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Em se tratando de uma lição de economia, nada mais natural (não obstante a sensação de bizarria que o título pode previsivelmente despertar em espíritos propensos ao culto de mitologias tais como a economia ser a ciência dos macro-números e macro-gráficos nascidos da fértil macro-testa partenogenética do macro-Zeus da despesa pública e não, como de facto é, o estudo da acção humana situada em contextos caracterizados pela escassez) do que falarmos do tecto da Capela Sistina, o qual, ocupando o lugar indisputável da mais célebre superfície que forma a parte superior de um espaço coberto da história da arte, é também um fresco dentro do fresco: um fresco económico dentro do fresco arquitectónico.

Em cerca de 500 metros quadrados, Miguel Ângelo dedicou-se a pintar a fresco passagens bíblicas numa virtuosa procissão de 175 campos pictóricos onde não falta o dedo divino dando vida a Adão, a cabeça decapitada de Holofernes, a embriaguez do ignudo Noé, medalhões sobre a história dos Macabeus, sete profetas e cinco sibilas, a separação quântica da luz e das trevas, o mundo criado pelo sopro e destruído pelo dilúvio. Segundo Goethe, “quem não viu a Capela Sistina não pode ter uma ideia exacta do que uma pessoa é capaz de fazer”.

As lições bíblicas e artísticas embutidas nas suas cornijas e lunetas têm sido objecto, ao longo dos séculos, das mais generosas e merecidas interpretações e pesquisas. Falta ainda um estudo de natureza económica com estatuto hermenêutico de dignidade equivalente. Porque no tecto da Capela Sistina não aprendemos apenas ensinamentos bíblicos e artísticos, mas também lições económicas e praxeológicas. Os frescos do tecto da Capela Sistina não contam apenas uma história sobre a criação da humanidade e a sua definitiva expulsão do paraíso bíblico: narram também uma história sobre a prosperidade civilizacional da humanidade – e a sua periódica expulsão do paraíso económico. Quem pintou o tecto da Capela Sistina não era apenas um génio do trompe l’oeil: era também um economista avant la lettre.

Que lição económica, afinal, está pintada nos palimpsestos daquele tecto encomendado pelo Papa Júlio II? A lição da preferência temporal, uma das noções fundamentais da economia e, talvez por isso mesmo, praticamente esquecida desde que, sequestrada pelos reis Midas da burocracia e do dinheiro fiat, esta se viu convertida no imperecível embuste keynesiano (polvilhado a gosto com torrões do imperecível embuste marxista) que domina, retroalimentando-se, a academia, a imprensa e a governação actuais, a expensas do bem-estar das gerações vindouras.

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Teorema praxeológico (a economia deve-o, em grande medida, aos contributos cumulativos de William Stanley Jevons, Eugen von Böhm-Bawerk e Ludwig von Mises) que, partindo da admissão da nossa finitude temporal e da impossibilidade de eliminar o tempo como elemento constitutivo do processo de valoração de toda a acção humana (que posso eu fazer neste mundo com o tempo breve que me foi concedido?), a preferência temporal diz respeito ao valor que cada indivíduo confere ao presente relativamente ao futuro. Dito de outra forma, a satisfação de um consumo presente é preferível, ceteris paribus, à satisfação de um consumo futuro. Tal como preferem consumir mais do que menos, os seres humanos também preferem consumir antes do que depois, o que significa que (des)valorizam a espera, ou o adiamento do consumo, como “desutilidade” (vide Mises, Human Action, Vol. II, Parte 4, Cap. 18).

A preferência temporal é assim alta se o indivíduo valoriza mais o consumo presente, ainda que menor, do que o consumo futuro, ainda que maior – e baixa se o indivíduo valoriza mais o consumo futuro, desde que maior, do que o consumo presente, desde que menor. Consumir menos hoje para consumir mais amanhã é, pois, a essência de uma baixa preferência temporal e testemunho de que a preferência pelo melhoramento da sua condição em contexto de escassez é, de facto, o motor da acção humana.

Mas por que razão é isto importante? Que tem uma coisa que ver com a outra? Que relação especial tem uma noção austríaca da qual correm tantos economistas e políticos e um tecto italiano ao qual acorrem tantos turistas e devotos? Para compreendê-la, dividamos os economistas em dois grandes tipos: os keynesianos e os miguelangelianos. Ao “estímulo keynesiano”, enquanto epítome categorial de uma elevada preferência temporal, corresponde, por contraste, aquilo a que poderíamos chamar aqui, em homenagem aos padecimentos de “il divino“, o bócio miguelangeliano, na condição categorial de baixa preferência temporal. Estímulo keynesiano vs. bócio miguelangeliano. Ouçamos Keynes e Miguel Ângelo.

Keynes, em A Tract on Monetary Reform (1923): “No longo prazo estamos todos mortos” (a citação completa, do Cap. 3: “In the long run we are all dead. Economists set themselves too easy, too useless a task if in tempestuous seasons they can only tell us that when the storm is long past the ocean is flat again”).

