Creio que o anúncio da sua não recandidatura à liderança do CDS feito por Assunção Cristas, no rescaldo das eleições do passado dia 6 de Outubro, simultâneo à marcação para os dias 25 e 26 de Janeiro de 2020, na cidade de Aveiro, do 28.º Congresso do CDS-PP, foi intempestivo e errado, porque afunilou e comprimiu à partida um debate que era e é indispensável e não criou espaços para a identificação e total compreensão das várias causas próprias e alheias ao CDS (que existem) que determinaram – decisivamente – o mau resultado eleitoral.

Além disso, mobilizou a miríade de candidatos a dirigente máximo do partido que se vê e que realmente podem não servir (sendo uns, valha a verdade, relativamente melhores e mais articulados do que outros).

Tendo-se assim criado uma falsa aparência de vitalidade partidária, teme-se, justificadamente, que o Congresso (só) possa servir para palco de rixas e vãs façanhas, de lutas de cromos e combates de verso e anverso aos gritos. Com votações desgrenhadas e de cabelos arrancados a más horas da madrugada. A anos-luz do que seja democracia.

Com efeito, não temos tempo para desbaratar, nem pachorra para aguentar mais uma dose dessa requentada sopa da pedra do ajuste de contas partidário (apesar de tão desejada e desvelada pela subespécie do homo mediaticus).

Já vimos o filme. Um congresso assim passava necessariamente ao lado de tudo quanto é importante e essencial e só podia acomodar a projeção de uma “liderança” fraca e transitória. Um congresso ao lado de perceber bem o que se passou nas últimas eleições legislativas. E que também ficaria longe de um país demasiado atrasado e espantado que continua à espera.

Porque a vida partidária não pode resumir-se a um clube de cromos, com claques.

O CDS não é uma barraca de gelados, que depois do desaire de Outubro de 2019 tenha de mudar apressadamente de sabores.

Além disso, o resultado eleitoral de 4,3%, sendo objectivamente muito mau, não é o pior da sua história. Em 1991, o CDS (com Freitas do Amaral) elegeu os mesmos 5 deputados e em 1987 (com Adriano Moreira), o CDS elegeu 4 (com 4,4%).

Mas esse mau resultado podia ser diferente? Podia. Só que a par da pouca mobilização da militância na campanha, que foi táctica e notória, verificou-se a habitual autofagia, excessiva e constrangedora; basta pensar no histerismo à volta da questão da reposição dos professores.

Os resultados da última noite eleitoral também foram (criticamente) ditados pela circunstância das escolhas num eleitorado demasiado volúvel aos media, estarem feitas há muito, com a promessa de uma vitória garantida (apesar de muito mais sofrida do que se esperava) de António Costa.

Por outro lado um tanto inesperadamente, Rui Rio fez uma excelente campanha eleitoral e o PSD conseguiu o feito de subir acima dos 25%. Acrescem as deduções dos votos desviados pelo aparecimento do Aliança, do Chega, da IL.

De tudo isto – e mais uma vez também pelo efeito lastimável de um voto útil maciço que realmente aconteceu – decorreu de forma mais ou menos linear o péssimo resultado eleitoral do CDS nas legislativas.

Mas seria injusto não reconhecer que o CDS foi a única força de oposição que se viu nos 4 anos da anterior legislatura. Um partido que se bateu empenhadamente e em muitas frentes pelas vítimas dos criminosos incêndios de 2017, tendo Assunção Cristas sido uma protagonista séria, esforçada e competente desse bom combate. Nas questões ditas civilizacionais, com a eutanásia em primeiro lugar, o CDS também esteve muito bem e do lado certo em todas as votações. Mas, como dizia o outro, e também na política, “Há mar e mar, há ir e voltar…!”

Há que retomar a esperança e continuar a lutar. É urgente atrair novos quadros, aumentar o número de bons protagonistas da qualificação e do mérito que estão na sociedade civil. É indispensável um CDS mais confiável. Mais fidedigno. Alheio a quaisquer conveniências particulares e a todas as sinecuras do aparelhismo partidário.

Porque do PS, da esquerda e do centrão dos interesses em geral não há nada a esperar.

Para esse desafio, que é urgente e primordial, este congresso corredio que vai posto pode não servir, ou seja, se lhe faltar altura, rasgo e visão.