntariado e contrato. Coitados, acordam sempre tarde para o que é importante…
[4] Ou, então, nunca estão em causa se usarmos de dois expedientes retóricos: por maiores que sejam os meios nunca será possível garantir o cumprimento de todas as missões em todas as circunstâncias; ou, que cumprindo apenas um bocadinho de uma missão qualquer, isso já representa o cumprimento da missão, apesar de parcial ou mínima! Dá para todos os gostos…