Miguel Ângelo, num soneto (de 1511 ou 12) dedicado a Giovanni da Pistoia e que acompanha um esboço de si mesmo a pintar o tecto: “Já ganhei um bócio neste intento, / Como faz aos gatos a água da Lombardia / Ou de qualquer outra freguesia, / Que à força lhes estica a barriga ao mento. / A barba virada ao céu, sinto já chegando / À bossa a cachimónia e o peito de harpia, / O pincel acima da cara todo o dia / Dela faz rico pavimento, gotejando. / Entram-me os lombos na pança, / Faço contrapeso da garupa o rabo, / E mexo os pés sem ver todavia. / Tenho à frente o couro que avança, / Fazendo um nó atrás se curvando, / Esticando-me tal um arco de Soria. / Assim falaz e erradia / Me é a razão que a mente porta / Pois pouco acerta uma arma torta. / Estando minha pintura morta / Defende agora, Giovanni, o meu honor / Pois nem estou bem aqui nem sou pintor”.

E, não obstante a alegação de Keynes merecer uma leitura caridosa (declinada por Hayek), de acordo com a qual há um limite aos sacrifícios que podem ser impostos às gerações presentes em nome de um putativo bem-estar das gerações futuras (todo o trade-off intergeracional tem de enfrentar a devida, embora delicada, ponderação entre dois “nens”: nem o sacrifício intolerável das gerações presentes em nome do utópico benefício das gerações futuras (cada um dos 7 milhões de mortos da “red famine” (Applebaum) que a “harvest of sorrow” (Conquest) de Estaline impôs aos ucranianos entre 1932 e 1933 ver-se-ia justificado, in the grand scheme of things, se dessa pavorosa hecatombe resultasse a prometida e pançuda sociedade sem classes comunista); nem o sacrifício inadmissível das gerações futuras em nome do benefício ensimesmado das gerações presentes (lembremos a ácida e bem actual epígrafe de H.L. Mencken: “Cada eleição é uma espécie de leilão antecipado de bens roubados”), a verdade é que, na medida em que fornece ao político – o bicho de rosto humano com a mais elevada preferência temporal a seguir ao estratosférico toxicodependente, com quem, de resto, partilha não poucos atributos – o pretexto pseudocientífico da urgência, obviamente jamais saciada, do aumento da despesa, o ethos do keynesianismo não passa da bloomsburyzação das finanças públicas, da canonização do deboche financeiro elevado ao estatuto de boa administração económica: «Com o investimento interno, mesmo que seja feito de modo estouvado ou extravagante, pelo menos o país tem melhoramentos pelo respectivo valor; o mais mal concebido e mais extravagante plano de habitação que se possa imaginar deixa-nos com algumas casas» (Keynes apud Wapshott). Música celestial para os ouvidos de um político no mercado dos votos.

Por contraste, o soneto de Miguel Ângelo confessa-nos que o preço do tecto da Capela Sistina são quatro longos anos de renúncia e resolução: o “bócio”, o “peito de harpia”, “os lombos na pança”, o “pincel acima da cara todo o dia / Dela faz rico pavimento, gotejando”. Numa palavra: o sacrifício e, conferindo-lhe tenacidade e propósito teleológicos, o tempo – esse grande escultor, aprendiz de Miguel Ângelo.

Keynes ensina-nos os méritos dos estímulos ao consumo por via do endividamento, escondendo-nos que o seu preço é o empobrecimento decorrente da fatídica delapidação de capital. Preferência temporal: alta. Acumulação de capital: baixa. Prosperidade civilizacional: efémera. Miguel ngelo ensina-nos as virtudes da acumulação de capital resultante da poupança (portanto: do adiamento da satisfação; portanto: da renúncia presente; portanto: do bócio), revelando-nos que o aumento do consumo é o efeito, e não a causa, do enriquecimento. Preferência temporal: baixa. Acumulação de capital: alta. Prosperidade civilizacional: duradoura.

Keynes ensina-nos a pensar a economia no curto prazo, porque no longo estamos todos mortos; Miguel Ângelo, a pensá-la no longo, porque no curto não há tempo para pintar a imortalidade da alma. O sacrifício de hoje é o benefício de amanhã. O bócio miguelangeliano de hoje é o tecto da Sistina de amanhã. O bócio é a condição da civilização.

O tecto da Sistina é, para além de um tecto renascentista, um tecto anti-keynesiano. O keynesianismo foi refutado em andaimes e gesso húmido meio milénio antes do seu trágico surgimento. Basta levantar a cabeça e olhar para cima. Há um tecto em Roma que há mais de 500 anos nos lembra que é verdade que no futuro estamos todos mortos. Mas não os nossos filhos. Nem os filhos dos nossos filhos. Nem os filhos dos filhos dos nossos filhos.

Como os indivíduos, cada civilização é o resultado da noção de futuro que tem de si mesma. Como os indivíduos, cada civilização é o resultado das escolhas de si mesma que faz consigo mesma. Como os indivíduos, cada civilização é o resultado da escolha presente que faz de si mesma no futuro. Como os indivíduos, cada civilização é o corolário paradoxal das gratificações que escolhe sacrificar: ou as futuras em função das presentes, estas exaurindo aquelas, empobrecendo-as por deferimento – ou as presentes em função das futuras, aquelas capitalizando estas, enriquecendo-as por diferimento. Por outras palavras, cada civilização está condenada a escolher entre o multiplicador de Keynes e o tecto da Sistina. E, ao escolher entre um e outro, é sobre empobrecer ou enriquecer – sobre si mesma, portanto – que estará a escolher.